Bolsonaro enche o MEC de milicos

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O grupo ligado aos militares conseguiu emplacar nomes para os cargos mais importantes no Ministério da Educação do governo do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Os cinco futuros integrantes da pasta já dados como certo têm conexão com os militares.

O futuro ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodriguez, já tem indicações para as secretarias executiva e de Educação Básica do MEC e para as presidências do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) e do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação). O quarto nome confirmado para a pasta pode ir para a secretaria de Educação Superior ou para a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

A influência do grupo de militares é reflexo da dificuldade do futuro ministro em ter opções para sua equipe, segundo avaliação de pessoas que têm participado das conversas na transição. Vélez não tem experiência em gestão educacional ou nas discussões de políticas públicas da área. Foi escolhido por indicação do escritor Olavo de Carvalho, espécie de mentor ideológico da onda conservadora no Brasil.

A secretaria-executiva do MEC, cargo considerado o número 2 da pasta, será ocupada pelo cientista político Antonio Flavio Testa, pesquisador da UnB (Universidade de Brasília). Testa é técnico legislativo do Senado aposentado e já foi chefe de gabinete do senador Eunício Oliveira (MDB-CE). Tem estado nas conversas sobre educação desde antes das eleições mas é ligado ao grupo de generais.

Outro nome sob a influência dos militares é o do professor de finanças da FGV Carlos Alberto Decotelli. Ele deve assumir a presidência do FNDE. O órgão é responsável, por exemplo, por programas de transferências a municípios, como o de merenda, e pelo Fies (programa de financiamento estudantil).

Decotelli tem participado ativamente das reuniões de transição no ministério e visitou o FNDE na última semana, sem a presença do futuro ministro.

Profissionais ligados ao ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) têm colaborado com Vélez na transição. O reitor do instituto, Anderson Ribeiro Correia, vai assumir ou a secretaria de Educação Superior ou a Capes. O ITA é ligado às Forças Armadas.

Engenheiro e doutor pelo ITA, Luiz Antonio Tozi será o secretário de Educação Básica do MEC. Tozi é o atual vice-diretor superintendente do Centro Paula Souza, autarquia paulista que gerencia as Etecs e Fatecs (escolas e faculdades técnicas ligadas ao governo do estado de SP).

Já presidência do Inep, que organiza o Enem, deve ser ocupada pelo engenheiro Marcus Vinicius Rodrigues. Ele é professor da FGV, atuou por quase vinte anos como executivo dos Correios. Rodrigues está empenhado nas discussões da transição do MEC e, à Folha, disse que não tem a confirmação para o cargo.

Rodrigues, Decotelli e Testa colaboram com Bolsonaro desde antes da eleição. Sempre foram apontados como elos entre os militares e a academia.

O discurso mais efusivo de Bolsonaro sobre educação sempre foi relacionado a questões morais. Envolvem um combate de raiz religiosa contra a abordagem de questões de gênero na escola e a uma suposta doutrinação generalizada de esquerda nas escolas.

O futuro ministro já escreveu que a educação brasileira quer impor à sociedade “uma doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista”. Sua indicação foi comemorada pelos defensores do projeto Escola sem Partido, que busca controlar o que o professor pode falar em sala de aula.

Nas reuniões de transição no MEC, entretanto, Vélez e sua equipe têm se surpreendido com a dimensão das ações da pasta, segundo relatos ouvidos pela Folha. O ministério conta com orçamento da ordem de R$ 140 bilhões. O futuro ministro e a equipe têm evitado contato com jornalistas.

Além dos nomes já indicados para os cargos, há uma equipe de transição para a área de educação com nove pessoas, mais o futuro ministro. Fazem parte desse grupo, por exemplo, professores, três pessoas ligadas aos Bombeiros, um militar ligado à área de educação a distância, dois políticos do PSL e um professor que faz análises de supostas doutrinações de esquerda em livros didáticos.

O professor goiano Orley José da Silva é colaborador do movimento Escola Sem Partido. Silva reúne desde 2014 em seu blog exemplos do que classifica como doutrinação de esquerda em materiais didáticos que fazem parte das compras do governo.

Em texto recente, ele critica obras que chegam no ano que vem às escolas por apresentar a escravidão “como um ato desumano exclusivo da elite branca eximindo as comunidades africanas que escravizam sua própria gente”. Também relativiza trechos de livros que falam sobre o genocídio indígena na colonização, “como se os europeus não tivessem oferecido nada de bom aos índios, nem mesmo educação.”

Sob o título  “Livros do MEC de Temer poderão engessar ações didáticas do MEC de Bolsonaro”, Silva ainda afirma que a questão quilombola é uma pauta do PT. Também ataca atividades que buscam quebrar preconceitos de gênero, como normalizar a prática de futebol por meninas, e defende alterações na Base Nacional Comum Curricular.

Orley preferiu não dar entrevistas por, segundo ele, não saber ainda como será a política do futuro governo para os livros didáticos. Ele afirmou que participa do grupo apenas como auxiliar e voluntário.

O professor colaborou com os trabalhos iniciais sobre educação para o programa de governo de Bolsonaro, coordenados pelo professor Stavros Xanthopoylos.

Especialista em educação a distância, Xanthopoylos foi um dos primeiros cotados para o MEC. Seu nome enfraqueceu na medida em que o grupo de militares e conservadores ganhou força.

Para ele, a agenda ligada ao movimento Escola sem Partido não deve se sustentar dentro do governo. “Existem questões mais centrais para resolver. Essa agenda [do Escola sem Partido] não pode ir para um lado nem para outro”, disse.

Da FSP