Jovens afirmam que militares forjaram seus depoimentos sobre tortura

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Dois jovens, de 20 e 21 anos, e um adolescente de 16 anos que supostamente foram alvo de tortura após uma operação do Exército no Complexo da Penha, zona norte do Rio, em 20 de agosto, reforçaram a acusações contra os militares nesta quarta-feira (12). Eles foram ouvidos nesta tarde na sede do MPF (Ministério Público Federal) no Rio e também disseram que seus depoimentos tomados por militares na semana passada foram forjados.

Os rapazes alegam ter sofrido choques, espancamento com madeiras, ataques com spray de pimenta, chutes e socos. Na ocasião, o menor e outros sete homens foram presos. Os oito alegam ter sido vítimas de agressões praticadas pelos militares

Eles declararam também que três homens e uma mulher (todos vestindo farda do Exército) foram tomar seus depoimentos na última quinta-feira (6) na Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, zona norte do Rio, onde estão presos desde o dia da operação, em agosto. A Defensoria Pública do Estado já entrou com o pedido de habeas corpus no Tribunal de Justiça do Rio.

Segundo os relatos, prestados nesta quarta ao procurador federal Eduardo Benones, do MPF, e ao defensor Thales Arcoverde Treiger, da DPU (Defensoria Pública da União), foi a mulher quem digitou o depoimento prestado aos militares na semana passada.

Nenhum defensor público acompanhou o depoimento, disseram. Eles também alegam que não foi lhes dada a opção de permanecer em silêncio. Quando foram assinar o depoimento prestado aos militares, os jovens constataram falas editadas e trechos subvertidos, que não correspondiam aos seus relatos.

“Eles ficaram me apressando para falar. Eu entrei numa sainha [no presídio de Benfica] e meu depoimento começou às 10h05. Durou até 10h45”, declarou um deles.

Um dos rapazes alegou que assinou o documento por ter “medo de represálias”. Ele diz ainda que foi orientado a tomar cuidado com o que fosse falar. “Presta atenção no que você vai falar para não dar problema”, teria dito um dos militares.

Os dois jovens alegam que estavam desarmados em 20 de agosto, que são usuários de maconha e que, na madrugada em que a operação foi deflagrada, estavam consumindo a droga na comunidade. Eles estão presos sob acusação de associação ao tráfico desde o dia da operação.

O processo que corria na Justiça Millitar – em que eram acusados de tentativa de assassinato – foi encerrado por falta de provas, segundo o defensor público da União que acompanhou os depoimentos de hoje.

Hoje, os dois rapazes e o menor deram detalhes da tortura que teriam sofrido no dia 20 de agosto. Eles afirmaram que foram levados para uma “sala vermelha” dentro de um quartel do Exército – embora um deles não tenha certeza da precisão da localização. Os fatos supostamente teriam ocorrido na Vila Militar, em Deodoro (zona norte do Rio).

Os três teriam ficado detidos por 12 horas no local. De lá, foram encaminhados à Cidade da Polícia, complexo da Polícia Civil em Jacarezinho, zona norte do Rio, durante a noite. Um deles afirmou ainda que, ao entregar o caso para o delegado de polícia, os militares teriam tentado forjar um suposto flagrante plantando uma sacola de drogas e armas que, segundo o relato, não pertencia a nenhum dos presos.

No dia seguinte, os maiores de idade foram encaminhados à Cadeia Pública José Frederico Marques, em Jacarezinho, zona norte do Rio. Já o menor foi levado a um centro de detenção juvenil.

As supostas torturas teriam começado no quintal de uma casa de uma senhora idosa no Complexo da Penha. Os jovens teriam sido agredidos com coronhadas, socos e chutes. Em depoimentos separados, os jovens relataram que a senhora começou a filmar a ação dos militares e que teria dito que “aquilo não estava certo”. Os militares teriam feito a mulher apagar o vídeo.

Os dois adultos relataram que, durante as sessões de tortura, tiveram a cabeça batida no chão com “pisões” desferidos seguidamente por militares. Um deles afirmou que foi baleado na cintura durante a operação.

Tanto ele quanto o menor de 16 anos contaram também que corpos de pessoas mortas foram jogados sobre os deles dentro de uma viatura dos militares.

“Pensei que ia morrer”, disse o jovem que foi baleado na cintura. Segundo seu relato, os militares ficaram circulando por cerca de 20 minutos até encaminhá-lo ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, zona norte do Rio. “Eu estava perdendo muito sangue e tinha um corpo em cima de mim. Eu me senti sufocado e com falta de ar”, declarou.

Quando reclamava sobre a falta de ar e a perda de sangue, narrou a suposta vítima, os militares desferiam choques com laser em diversas partes do seu corpo e borrifavam spray de pimenta dentro do carro.

Dentro da Vila Militar, o outro depoente alegou ter sido espancado na sala vermelha com “madeiradas” na nuca, canela e costas. As fotos dos hematomas da nuca estão anexadas ao processo do Tribunal de Justiça do Rio, conforme revelou o jornal “Extra” em agosto.

O menor de 16 anos também disse ter sido vítima de choques e espancamento. Amedrontado e depondo com voz baixa e trêmula, o adolescente ainda apresenta marcas de algemas nos pulsos.

Sua mãe, que também prestou depoimento hoje ao MPF, contou que só pôde ver o filho na audiência de custódia, e que seu corpo estava coberto de hematomas. Ao UOL ela contou que o adolescente não é mais o mesmo desde o dia 20 de agosto.

“Ele fala para mim que nasceu naquele dia”, disse, sob condição de não ter a sua identidade revelada. “Ele só não morreu porque um tenente da operação era da comunidade e conhecia a avó dele, que mora lá. Foi poupado por isso”, declarou.

Após a prisão, o menor faz tratamento psicológico em uma UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) e dorme, durante a semana, em um centro de detenção juvenil.

Todos dizem que não conseguem identificar os militares porque eles usavam balaclava (bandana que cobre parcialmente o rosto).

O menor disse que fez exame de corpo e delito a pedido da Justiça estadual duas semanas após o dia 20 de agosto. Outra suposta vítima declarou que uma médica o examinou em Benfica algumas semanas depois, mas que não teve acesso ao laudo. O terceiro depoente disse que não passou, em nenhum momento, por um exame de corpo e delito.

Todos os três exibem cicatrizes que, segundo eles, foram causadas pelas sessões de tortura perpetradas pelos militares.

“Quero que a Justiça desse país seja feita. Nunca pensei em passar por isso como estou passando. Minha família toda foi militar. Meu avô foi ex-combatente, meu primo trabalha na UPP [Unidade de Polícia Pacificadora]. Eu também servi”, lamentou um dos depoentes.

O UOL procurou o porta-voz do CML, Carlos Cinelli, mas ele não foi localizado até a publicação desta reportagem para comentar os depoimentos. O CML (Comando Militar do Leste), que responde pelas operações militares no Rio, também não retornou os questionamentos enviados até o fechamento do texto.

A segurança pública do Rio de Janeiro está sob intervenção federal desde fevereiro –o decreto do presidente Michel Temer (MDB) permanece em vigor até o final de dezembro. As Forças Armadas atuam no estado sob GLO (Garantia de Lei e Ordem), que autoriza a atuação de militares na segurança pública, desde julho do ano passado.

Do UOL