Bolsonaro só se ofende se for chamado de mulher

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Foto: Getty Images

Rainha louca. Esse, dizem, é o apelido do presidente Jair Bolsonaro em Brasília, nas esferas de poder e dentro do próprio governo. Depois que o apelido vazou, ele chegou ao trend topics do Twitter. Memes com a cara de Bolsonaro em corpos de rainhas circulam por todo canto. É engraçado? É. Eu também ri. Mas não é estranho que para criticar um presidente (que merece, sim, todas as reclamações) a gente o transforme em mulher? E ainda por cima uma mulher louca?

Nós, mulheres, somos atacadas o tempo todo sendo chamadas de loucas. Esse é um dos clichês do machismo.

 

Dizem que o presidente detesta o apelido. Faz sentido, claro. Afinal, o apelido é sexista e homofóbico (a velha piadinha de chamar homem de “mulher”). Aliás, assim como o presidente, que é famoso por fazer declarações misóginas e contra gays. Esse tipo de piada é bem do nível dele. Então, dá para entender que ele se ofenda.

Mas será que a cabe a gente jogar o mesmo jogo?

O que aconteceria se Bolsonaro fosse mulher? Só para lembrar, Dilma Roussef, que não cometeu nenhuma insanidade dessas (tipo chamar o coronavírus de “gripezinha”) foi chamada de todos os apelidos mais ofensivos contra mulher. Seu processo de impeachment foi quase um estudo de caso sobre como o machismo é forte na sociedade brasileira. Ela foi chamada de vaca, vagabunda e por aí vai. Entre os apelidos infames que ela teve, existia o “Dilmalouca” e o “Dilmanta”.

Nenhum presidente do Brasil foi submetido a tantas ofensas como Dilma. E não, ela ser mulher não é coincidência. Afinal, nós somos mais ofendidas que os homens na rua e na internet. Isso é o “normal”.

Por isso, também não me parece coincidência que um presidente vire “rainha” na hora da ofensa.

Por que não chamar de rei louco? Ah, porque não tem graça. Ah, e por que será?

Lembrete histórico. A “rainha louca” era “Maria Louca”, talvez a primeira mulher da história brasileira a carregar a alcunha de louca. Sim, temos uma louca até nos livros de história, olha que coisa. O apelido foi dado para Maria I, avó do D. Pedro I. Detalhe, segundo a historiadora Mary Del Priori, autora do livro “D. Maria I – As perdas e as glórias da rainha que entrou para a história como “a louca”, ela nunca foi louca. D. Maria foi, talvez, o primeiro caso de “gaslighting” (fazer uma pessoa achar que é louca) da história. Ela, como muitos de nós, apenas sofria de depressão…

Tem outra. Ativistas contra os preconceitos contra pessoas que são atípicas (ou seja, tem algum transtorno como Autismo, bipolaridade, esquizofrenia…) também já disseram. Não é justo tratar os desmandos do presidente como se ele tivesse uma dessas síndromes, que são coisas sérias.

Ou seja, não coloquem a gente, seja gay, mulher, deficiente, nesse barco. Não temos nada com isso.

Uol