Cresce número de cidadãos dos EUA que migram para o México

Todos os posts, Últimas notícias

Frades espanhóis trouxeram a religião para esta cidade colonial no planalto central do México. Os barões da prata do século 18 construíram suas mansões. Agora vem a invasão do frescobol.

Começou com apenas alguns americanos aposentados. Hoje, duas dúzias de jogadores enchem as quadras no centro municipal de esportes quase todas as manhãs, girando as raquetes para bater nas bolas de plástico. Há tantos clubes no México dedicados ao esporte americano que um torneio foi realizado aqui no ano passado.

“Foi uma loucura”, disse Victor Guzmán, 67, empresário de Charlotte que ajudou a organizar o evento.

O presidente Donald Trump ataca regularmente o fluxo de migrantes que cruzam a fronteira mexicana para os Estados Unidos. Mas a onda de pessoas que ruma no sentido oposto é menos notada.

O instituto de estatísticas do México estimou neste mês que a população americana no México chegou a 799 mil pessoas —um aumento aproximado de quatro vezes desde 1990. E essa conta é provavelmente tímida. A embaixada dos Estados Unidos na Cidade do México calcula o número real em 1,5 milhão ou mais.

É um grupo misto. São nativos digitais que podem trabalhar em qualquer lugar do mundo. São jovens nascidos nos Estados Unidos —quase 600 mil— que voltaram com seus pais mexicanos. E são aposentados como Guzmán, que se estabeleceu nesta cidade há cinco anos e hoje é basicamente o rei do frescobol em San Miguel.

Se os milhares de mexicanos que voltam para casa forem levados em conta, o fluxo de migrantes dos Estados Unidos para o México é provavelmente maior que o de mexicanos para os Estados Unidos.

Os imigrantes americanos estão despejando dinheiro nas economias locais, reformando casas históricas e modificando a dinâmica das salas de aula mexicanas.

“Está começando a ser um fenômeno cultural muito importante”, disse em entrevista Marcelo Ebrard, ministro das Relações Exteriores do México. “Como a comunidade mexicana nos Estados Unidos.”

No entanto, disse ele, as autoridades mexicanas pouco sabem sobre o tamanho ou as necessidades de seu maior grupo de imigrantes. Ele foi encarregado pelo presidente Andrés Manuel López Obrador de modificar isso.

Enquanto os Estados Unidos estão profundamente divididos sobre a imigração, os imigrantes americanos aqui são de modo geral bem-vindos. Em San Miguel —onde cerca de 10% dos 100 mil habitantes são cidadãos americanos—, o prefeito Luis Alberto Villareal faz seu discurso anual sobre o Estado do Município em inglês e espanhol.

O Dia de Ação de Graças é comemorado algumas semanas depois do Dia de Finados no México. Os restaurantes adotaram o “horário americano” para servir o jantar: 18h, considerado um absurdo pelos mexicanos.

“Apesar do fato de Donald Trump insultar meu país todos os dias, aqui nós recebemos toda a comunidade internacional, a começar pelos americanos, de braços e corações abertos”, disse Villareal.

As autoridades mexicanas dizem que muitos americanos provavelmente estão sem documentos —geralmente ultrapassam o período de seus vistos de seis meses. Mas o governo não demonstra muita preocupação.

“Nunca os pressionamos para regularizar os documentos”, disse Ebrard. Geralmente os infratores pagam uma pequena multa.

Villareal encolheu os ombros. “Nós gostamos de pessoas que vêm trabalhar e ajudar a economia da cidade —como fazem os mexicanos nos Estados Unidos.”

San Miguel de Allende fica a cerca de 270 quilômetros a noroeste da Cidade do México, em um planalto de 1.500 metros de altitude onde o sol faz as buganvílias irromperem em cores fortes e se debruçar sobre os muros. Os militares veteranos dos Estados Unidos começaram a se mudar para cá depois da Segunda Guerra Mundial para estudar no instituto de arte local, financiados pela GI Bill —lei que ofereceu benefícios aos militares que voltavam da guerra.

Nos últimos 30 anos, os expatriados inundaram a cidade, encantados pelas ruas de paralelepípedos, a igreja em estilo gótico e as casas pintadas com cores de pôr-de-sol: rosa, pêssego, amarelo, laranja.

O cenário não é a única atração. Diante da força do dólar contra o peso mexicano, até um americano que sobrevive com uma aposentadoria modesta pode alugar um apartamento de pé-direito alto, contratar uma empregada e jantar fora quase todos os dias.

“Você pode viver aqui com US$ 2.000 a US$ 3.000 por mês —e viver bem”, disse Guzmán.

A tecnologia reduziu a distância entre os países. Nos anos 1980, o escritor expatriado Tony Cohan contatava sua filha em Nova York andando até o escritório de “longa distância”, onde uma telefonista fazia a ligação, como ele conta em seu conhecido livro “On Mexican Time”.

Hoje, Bill Slusser, 66, de Los Angeles, faz trabalho de marketing em meio período para clientes americanos sem sair de casa aqui: “A internet permite isso”.

Desde que o Nafta (Tratado de Livre Comércio da América do Norte na sigla em inglês) entrou em vigor, o México ganhou grandes lojas como Walmart e Office Depot.

“As coisas que você não encontra aqui, simplesmente compra pela Amazon”, disse Slusser.

