Filósofo renomado diz que Bolsonaro planeja ditadura

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Foto: Adriano Vizoni/Folhapress / Adriano Vizoni/Folhapress

O professor da Unicamp e filósofo Marcos Nobre lançou nesta sexta-feira “Ponto final – A guerra de Bolsonaro contra democracia”, um dos livros em formato eletrônico (e-book) e físico da coleção lançada pela editora Todavia sobre o Brasil em meio à pandemia do coronavírus.

No livro, Nobre defende que Bolsonaro tem um projeto autoritário cujo objetivo é a ruptura da democracia. A chegada da pandemia, entretanto, alterou o plano e levou o presidente a ser ainda mais agressivo com as instituições.

Em conversa com o GLOBO, Nobre defendeu o inquérito das fake news e classificou os ataques do presidente ao Supremo Tribunal Federal, como uma forma de fugir da responsabilidade do combate à pandemia.

— Bolsonaro conscientemente quer mudar o assunto das mortes para que ele não seja responsabilizado. Isso é algo que é a coisa mais pusilânime — diz.

O senhor começa o livro criticando o discurso que diz que Bolsonaro é “burro” e “louco” e defende que o presidente atua com uma racionalidade política. Como funciona essa racionalidade política?

O que quero dizer com isso é que tratar o Bolsonaro de outra maneira que não como um político é uma estratégia que reforça sua imagem de não-político, que é a que ele quer passar. É uma maneira que tira sua responsabilidade dos atos que pratica, afinal burros e loucos não podem ser responsáveis pelas burrices e loucuras. Então, é preciso tentar entender a racionalidade do Bolsonaro: o Bolsonaro como político. Isso significa entendê-lo como alguém que tem um firme projeto autoritário. Temos que levar isso muito a sério.

O senhor afirma que, antes da pandemia, ele estava numa fase inicial de destruição das instituições. O que caracteriza essa fase de destruição?

É colocar um ministro do Meio Ambiente que destrói o meio ambiente, um diretor de uma fundação pensada para lutar contra o racismo que diz que não existe racismo. É inverter o sentido das instituições democráticas. Fazer elas funcionarem ao contrário do que é a sua função. É introduzir no vocabulário político a ideia de que uma ditadura é uma coisa normal, que ela pode ser democrática.

Muitos criminalistas, mesmo de esquerda, criticam a forma como o inquérito das fake news foi criado no Supremo Tribunal Federal. Como o senhor vê este caso?

O ministro Alexandre de Moraes acertou no joelho do Bolsonaro. Porque sem a central de fake news, Bolsonaro não se sustenta. O ministro mostrou que ele sabe onde acertar, qual é a fraqueza do Bolsonaro.

Mas criminalistas questionam a constitucionalidade do inquérito criado de ofício, sem participação do Ministério Público.

Em um momento como esse, não adianta pensar em abstrato. Bolsonaro pratica a política da guerra e montou um governo de guerra. Uma guerra instaurada pelo Bolsonaro. Vamos fazer a lógica da paz? Não, não existe isso. É claro que quem defende a democracia não vai recorrer à violência e à força para afastar Bolsonaro, mas a procedimentos democráticos, a articulações políticas em defesa da democracia.

Agora, não dá para imaginar que estamos numa condição institucional normal e que devemos nos pautar por critérios abstratos de como funcionam as instituições. Esse é um momento de clareza, é um momento em que a democracia não está funcionando.

Leia:Veja os acenos de Bolsonaro a Aras, que conduz investigação contra o presidente

Na questão da suspensão do Alexandre Ramagem para a direção da PF, alguns lembraram da medida tomada pelo Gilmar Mendes que impediu a posse do ex-presidente Lula.

As decisões têm sentidos completamente diferentes, porque naquele momento poucas pessoas razoáveis diriam que a democracia estava em risco iminente de ruptura. Quando fica claro que as instituições não estão mais funcionando, e que existe alguém que quer usar esse colapso para destruir a democracia, qualquer pessoa que tome decisões para defender a democracia, mesmo que isso pareça arbitrário, deve ser defendida.

