O sofrimento de Victoria

Crônica

publicado, originalmente, em 30 de maio de 2010

Prometera a mim mesmo que tentaria escrever menos sobre a minha vida neste novo espaço, apesar de um blog ser, por definição, um diário, só que na internet. E, sendo um diário, um blog serve para que nele se registrem reflexões, ponderações, análises, desabafos, comemorações, enfim, tudo o que se passar na alma do autor.

Mas achei de tentar me segurar porque os que se opõem ao que faço aqui andam usando meus desabafos para me atingir. Não me preocupo com difamação, porque tenho a consciência em paz. Porém, certos ataques, em determinados momentos em que se está fragilizado, machucam.

Mas depois eu penso: quem usa o sofrimento de um homem com uma filha doente para atacá-lo é que é digno de pena. Essas pessoas acabam difamando a si mesmas ao alardearem esse tipo de ataque contra alguém. Então volto aqui para desabafar, porque me faz bem e porque não dou a mínima para o que possam pensar.

Enfim, só acessa o meu blog quem quer. Se o construí, nestes anos todos, escrevendo o que queria, o que sentia, o que precisava escrever e há quem continue me lendo, então, de alguma forma, faço bem ao usar este espaço também para registrar momentos em que o espírito fraqueja.

Passei as últimas 24 horas velando por minha filha Victoria no quarto de hospital em que ela está internada há cerca de duas semanas – acho que a família já perdeu a noção do tempo, eu incluído. Não consegui dormir, ver tevê ou fazer qualquer outra coisa que não fosse postar aqui e ler as notícias, tentando tirar a cabeça da situação nos intervalos entre os picos de sofrimento de Victoria.

Tentativas vãs de lhe alcançar as veias deixaram suas mãos, pés, pulsos, tornozelos e até o pescocinho cheios de manchas rochas, remanescentes de dolorosas agulhadas; a sonda entrando pela narina direita até seu estômago; o “fechamento” da gastrostomia que não cicatriza, vaza suco gástrico e queima a pele da criança; a torturante aspiração com tubo das vias aéreas para coletar secreção excessiva…

Como ela sofre, meu Deus.

Não entendo mais nada. Tenho que compartilhar isto com vocês. Por que um ser inocente, tão frágil, tem que sofrer tanto? Por que essa dor não é reservada para os maduros como eu, para aqueles que já viveram o suficiente para ao menos poderem entender a dor?

Victoria não entende por que aquelas pessoas estão lhe causando dor. Infelizmente, seu cérebro não alcança tanto. Então ela tem medo. Estremece ao menor contato, pensando que já irão machucá-la de novo. Até o meu toque inicial a assustou, hoje.

Não posso descrever como me doeu vê-la se assustar com o toque de meus dedos em seu rostinho. Eu faria qualquer coisa para que ela parasse de sofrer. Trocaria de lugar com ela sem pensar um segundo. Morreria feliz e realizado se a minha morte desse uma vida normal à minha menina.

Provavelmente, daqui a pouco me arrependerei de ter postado este texto, mas então será tarde e ele ficará aqui como tantos outros já ficaram. E, provavelmente, minha filha irá melhorar daqui a algumas semanas, na melhor das hipóteses. Ela já ficou assim outras vezes e se recuperou.

O que me apavora, a única coisa nesta vida que ainda me assusta, não são os grupos de interesses que desafio, os impérios de comunicação ou os políticos poderosos que incomodo, mas a hipótese de que minha filha não volte de um desses mergulhos na dor e no sofrimento que ela começa a dar a espaços de tempo cada vez mais curtos.

Ao terminar este texto, voltarei para o lado da Victoria no hospital onde ela está com o resto da família. Só vim para casa descansar um pouco e comer. Assim que este espírito amainar, volto aqui para liberar comentários e, com sorte, para dizer que estava muito impressionado por conta de uma noite insone.