Quem foram Goebbels e Wagner, inspiradores de Alvim

Todos os posts, Últimas notícias

Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Durante um vídeo publicado em suas redes sociais na noite desta quinta-feira, 16, o atual secretário de Cultura, Roberto Alvim, anunciou o Prêmio Nacional das Artes e, simultaneamente, fez referências a duas figuras importantes do regime nazista: o político alemão Joseph Goebbels, que serviu como ministro da Propaganda de Adolf Hitler entre 1933 e 1945; e o músico Richard Wagner, uma das principais inspirações do ditador.

Joseph Goebbels entrou para o Partido Nacional-Socialista de Hitler em 1924 e, nove anos depois, ascendeu a ministro da Propaganda de Adolf Hitler no mesmo ano em que ele se tornou chanceler da Alemanha.

Sua escalada política na ditadura de Hitler foi meteórica e de importância fundamental para convencer o povo alemão sobre o Nazismo, utilizando para isso todos os meios de comunicação e aparelhos culturais possíveis. Teatro, cinema, rádio, TV, livros, quadros e músicas eram vistoriados por Goebbels, enquanto ele também liderava a criação de cartazes, campanhas e manifestações de apoio ao Führer.

Goebbels foi um dos principais responsáveis por disfarçar o antissemitismo e o ódio aos judeus pregado pelo Nazismo como nacionalismo e amor à pátria alemã. Foi ele quem comandou a primeira queima de livros, no início da década de 1930, sob o pretexto de dar fim à “era do intelectualismo judaico extremo”.

Em 1945, após a queda do Nazismo e com a chegada dos aliados ao bunker em que ele se escondia com a família, Goebbels e a esposa, Magda, envenenaram seus filhos e, em seguida, cometeram suicídio. Pouco tempo antes, ele foi indicado por Hitler como seu sucessor.

Richard Wagner (1813 – 1883), por sua vez, foi um compositor, ensaísta, compositor e diretor de teatro considerado pelo próprio Adolf Hitler como uma de suas principais inspirações. Um dos maiores destaques de seu grande acervo são as óperas criadas por ele. Nelas, historiadores acreditam que o compositor tenha introduzido a ideia de “germanismo ariano”, além de ter combatido a presença e influência de judeus na música alemã, desde 1850.

Além de ter inflamado o antissemitismo na Alemanha ao disseminar o ódio contra os judeus e culpá-los pelos problemas econômicos do país, Goebbels era contratado por Hitler para criar a realidade que mais favorece o líder e o governo nazistas. Com o lema “uma mentira dita cem vezes torna-se verdade”, ele criou o jornal de propaganda Der Angriff (O Ataque), semanal no qual difundiu ideais do Nazismo em uma coluna própria, assinada como Mr. G.

Sempre em tom sensacionalista e de ataque a judeus, Goebbels também exerceu seu controle no cinema. Em filmes como O Triunfo da Vontade, encomendado em 1934 à cineasta Leni Riefenstahl, discursos de Hitler eram exibidos para milhares de pessoas, ao mesmo tempo em que o exército mostrado personificava a raça ariana pregada pelo regime.

Além de inflamar o ódio contra grupos como judeus, ciganos e comunistas, Goebbels também pregava o nacionalismo alemão defendido pelo Nazismo, onde qualquer crítica ao governo de Hitler era classificada como ódio ao País. É dessa vertente e produção que vem o discurso referenciado pelo secretário da cultura brasileiro, Roberto Alvim.

Também foi Goebbels quem, ao se apropriar do verso de uma canção nacionalista alemã de 1841, criou um dos principais slogans e frases mais repetidas ao longo do Nazismo, Deutschland über alles. Em português: Alemanha acima de tudo.

Qual a relação entre o vídeo de Roberto Alvim e o discurso de Goebbels?
“A arte alemã da próxima década será heróica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”, disse Goebbels em pronunciamento para diretores de teatro, de acordo com o livro Goebbels: a Biography, de Peter Longerich.

Já em seu vídeo, Alvim disse: “A arte brasileira da próxima década será heróica e será nacional. Será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes de nosso povo, ou então não será nada”.

Secretário especial da Cultura, Roberto Alvim citou trechos de discuro de propagandista nazista ao anunciar planos do governo brasileiro. Foto: Nilton Fukuda/Estadão
Simultaneamente, a trilha sonora escolhida pelo secretário como fundo de seu discurso foi o prólogo da ópera Lohengrin, que pertence ao segundo período da produção de Richard Wagner, na década de 1840. A obra também foi uma das preferidas de Hitler, que a tocava durantes seus comícios e pronunciamentos públicos.

Apesar de ter falecido seis anos antes do nascimento de Hitler, Wagner foi uma das principais inspirações do ditador alemão, que o citou em sua autobiografia e manifesto político Mein Kampf. “Em um instante eu fiquei viciado. Meu entusiasmo juvenil pelo mestre de Bayreuth não tinha limites”, escreveu Hitler, afirmando que “sua vida mudou” quando ouviu pela primeira vez aos 12 anos a música escolhida por Roberto Alvim.

Bayreuth é o festival anual criado por Wagner na cidade de mesmo nome e, posteriormente, frequentado com assiduidade por Hitler, onde o nacionalismo alemão era pregado através da autoadulação do compositor com sua obra, venerada no evento criado por ele mesmo. Outros nomes que já passaram pela plateia de lá incluem Pedro II, imperador do Brasil; Friedrich Nietzsche; e o compositor Pyotr Ilyich Tchaikovsky.

Além de também ter usado inúmeras de suas músicas como trilha para discursos, Hitler tinha um pianista particular, o alemão Ernst “Putzi” Hanfstaengl, contratado por ele para tocar apenas as músicas de Wagner. A fixação foi tanta que, em 1923, o ditador tornou-se amigo da filha do compositor, Winifred Wagner.

Foi Winifred quem serviu de tradutora para Hitler durante as negociações entre Alemanha e Inglaterra na década de 1930. Quando ele foi preso, foi ela quem levou comida na prisão enquanto o político alemão escrevia Mein Kampf. A relação se desenvolveu ao ponto de o ditador frequentar a casa dos Wagner e isentá-la de impostos.

Apesar de defenderem o fortalecimento e purificação da raça ariana e exclusão de tudo que se opunha a ela, como judeus, comunistas e homossexuais, tanto Joseph Goebbels quanto Richard Wagner têm contradições com esses ideais em suas próprias biografias.

De acordo com o historiador Oliver Himes, com base em arquivos de Berlim, Magda Goebbels, esposa de Joseph, foi filha de um homem judeu, enviado em 1938 para um campo de concentração. Considerada a “mãe exemplar do Terceiro Reich” e “modelo da raça ariana”, não deixou nem o laço sanguíneo manchar sua reputação e, apesar de ter o poder para intervir no assassinato do pai, preferiu não agir.

Já Wagner, músico adorado por Hitler, foi protagonista de uma relação notória com o rei Ludwig II, do estado de Baviera. Convocado para a corte do monarca quando ele assumiu o trono aos 19 anos, o compositor desenvolveu um relacionamento íntimo com Ludwig, a ponto de receber uma mesada no valor de quatro mil florianos.

Em 1886, o rei enviou uma carta a Wagner propondo abandonar o trono para viver com ele, mas teve sua investida negada pelo compositor, que já estava casado com uma mulher nessa época.

Estadão