Colunista da Folha diz que STF impedirá prisão de Lula

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Na última coluna argumentei que, embora a Lava Jato não tenha viés partidário, o jogo institucional brasileiro fez com que ela só causasse grandes derrotas políticas à esquerda.

Alguns comentaristas levantaram objeções razoáveis, que passo a responder agora, inclusive como forma de situar os desdobramentos do julgamento de quarta-feira (24).

A primeira objeção se refere ao critério para dizer que um político foi derrubado quando era politicamente relevante.Dilma foi abatida quando era presidente, Lula quando liderava as pesquisas presidenciais. Isso já mostra a diferença de impacto, mas, vamos lá: como saber se os políticos de direita que foram presos (Cunha, etc.) eram comparavelmente relevantes?

Um critério que me parece razoável, mesmo que não suficiente, é o seguinte: o político de direita caiu enquanto sua queda ainda quebrava Bolsa?
O mercado costuma gostar da direita e seus pânicos talvez precifiquem bem o tamanho do dano que cada crise causa aos conservadores.

No Joesley Day, a Bolsa desabou, porque o mercado percebeu que a queda de Temer, naquele momento, seria muito prejudicial para a agenda de reformas. Mas Temer não caiu enquanto ainda quebrava Bolsa. Se cair, será quando não quebrar mais. Cunha teria quebrado Bolsa se tivesse caído antes do impeachment.

Só caiu quando não mais quebrava.

A segunda objeção se refere ao foro privilegiado. Políticos importantes de direita não foram julgados ainda porque têm foro privilegiado, e talvez esteja aí a explicação da assimetria.

Esse argumento ignora que a manutenção ou a perda do foro também é resultado da disputa de poder. Lula teria foro se tivesse assumido a Casa Civil. As instituições o barraram. Moreira Franco adquiriu foro exatamente da mesma forma, e as instituições foram impotentes para impedi-lo. Aécio NevesMichel Temer não deveriam mais ter foro, porque deveriam ter sido cassados. Se Dilma for condenada por alguma coisa, não será porque não tem mais foro; ela não tem foro porque sofreu impeachment.

Enfim, deixando de lado a discussão jurídica, a análise dos efeitos políticos das investigações dos últimos anos mostra um vencedor claro. O livro do Raymundo Faoro não é sobre sindicalistas.

Como essa história acaba?

Se a condenação de Lula cravou o 7 a 1 contra a esquerda, os desdobramentos de seu caso ainda podem dar a chance de os vencedores fazerem sua volta olímpica.

Como parte da revogação progressiva da Constituição de 2015, faz meses que o STF está pronto para reverter a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância.

Não há mais esquerdistas no poder, de modo que Gilmar Mendes já pode virar garantista.

Para o STF, a condenação de Lula é um problemão: se esperarem a prisão de Lula para matar a Lava Jato, o viés conservador será escandaloso. Mas se a mudança beneficiar Lula já, o gesto será visto como um casuísmo para beneficiá-lo.

Problema para Cármen Lúcia, oportunidade para o establishment: com uma nova modulação das regras, pode ser possível barrar a candidatura petista e ainda jogar a culpa do acordão no PT, cujos dirigentes, aliás, o apoiarão com entusiasmo.

E assim terá terminado a crise de 2015: com a esquerda aplaudindo a manobra de quem a derrubou.

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