Bolsonaro passou “imagem ruim”, diz secretário de Saúde

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Foto: ADRIANO MACHADO / REUTERS

Recém-empossado como presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) no lugar de Alberto Beltrame, que deixou o posto após ser alvo de acusações de corrupção, Carlos Eduardo Lula afirma que o presidente Jair Bolsonaro passou uma mensagem “muito ruim” ao desrespeitar as regras sanitárias da Covid-19.

Antes mesmo de saber da suspeita de que o presidente tenha se contaminado, ele afirmou que Bolsonaro não contribuiu até agora para o enfrentamento da doença no Brasil, que já deixou mais de 65 mil mortos.

— A atitude do presidente até agora não ajuda no enfrentamento da doença. Não estamos no segundo lugar do mundo em número de mortes à toa. É preciso que todos entendam que o inimigo é um só: a Covid-19. Não é disputa de 2022, não é o governador que faz posição. A gente tem enfrentado todos os inimigos possíveis, inclusive aqueles que nem existem, mas não têm combatido de forma adequada a doença — diz ele.

De acordo com Lula, além da politização do tema, Bolsonaro deu um exemplo negativo simbólico para a população com suas atitudes:

— A mensagem é muito ruim. É simbólico: se a autoridade sanitária diz que tem que usar máscara e o presidente não usa, as pessoas se acham legitimadas a não usar. Por que eu sou obrigado a ficar dentro de casa se o presidente está na aglomeração? Gasta-se energia com uma crise sanitária, política e econômica ao mesmo tempo, tudo que a gente não precisava.

Lula afirma que ao menos metade dos estados brasileiros tem compras travadas que foram realizadas no exterior para combater a Covid-19. Segundo ele, o Ministério da Saúde garantiu que o Itamaraty auxiliará os gestores locais na resolução dos entraves. Outra promessa obtida pelos gestores, diz Lula, é a realização de um pregão pela pasta, na próxima semana, para comprar sedativos em falta nos hospitais que são usados nos processos de intubação de pacientes graves.

Em entrevista ao GLOBO após a primeira reunião como dirigente do Conass no Ministério da Saúde, nesta segunda-feira, Lula destaca ter levado à pasta uma proposta de “conselho de conciliação” para aproximar os órgãos de controle dos estados, com a coordenação do governo federal.

O objetivo é estreitar os laços desses atores para aumentar a fiscalização e resolver pendências nas compras com agilidade. A meta final, diz ele, é combater uma paralisia nas gestões locais, em função do receio de questionamentos futuros em meio a operações policiais deflagradas nas última semanas.

— A gente entende que quem cometeu o ato de corrupção deve ser punido. Mas a gente não pode simplesmente beneficiar quem não faz nada. Quem fica com recursos acumulados e diz que, por receio de responder futuramente, não vai inaugurar hospital, não vai fazer compras, contratações — disse Lula, que é secretário de Saúde do Maranhão.

Segundo ele, há uma “espetacularização” desnecessária com algumas operações policiais, o que abre a possibilidade de uso político das instituições sob o discurso de combate à corrupção. Lula afirma que a pandemia deve ser usada para aprimorar os processos de compra no país, sem abrir mão da fiscalização e punição de responsáveis por mau uso do dinheiro.

— É complicado querer sustentar que Judiciário, polícia e Ministério Público estão irmanados no objetivo de perseguir as autoridades sanitárias estaduais. Mas me parece que em alguns momentos há um exagero. Há operações em que era possível se resolver administrativamente. E aí espetaculariza, faz busca e apreensão, constrange as pessoas. E pode haver a utilização política disso — critica.

O dirigente do Conass diz acreditar que seu antecessor na entidade, Alberto Beltrame, ex-secretário de Saúde do Pará, poderá esclarecer todas as suspeitas levantadas contra ele em investigações de desvios na Secretaria de Saúde do Pará. Ele deixou o comando da pasta e do conselho após operações policiais serem deflagradas. O objetivo, segundo o próprio Beltrame, foi para preparar sua defesa. Ele sempre negou irregularidades na gestão.

Lula destaca que a ajuda do Itamaraty será fundamental para destravar as compras no exterior, principalmente na China e países da Europa. Segundo ele, as aquisições frustradas se referem a equipamentos e remédios. Há casos em que o produto foi confiscado por algum país, o fornecedor simplesmente não entregou no prazo ou pendências burocráticas impediram a concretização do negócio. Lula afirma que pelo menos metade dos estados relatam tais dificuldades, citando alguns, como Pernambuco, Bahia, Espírito Santo e São Paulo.

Embora cuidadoso ao falar da gestão militar à frente do Ministério da Saúde, destacando os esforços do general Eduardo Pazuello, interino no cargo de ministro, em se aproximar dos secretários, Lula não deixa de ressaltar o “estranhamento” com tantos cargos na pasta exercidos por pessoas das Forças Armadas.

Ele afirma que o governo federal ainda está em dívida ao não coordenar a criação de parâmetros de risco, como taxa de transmissão e ocupação de leitos, para auxiliar os estados e municípios a saírem do isolamento.

Lula rechaça a justificativa em geral dada pelo governo federal de que o Brasil é grande e diversificado, não sendo possível fazer uma regra única sobre isolamento. As autoridades costumam dizer ainda que a responsabilidade é dos gestores locais em adotarem as medidas de distanciamento e afrouxamento. Para Lula, as poucas orientações dadas a respeito do tema até hoje são insuficientes.

— Sei que o Brasil não é igual e é muito grande, mas por conta disso não se pode achar que não vai fazer nada. Precisamos de uma matriz de riscos que possa levar os estados à saída. Não precisa dizer o nome do estado, mas precisa ser estabelecido (um rol de parâmetros) como política de vigilância do Ministério da Saúde, e isso não foi feito. Acho que a gente precisa fazer— destaca.

A falta de coordenação do Ministério da Saúde, na avaliação dele, levou a erros no passado recente, com fechamentos precoces de comércios.

— Não houve coordenação, e todo mundo fechou. Uns fecharam cedo demais, embora se achasse, na época, estar fazendo a coisa certa. E agora, com três meses, a sociedade está cansada. Vai querer abrir e não vai poder — explica Lula. — Digo no caso do próprio Maranhão, que fechou o estado inteiro. Mas demorou algum tempo para a interiorização da doença. Poderia ter sido feito primeiro (o fechamento) na capital. Por isso eu preciso de parâmetros.

O Globo