Com a pandemia do coronavírus, Bolsonaro subiu mais o tom no ataque às instituições. Ontem, voltou a ameaçar o Supremo Tribunal Federal, por exemplo.

O que tento mostrar no livro é que, ao fazer isso, ele age por fidelidade às suas convicções autoritárias. Como todo líder autoritário, ele se apresenta como não-político, como antissistema. Portanto, ele precisa dizer para quem o apoia, que ele se tornou presidente, mas nem por isso foi domado pelo sistema.

O senhor diz no livro que a postura antissistema é exatamente o que o impede de governar.

Exato. Porque atualmente ele precisa não só dirigir o sistema. Isso é pouco. Numa crise sanitária dessa magnitude, ele precisa reorganizar inteiramente o sistema em função do combate ao vírus. Precisa pegar todo o aparelho do estado, todos os ministérios e remodelá-los de maneira a enfrentar a pandemia. Precisa remodelar a indústria brasileira para fabricar produtos.

Mas por que esses ataques logo agora?

São ataques severos às instituições mas tem muito de diversionismo, de produzir confusão. Esse efeito diversionista é ainda mais tétrico. Bolsonaro conscientemente quer mudar o assunto das mortes para que ele não seja responsabilizado. Isso é algo que é a coisa mais pusilânime. Não é que não temos que discutir esses ataques, porque ele de fato quer destruir a democracia ,mas o que ele está fazendo agora é confundir as pessoas.

Mas o senhor acredita que esses ataques são apenas diversionistas? Ou representam uma ameaça?

São reais. Se ele tiver uma chance, ele vai dar o golpe. Ele usa uma coisa que é real para confundir, para turvar as águas. Ele precisa ganhar tempo para três coisas: um acordo com o centrão, que seja anti-impeachment, aprofundar a aliança com as forças militares para coordenar o governo e tornar mais aguerrida sua base social de apoio.

Para superar o Bolsonaro, o senhor fala que é necessária a formação de uma frente ampla a favor da democracia. Mas também defende que o impeachment só viria se negociado com os militares ou o que chama de “partido militar”. O que motivaria os militares a apoiarem um afastamento de Bolsonaro?

As Forças Armadas foram um ator político importantíssimo desde a proclamação da República. Quando deixaram de ser? Nos últimos 30 anos. Se sentiam excluídos da política de forma injusta e indevida e aproveitaram para voltar ao governo, assim como outros grupos. E não sairão tranquilamente, porque querem ser reconhecidas como um ator político relevante. O que eles querem dizer é: nós temos quadros aptos a servirem a governos. Temos quadros aptos a ajudar a desenvolver o Brasil e estamos sendo excluídos por pura discriminação. É isso que está em jogo nessa transição.

Por outro lado, essa frente também dependeria da união de forças políticas que, há pouco tempo, eram adversárias. PT e PSDB, por exemplo.

Exato. E é disso que se alimenta o Bolsonaro. Ele se alimenta dessa lógica dos três terços em que nenhum dos três negocia com o outro. Mas essa divisão não é só das forças políticas, é na sociedade. Tem PSDB e tem PT, mas também tem o tio e o sobrinho, o irmão e a irmã, essa divisão na base da sociedade. Se essa tendência de aumento de rejeição se confirmar, até o ponto de atingir algo perto de 60%, isso significa que está tendo um movimento na base da sociedade que diz o seguinte: “pode ser que tenhamos diferenças insuperáveis e que impediram a gente de almoçar juntos no domingo, mas temos que juntar forças contra essa ameaça maior.” E as forças políticas organizadas são obrigadas a ir atrás. Enquanto não há condições objetivas para isso, ele aproveita esse tempo para montar seu governo de guerra. Hoje, Bolsonaro encena ser o único homem livre em um país de confinados.

O Globo