Para Jean Wyllys, José Padilha não escapará do julgamento da história

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Se o cineasta José Padilha não conseguiu ser honesto intelectualmente em sua série “O mecanismo”, apesar de ter, à sua disposição, todas as informações verdadeiras, os fatos históricos e interpretações sofisticadas da crise política e institucional brasileira; se o cineasta conseguiu, apesar de seu acesso privilegiado a círculos políticos e intelectuais que lhe informavam sobre o que realmente estava em curso no país para além do que a imprensa divulgava de modo parcial e politicamente motivado; se apesar disso tudo, Padilha conseguiu produzir uma peça de propaganda antipetista que mal se distingue das fake news e memes mentirosos construídos pela extrema-direita para interpelar sob medida os imbecis e fascistas da classe média, por que ele seria honesto intelectualmente agora em seu “pedido de desculpas” na Folha de São Paulo?

Ao confessar publicamente que “errou” ao acreditar na independência política de Sergio Moro, e repetir o óbvio sobre seu “pacote anti-crime” (que este não passa de uma política que vai dar mais poder às organizações criminosas que nascem dentro das próprias polícias civis e militares Brasil a fora, como células cancerígenas num corpo, como uma disfunção no interior do sistema); ao recorrer a esse estratagema, o cineasta se coloca como alguém que esteve todo esse tempo enganado pelo ex-juiz de Curitiba, como um pobre ingênuo que depositou sua boa fé em alguém que supunha herói.

Mentiroso!

E para provar que ele está apenas querendo salvar sua suposta reputação ante o fracasso e deriva fascista do (des)governo incompetente, anti-cultura e anti-educação que ajudou indiretamente a eleger, eu torno pública, a partir de agora, uma história que nos envolve e, na qual, eu lhe apresentei contestações e argumentos que deveriam servir de alguma coisa se esse sujeito estivesse realmente interessado em entender o que se passava no Brasil à época do impeachment de Dilma Rousseff e em levar em conta todos os pontos-de-vistas que se apresentavam na arena pública; conteúdo que seria, no mínimo respeitado, se Padilha não estivesse, ele mesmo, politicamente motivado e de acordo com o comportamento antirrepublicano e antidemocrático do agora ministro da Justiça de Bolsonaro; afinal ele sabia que se tratava de argumentos vindos de alguém honesto em todos os seus níveis e de fora do PT.

Certo dia, abro minha caixa de e-mails e encontro uma mensagem de José Padilha dirigida simultaneamente a Marcelo Freixo, Chico Alencar, Wagner Moura e a mim. Nesta, o cineasta exigia que nós retirássemos o apoio que havíamos dado à candidatura da Dilma no segundo turno das eleições de 2014, presidenta que, segundo ele, pertencia a “uma quadrilha horrorosa travestida em partido de esquerda”. Exigia mais: uma “frase contundente” admitindo nosso “erro” como condição para nós continuássemos a nos perceber como honestos e contrários ao que ele chamou de “banditismo e a corrupção que estão destruindo o país”.

Bom, colocarei aqui as minhas respostas a ele na subsequente troca de mensagens que se seguiu entre nós (entre ele e eu, já que os demais destinatários, quando não se calaram por constrangimento, foram econômicos e elegantes em suas respostas, seguramente porque são ou eram seus amigos pessoais); vou abrir o que eu escrevi para o diretor de filmes e séries porque as mensagens são minhas e eu tenho o direito de fazer delas o que bem entender, sobretudo para evitar que alguns escapem, por esperteza, ao julgamento futuro da História – e, assim, eu mesmo me coloco sob o veredito vindouro dessa Grande Juíza.

“Bom, agradeço muito o apreço, o respeito e admiração. De verdade! E ressalto que falo aqui por mim (não pelo partido ou pela bancada). De minha parte não haverá retirada alguma de apoio dado (a um programa e a um conjunto de políticas e direitos conquistados, e não a uma pessoa específica; não fulanizo a política) em contexto histórico e político específicos (que deveriam ser sempre levados em conta por qualquer pessoa que deseje um debate honesto intelectualmente sobre política). As razões daquele apoio contextualizado foram devida e exaustivamente expostas na ocasião. De lá pra cá, qualquer pessoa que acompanhe minimamente o meu mandato sabe que me coloquei em oposição à esquerda e responsável ao governo que ajudei a eleger em segundo turno. Tudo isso já estava dito naquele contexto. Logo, não retirarei apoio algum e não direi nada que não esteja na linha do que já dissemos publicamente (favor consultar a nota que a bancada emitiu assim que o escândalo veio à tona). No mais, gostaria de lembrar que a quadrilha de plutocratas e cleptocratas que assaltam as estruturas públicas há anos não é composta por pessoas de um único partido nem pertencem a um único governo. Só para ficar num exemplo: o plutocrata banqueiro que foi preso custeou a lua de mel de Aécio Neves e o próprio senador integrou a diretoria da Petrobras como representante do PSDB no governo FHC. Se quisermos passar este país a limpo de verdade; se quisermos erradicar a corrupção que gangrena as estruturas públicas deste país, bem como o crime organizado, não podemos aceitar a blindagem e a cobertura seletiva por parte da chamada “grande mídia”. Festejei a prisão do senador Delcídio do Amaral (PT-MS), mas queria ter festejado a, no mínimo, investigação do episódio em que o helicóptero do senador Zezé Perella (PDT-MG) foi flagrado com meia tonelada de pasta de cocaína. Quero ver petistas corruptos pagarem pelo seu crime. Mas não só eles! Quero presos e expostos também os corruptos do PMDB (Cunha e Renan permanecem presidentes da Camara e do Senado respectivamente); do PP e do PSDB. Não se erradica a corrupção expondo uns e blindando descaradamente outros; ao contrário: apenas se permite que ela seja praticada largamente por um grupo e não por outro! E qualquer pessoa que deseje debater esse tema de maneira honesta e respeitosa terá de sair do maniqueísmo fácil e rasteiro. Um abraço e reitero que o carinho e admiração são recíprocos!

