Para produtor, Bolsonaro precisa entender valor do audiovisual para economia

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Foto: Karime Xavier/Folhapress

No ano mais turbulento da história recente do cinema nacional, com Jair Bolsonaro ameaçando extinguir a Ancine e cortar o patrocínio à área, o audiovisual conseguiu um feito inédito. O Brasil emplacou filmes com DNA local em todos os principais festivais estrangeiros —Cannes, Veneza, Berlim, Toronto, Sundance, Roterdã e Locarno.

O produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features, esteve por trás de alguns desses títulos. Em Cannes, seu “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, dirigido pelo cearense Karim Aïnouz, levou o prêmio de melhor filme da seção Um Certo Olhar. E “The Lighthouse”, do americano Robert Eggers,  saiu como aposta para o Oscar.

A partir do fim deste mês, dois outros títulos internacionais dele disputarão o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Um é “Ad Astra”, sua produção mais ambiciosa, uma ficção científica com Brad Pitt no papel principal. O outro é “Wasp Network”, do francês Olivier Assayas, que traz Gael García Bernal, Wagner Moura e Penélope Cruz numa trama de espionagem inspirada no livro “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”, do jornalista e escritor Fernando Morais.

Depois das declarações de Bolsonaro, o audiovisual vive no Brasil o seu momento mais turbulento das últimas décadas. Mesmo assim você quer continuar produzindo filmes aqui? Sim. É turbulento, mas a gente tem que dialogar com o governo, mostrar que a gente construiu uma estrutura que gera emprego, que paga imposto e não pode acabar.

Mas existe diálogo com esse governo? Sim, e a gente está construindo isso. Agora, o foco é econômico, dizer que o mercado é correto, que as produtoras trabalham dentro da lei e têm zelo pelo dinheiro público. Somos produtores de cinema. Temos que debater como empresários, explicar a importância do incentivo e da liberdade de escolha.

Só que Bolsonaro falou até em filtro. Isso não mina a essência do que é a produção de cinema? Esse vai ser o grande debate. Vamos ter que conversar, mostrar como escolhemos nossos projetos. Ninguém sabe o que vai acontecer, mas o ataque de ambas as partes não vai ser positivo. Bem ou mal, o presidente foi eleito democraticamente.

Não somos um partido político, não podemos nos aglutinar como partido político.

Mas entre os projetos que  o desagradam foi dito que há um seu, ‘Ricardo e Vânia’, sobre o relacionamento entre dois rapazes que injetam silicone no rosto. O que achou? Se eu tiver que debater e explicar a importância desse projeto, eu vou. É um drama importantíssimo sobre um homem que largou tudo e virou indigente, invisível. É um personagem que seria rico em qualquer cinematografia. E a história tem uma série de críticas sobre o que os personagens fizeram. Queria entender por que achou que isso fosse uma obra transgressora.

Como você vê o futuro da Ancine diante das ameaças de Bolsonaro? Cara, a gente ainda tem que tentar entender o que vai ser proposto. O governo também está tentando entender o que é a agência, e cabe a nós explicar. A conversa está fluindo. A Ancine ainda está aí, não foi extinta. A gente não deve radicalizar.

O discurso se radicalizou? A arte é uma plataforma de contestação, mas chega uma hora que se tem de encontrar um meio de sobrevivência.

Você defende que o financiamento do cinema não pode ser tão dependente do Estado, mas em quase todos os países é assim. Existe uma outra forma? Acho que existe. Mas é difícil conseguir financiamento privado para o cinema aqui. Tínhamos que baratear os custos de um filme, tentar financiar a juros baixos, mas não existe incentivo ao empreendedorismo no Brasil.

O ‘Wasp Network’ é um dos seus projetos mais antigos. Por que essa história de espiões cubanos dos anos 1990 é pertinente hoje? É uma história inacreditável. Sobre como um país de terceiro mundo conseguiu implantar espiões nos Estados Unidos por tanto tempo numa época anterior à paranoia do 11 de Setembro. Seria mais plausível hoje, por isso que faz todo o sentido agora.

Fui procurado por vários diretores e nenhum projeto aconteceu, até que fui sondado por um agente do Olivier Assayas, e eu achei que o roteiro era a cara dele por causa de “Carlos, o Chacal”.

