Moro fará de Lula primeiro mártir contemporâneo da América Latina

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No começo da noite da última quarta-feira, ao lado da esposa, principiei a assistir as cinco partes do segundo depoimento de Lula a Sergio Moro disponibilizadas pela Justiça Federal à imprensa – desta feita, Lula depôs em processo que o acusa de ter recebido um terreno e um apartamento da empreiteira Odebrecht a título de “propina”.

Cito minha esposa porque, ao ouvir Lula reagir com dureza ao interrogatório de Moro, ela se preocupou e me perguntou se não seria pior para ele confrontar aquele que iria julgá-lo e os seus acusadores do Ministério Público.

Pelos quatro cantos do país, muitos devem ter pensado a mesma coisa…

Para entender a estratégia da defesa de Lula, vale explicar que foi importantíssimo ele ter sido altaneiro no depoimento. Se tivesse se mantido cabisbaixo e humilde, não mudaria uma vírgula da sentença condenatória que todos sempre souberam que Moro emitiria contra ele desde muito antes de ser condenado em julho, pela primeira vez, por esse magistrado.

Em se tratando de Sergio Moro, é tolice achar que qualquer coisa que Lula diga ou faça poderá mudar a decisão inabalável do magistrado em condená-lo. Lula poderia trazer Jesus Cristo para depor a seu favor que não faria diferença. Há, claramente, um viés político na Justiça que julga Lula.

Dessa forma, Lula optou por enfrentar um juiz que usa o processo legal com fins político-ideológicos. Pelo menos faz o que espera o setor da sociedade que o apoia e, com isso, ganha força política assim como Moro ganha no lado oposto do espectro político.

Apesar de Moro ter se comportado com aquela vozinha melíflua durante o interrogatório do ex-presidente, cheio de mesuras irônicas, no “dia a dia” desse processo o magistrado alfineta seus alvos “comunistas” sempre que pode – e este blogueiro fala por experiência própria, pois o magistrado usou e abusou de “recadinhos” em suas decisões sobre as acusações que me fez.

Um bom exemplo foi a decisão de Moro de tentar obrigar Lula a comparecer a TODAS as 83 audiências de 83 testemunhas que apresentou em um dos processos a que responde – decisão logo reformada pelo Tribunal Regional Federal da Quarta Região (TRF4) pelo absurdo inerente.

Mas essa disputa política entre o magistrado e o ex-presidente fica mais evidenciada em dois momentos da oitiva de Lula por Moro na última quarta-feira. Lula chamou de “querida” a procuradora que o interrogava e foi repreendido por Moro para não tratá-la dessa forma. Em resposta, Lula pediu a Moro para não usar o termo “denegrir” porque é um termo considerado “racista”.

Assista, abaixo, a esses dois momentos do debate, digo, do interrogatório de Lula por Moro.

Evidenciada uma situação de embate político que tem muito pouco que ver com “justiça”, vale dizer que, nesse segundo processo, Moro se ampara em vento, mais uma vez, para condenar Lula.

Quem assistiu o interrogatório da última quarta-feira pôde ver que o caso contra o ex-presidente se ampara em três pontos.

1 – Pagamento de aluguel

Glauco da Costa Marques, primo do amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva José Carlos Bumlai, disse, em depoimento a Moro, que levou “calote” durante quatro anos e nove meses do petista após comprar um apartamento ao lado do do ex-presidente em um condomínio em São Bernardo do Campo (SP).

De acordo com Marques, o espaço era utilizado por Lula antes dele assumir a presidência e passou a ser alugado pela Secretaria do Planalto quando o petista assumiu o poder.

Marques conta que a ideia para ele comprar o apartamento partiu de Bumlai em julho de 2010. Segundo ele, o pecuarista ficou preocupado com a possibilidade alguém se tornar proprietário do imóvel com a morte do antigo dono.

Costa Marques é mais um réu da Lava Jato que mudou a versão para acusar Lula após ver que seria encarcerado por muito tempo se não fizesse o que Moro e o Ministério Público querem.

Lula diz que pagou sempre o aluguel – e chega a ser ridículo achar que um político da envergadura de Lula se sujaria por um pequeno valor como o do aluguel de um imóvel modesto em um momento em que políticos realmente flagrados em corrupção aparecem em gravações cobrando MILHÕES em propina, como Aécio Neves.

2 – Contrato encontrado durante busca e apreensão

A operação de busca e apreensão em 4 de março de 2016 na residência do ex-presidente Lula teria encontrado um documento sobre obras a serem feitas em um dos imóveis que estão sendo apresentados pelo Ministério Público como “propina” para Lula. O ex-presidente diz que nunca viu esse documento e põe em dúvida que tenha sido encontrado em sua residência.

3 – E-mail de Marcelo Odebrecht a assessor do ex-ministro Antonio Palocci tratando de aquisição de imóvel para Lula.

Esses três pontos constituem o caso do MP contra Lula. Eles não têm nada mais do que isso.

Mandar para a cadeia para o resto da vida um ex-presidente da República que jamais sofreu condenação alguma na Justiça antes de julho último e que é o preferido dos brasileiros para governar o Brasil a partir de 1º de janeiro de 2019 é uma sandice.

Com essas suposições tão fracas que Moro fatalmente chamará de provas – e são tão ou mais fracas que as usadas para condenar o ex-presidente no caso do tríplex –, manter-se-á viva a percepção de ao menos metade dos brasileiros de que Lula é alvo de perseguição política.

O presidente do Tribunal que julgará Lula em segunda instância no processo do triplex antecipou a condenação do ex-presidente em declaração desastrada e recente. Claro que essa condenação dependerá do clima político nos próximos meses, mas, se ocorrer, irá revoltar o eleitorado majoritário de Lula, que, ano que vem, estará sonhando com a volta dele ao poder.

Ao fim de tudo isso, Lula será inocentado. Se for inabilitado para disputar 2018, será um eleitor poderoso e se tornará o primeiro mártir contemporâneo da América Latina, condenado e, talvez, até encarcerado por conta de processos obscuros em que terá sido condenado por meros indícios e suposições.

Não há como os golpistas se darem bem com isso. Os brasileiros vão se revoltar. Quem viver, verá.

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