Detalhe: nunca havíamos sido apresentados pessoalmente; e eu só estava sendo polido até porque fui incluído num grupo de pessoas que são ou eram suas amigas.

Após ele me enviar uma tergiversação em que exaltava Moro e a Lava Jato e tratava a corrupção no sistema político brasileiro praticamente como algo criado pelo PT, eu lhe respondi, ainda tentando manter a fofura:

“Meu querido, estou tendendo a achar que você a) está sacaneando com minha cara, fingindo não entender o que estou dizendo; b) está agindo de má fé deliberada, deturpando propositadamente o que estou dizendo desde a primeira resposta; ou c) que suas fontes de informação acerca da cena e jogo políticos estão destruindo sua capacidade cognitiva e reduzindo seu repertório cultural a um punhado de clichês e senso comum rasteiro típicos dos leitores de Veja e da audiência “Homer Simpson” do Jornal Nacional.

Não estou defendendo petistas. Não sou petista. Nunca estive sequer filiado a qualquer partido antes do PSOL. Eu e meus colegas de bancada e meu partido FAZEMOS OPOSIÇÃO AO GOVERNO DO PT/PMDB. Vou repetir: NÓS FAZEMOS OPOSIÇÃO AO GOVERNO DO PT, SEJA NA CÂMARA, SEJA NOS DEMAIS ESPAÇOS POLÍTICOS.

Qualquer consulta BÁSICA a votações, pronunciamentos e debates feitos por nós nos espaços legislativos mostraria a você o óbvio ululante acerca de nossa atuação – insisto em dizer que, assim como eu respeito seu trabalho, opinando sobre seus filmes e séries apenas depois de assistir aos mesmos, eu gostaria que você respeitasse minimamente o meu, os nossos, antes de emitir qualquer juízo sobre ele, sobre eles!

Contudo, Padilha, ser oposição ao governo Dilma e ao PT não significa aderir ao discursa rasteiro, senso comum é desonesto intelectualmente que deseja tratar a corrupção – histórica, sistêmica, endêmica e ubíqua – como uma questão meramente moral e própria de um partido e/ou de um governo. Jamais vamos aderir a esse discurso porque ele é, além de desonesto intelectualmente, demagógico e típico de quem não deseja de fato erradicar a corrupção.

Quando se evoca os crimes e iniquidades praticadas pelos plutocratas e cleptocratas do PSDB, não se pretende, com isso, “justificar” os crimes e iniquidades praticados por petistas, mas tão somente mostrar às pessoas (a pessoas como você em especial) que o buraco é mais embaixo e que não venceremos a corrupção se a associarmos a apenas um partido e um governo específicos e se a tratarmos como um problema meramente moral. Entendeu?

A corrupção é peça-chave de um sistema de conluios e trocas entre o grande capital (banqueiros, rentistas, mega-empresários, corporações comerciais e complexos industriais, especuladores financeiros, conglomerados de mídias e grandes pecuaristas) e os políticos canalhas por ele financiados – sistema que produz desigualdades sociais e de renda terríveis, ao ponto de 1% dos mais ricos do mundo deterem 80% de toda a riqueza por nós produzida. Entendeu?

É por isso que não aderimos a esse discurso rasteiro dos que transformam alguém como Sergio Moro em herói. E não aderimos porque não vemos a vida com as lentes do maniqueísmo do cinema comercial americano (este mesmo eivado de corrupções, recentemente expostas por hackers ao divulgarem as falcatruas da Sony). Somos políticos no melhor sentido da palavra: agimos com discernimento, reflexão crítica e autocrítica. Entendeu?

Sinceramente, Padilha, preocupa-me que um cineasta tão incensado como você expresse uma compressão tão limitada e maniqueísta da cena política. Aliás, eu agora passo a compreender porque “Tropa de elite” é um filme que beira o elogio do fascismo (algo que você felizmente corrigiu na sequência da franquia!).

Cara, deixe eu lhe dizer uma coisa: o inimigo é outro!

Um abraço sincero pra você e espero um dia poder conversar pessoalmente para que eu possa explicar melhor aquilo que não estou conseguindo explicar por aqui.

Resolvi não tornar toda conversa pública por conta das demais pessoas, nela, envolvidas, todas queridas minhas, principalmente meu amigo Wagner Moura, que conheci quando éramos alunos da mesma Faculdade de Comunicação (FACOM) da Universidade Federal da Bahia.

Quando do lançamento de “O mecanismo”, indignado com a desonestidade intelectual de Padilha, eu enviei a troca de mensagens à jornalista Monica Bergamo, que pensou em fazer algo com ala, mas desistiu. Dois dias depois, um dos destinatários me interpelava, a pedido de Padilha, no sentido de “não tornar pública uma conversa privada”. Respeitando parcialmente essa interpelação, abri apenas as minhas mensagens porque, de resto, estas provam minha coerência ante a falsidade e o oportunismo de muitos nesse momento.

Da Universa