‘Ad Astra’ foi uma escolha arriscada, porque a ficção científica é um gênero que pode fracassar mesmo com atores de peso. Por que apostar tão alto? A minha aposta não foi no gênero, foi no diretor James Gray. Ele descrevia esse projetou como um mix entre “Apocalypse Now” e “2001”.

Quando o Brad Pitt entrou no projeto, tudo andou mais rápido. A pós-produção foi demorada. Precisamos recriar a Lua inteira e teve um trabalho de retoques. É um filme que tem chance de reconhecimento artístico e, quem sabe, uma possível indicação ao Oscar.

Fora esses dois, quais os seus futuros projetos? Tem o “Armageddon Time”, do James Gray, que é um filme sobre amadurecimento inspirado na história dele em Nova York no final dos anos 1970, numa escola que tinha o Frederick Trump [pai do presidente americano] como membro do conselho. A história vai explorar a relação dos alunos com o filho dele, o Donald, que será personagem. Vai ser um “Amarcord” do James Gray.

Tem o “Sabrina”, baseado numa graphic novel, que será dirigido pelo Drew Goddard, e o “Blood on the Tracks”, que é o novo do Luca Guadagnino.

E teremos o primeiro longa do Karim Aïnouz nos Estados Unidos, sobre um personagem histórico americano importante. Ele também vai dirigir, aqui no Brasil, “O Sol na Cabeça”, baseado no livro do Geovani Martins. E teremos o novo do Fellipe Barbosa, que é inspirado em “Jantar Secreto”, do Raphael Montes. Vai ser um “Corra!” brasileiro.

Ainda existe espaço para filmes mais autorias num mercado dominado pelo streaming e por super-heróis? O circuito para esse tipo de filme está se fechando, mas ainda há capacidade de abri-lo. E a gente precisa ganhar espaço no circuito dos blockbusters.

O que não dá para saber é qual vai ser o papel do streaming e da sala de cinema, mas precisamos encontrar meios para que essas duas formas convivam. Meu papel é lutar para que esses filmes continuem existindo. Só gostaria que o cinema continuasse sendo a primeira janela.

Você já disse que a Netflix é similar ao Walmart —tem coisa boa, mas é difícil encontrar sem ser guiado. O algoritmo está matando o trabalho da curadoria? Espaço para bom curador vai ter sempre. O segredo é ter uma série de produtores que são curadores e zelem por bom conteúdo.

Agora, é um problema ter serviços de streaming que deseduquem o público. Você não vai encontrar filmes do John Ford ou do Kurosawa de cara na Netflix, vai ter que procurar na aba dos clássicos. Isso vai criando público com dificuldade para entender filmes que são bons, como esses, e que não são difíceis de entender. É como ter um corredor com 17 tipos de requeijão e os da frente serem os que não têm gosto melhor.

Dá para fazer cinema com algoritmo? Você não faz cinema com algoritmo. O algoritmo não percebe o gosto da pessoa. Se fosse assim fácil, a Netflix divulgaria seus números. O trabalho do produtor envolve cinefilia e entender o momento do mundo.

A política hoje é diferente do que era décadas atrás, e as pessoas buscam outro escapismo, buscam o super-herói.

Esse tipo de consideração sobre a temperatura do mundo entra na equação na hora de escolher um projeto? Antigamente, eu não pensava. Hoje não tem como não pensar. Você tem que saber o que o público quer. Para que fazer um filme se eu não souber direcioná-lo para um público?

Não sei se um dia farei um filme de super-herói. Eu adoro, mas sinto pelo escapismo hoje se reduzir a esse gênero ou a filmes de terror. Sinto falta dos filmes do Ridley Scott, do Robert Zemeckis, do Ron Howard, do Spielberg.

Spielberg é um diretor de uma geração que teve mais carta branca dos produtores para fazer o que fez. Como é a sua relação com os diretores?
Você precisa fazer o diretor lhe respeitar. E para isso o produtor precisa ter um mínimo de cinefilia, precisa saber ler um filme e ter capacidade de entregar aquilo que prometeu. Daí tem diálogo. A parte do orçamento é quando eu tenho mais conversas.

O seu “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” é forte candidato a representar o Brasil no Oscar, assim como “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Como estão os preparativos? Adoraria que fôssemos indicados, mas são dois filmes com força. Qualquer um deles teria muita força e seria bem indicado. Torço pelo meu, claro, mas acho o “Bacurau” um filme muito forte também.

Da FSP