Tantos americanos vivem aqui que não é necessário falar espanhol. Há uma série incrível de atividades para falantes de inglês: o Rotary Club, o grupo que faz colchas de retalhos, clubes de dança, Alcoólicos Anônimos. Os imigrantes dirigem dezenas de grupos beneficentes, tutoram estudantes mexicanos, ajudam a fornecer água potável e refeições para idosas pobres.

“Como é uma cidade relativamente pequena, é muito fácil conhecer pessoas e fazer o que você quiser”, disse Slusser numa sexta-feira recente, em um pequeno café. Era a noite de karaokê.

“Por favor, tortilla chips!”, gritou um advogado de Nova York.

A população americana no México ainda é muito menor que a população imigrante mexicana ao norte da fronteira, estimada em aproximadamente 11 milhões. Mas silenciosamente os americanos estão deixando sua marca nas cidades mexicanas.

Cerca de 35 mil americanos vivem no balneário Puerto Vallarta (o destino do Barco do Amor na antiga série de televisão). Cerca de 20 mil americanos moram perto do lago Chapala, no centro do México, segundo a embaixada dos Estados Unidos.

Os americanos estão reformando casas no centro histórico de Merida, a capital de Yucatan. Eles saboreiam as vistas do oceano Pacífico de suas casas em Gringo Hill, em Sayulita. Há tantos americanos no elegante bairro de Condesa, na Cidade do México, que os violonistas que tocam junto aos terraços dos cafés pedem gorjetas em inglês.

Apesar de todas as imagens de centro-americanos exaustos cruzando o México em caravanas, a vasta maioria dos imigrantes neste país —cerca de 75%— são dos Estados Unidos.

Dirigindo por San Miguel, pode-se ver a influência estrangeira: casas de milhões de dólares com cozinhas planejadas e banheiras enterradas no chão, não muito longe de casas locais pobres, sem reboco.

Mas parece haver pouco ressentimento dos americanos.

No Dia do Trabalhador da Construção, neste mês, cerca de 20 operários se amontoaram ao redor de mesas dobráveis montadas no pátio de uma casa semiacabada em um condomínio de San Miguel.

Seguindo a tradição mexicana, os proprietários da casa os convidaram para um almoço, com carne de porco, frango, feijão, tortilhas e cerveja, além de banda típica.

“Oitenta por cento de nossos clientes são estrangeiros”, disse Luis Camarena, arquiteto mexicano que trabalha na casa. “Destes, 90% são americanos. Para eles”, Camarena indicou os trabalhadores, “isso significa trabalho.”

Trump não está errado sobre o número crescente de migrantes que chegam à fronteira sul dos Estados Unidos. Mas é mais provável que sejam centro-americanos do que mexicanos.

Desde 2015, segundo dados do censo, mais mexicanos voltaram para seu país por ano do que se mudaram para os Estados Unidos. Dados de 2017, o ano mais recente do qual há números disponíveis, mostram uma redução líquida de 300 mil imigrantes mexicanos nos Estados Unidos.

Alguns dos mexicanos que vão para o sul foram deportados ou se sentiram cada vez menos bem-vindos nos Estados Unidos. Outros foram atraídos de volta pelas melhores oportunidades. O crescimento populacional do México diminuiu enquanto os níveis educacionais cresceram, reduzindo a concorrência local por empregos.

Muitos dos mexicanos que retornaram trouxeram consigo pequenos americanos.

São crianças como Sedona Barron, 3, e seu irmão Adero, 6. Eles vieram para San Miguel dois anos atrás, depois que seu pai, Jesús, foi deportado dos Estados Unidos. Ele também era um estranho neste país; tinha se mudado ilegalmente com a família para os Estados Unidos com apenas 5 anos. Casou-se com uma americana, mas uma condenação por dirigir embriagado o impediu de legalizar sua situação.

A mudança do Arizona foi especialmente dura para Adero. “Ele começou o jardim de infância no México sem falar espanhol”, disse sua mãe, Katerina. “Ele tinha pavor de falar espanhol. Sentiu-se perdido no início.”

Ela também quase não falava a língua.

Em algumas cidades que tradicionalmente enviaram migrantes para os Estados Unidos, os filhos de retornados que nasceram nos Estados Unidos hoje formam 10% ou 15% dos estudantes, segundo Andrew Selee, diretor do Instituto de Políticas Migratórias, em Washington.

“É como a zona leste de Los Angeles”, afirmou.

No passado, quando ondas de mexicanos voltavam dos Estados Unidos, eram geralmente homens, como os trabalhadores convidados conhecidos como “braceros”, que foram empregados em fazendas americanas dos anos 1940 até os 1960.

Hoje muitos dos que retornam são famílias.

“Um dos maiores desafios é que as escolas mexicanas não estão prontas para receber crianças que começaram a educação nos Estados Unidos em inglês”, disse Silvia Giorguli, demógrafa e presidente do Colégio do México na capital.

Ao contrário dos Estados Unidos, o México não teve muitos imigrantes tradicionalmente. Menos de 1% da população é nascida no estrangeiro. Depois de uma onda de migrantes mexicanos que transformou os Estados Unidos durante décadas, hoje é o México que enfrenta o dilema: como integrar os americanos?

Da FSP