Lojas Americanas denunciadas por racismo

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Foto: Reprodução

O jardineiro Reginaldo Santana Vieira diz jamais ter vivido situação tão constrangedora em seus 40 anos. No último dia 3 de agosto, ele foi barrado na saída de uma filial das Lojas Americanas, em Vila Isabel, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro (RJ), após um funcionário alegar que teria visto um “movimento suspeito” do trabalhador.

Reginaldo é negro, casado, pai de duas meninas, de 10 e 12 anos, e padrasto de outra de 19. Ele trabalha como jardineiro há 23 anos – ou seja, começou o ofício ainda menor de idade. Desde então, podou plantas de vários lugares, entre eles uma faculdade, onde conseguiu iniciar uma graduação, mas trancou logo após ser dispensado e perder a bolsa integral. Em todo esse período, repete, nunca passou por humilhação semelhante.

“Eu não fiz nada para que ele [funcionário] me abordasse da forma com que me abordou. É racismo presumido. A minha indignação foi essa. Nunca passei por nada disso, graças a Deus, e espero que tenha sido a última vez”, explica Reginaldo, ao pedir licença e interromper a entrevista para escutar um pedido de “dona Sônia”, uma de suas clientes.

Reginaldo estava trabalhando na casa da mulher, que fica próximo à loja onde relatou ter sido vítima de racismo, quando conversou com o Metrópoles, na manhã dessa quarta-feira (19/8). Após ouvir os pedidos da cliente, o jardineiro resolveu colocar fones de ouvido para seguir com a entrevista enquanto cortava galhos e trocava de posição o manacá-da-serra. “Assim, eu consigo trabalhar e falar.”

O jardineiro avalia que, se fosse branco, provavelmente não teria o mesmo problema. Ele entrou nas Lojas Americanas com a intenção de comprar algo para comer, pois só tinha tomado café da manhã naquele inesquecível e repugnante 3 de agosto. O homem aproveitou para observar o preço de uma sanduicheira, mas foi em direção à saída sem comprar nada, o que teria despertado a desconfiança dos seguranças.

“Eu estava distraído, andando normal, não fiquei reparando em ninguém, até porque se eu não estou fazendo nada de errado não tenho que ficar olhando. A minha surpresa foi essa: quando eu ia saindo da loja, o segurança me abordou, mandando que eu levantasse a camisa. E aí eu perguntei ‘Por quê? O que está havendo?’ e ele disse: ‘Eu vi você em uma ação suspeita, colocando algo debaixo da camisa’”, relata.

Reginaldo desobedeceu o funcionário. O jardineiro esperou mais de 10 minutos, desde o início da ação, para que os policiais militares chegassem ao local e o revistassem. Os agentes não encontraram nada de suspeito com ele, que fez questão de retirar e apresentar todo o material da mochila, como a tesoura de poda. Ali, foi comprovado que o homem negro era inocente.

“Olha, se eu fosse branco, bem vestido, acho que não aconteceria a mesma coisa. Ele [o segurança] não tinha nada para me acusar. Minha mão, sei lá, não estava dentro da mochila, por exemplo. Não fiz nada de suspeito. Agora, se eu fosse branco, um alemão, provavelmente eu não teria passado pelo mesmo constrangimento”, afirma o trabalhador.

Após a abordagem, a vítima solicitou aos agentes que fosse levada à delegacia para registrar a ocorrência. No entanto, os policiais, que teriam demonstrado certa proximidade com o funcionário da loja, segundo Reginaldo, disseram “vida que segue” e que o trabalho deles havia terminado.

“Os policiais me atenderam normalmente, mas também não fizeram nada que fosse a meu favor, tanto que no fim do vídeo falam: ‘Vida que segue’. Se eu tivesse realmente errado, ao contrário do que me acusaram, iam falar ‘vida que segue’? Não, iam descer o cassete no ‘neguinho’”, desabafa o jardineiro.

Ao chamar os policias, o segurança das Lojas Americanas não optou por ligar ao 190, mas, sim, ao “sargento Silva”, o que demonstrou certa intimidade. A Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) foi procurada e informou, ao Metrópoles, que não compactua com o racismo. Questionada sobre não ter levado Reginaldo à delegacia, a corporação silenciou. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

O jardineiro registrou a ocorrência somente no dia 10 de agosto, na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), acompanhado de advogados do escritório Nicodemos & Nederstigt Advogados Associados. Nessa segunda-feira (18/8), ele prestou depoimento na delegacia. A polícia, no entanto, ainda não identificou o suposto agressor, funcionário da Lojas Americanas.

Reginaldo faz questão de destacar, várias vezes, que vai seguir com o processo até o fim, custe o que custar. Aliás, ele nunca foi de desistir. Assim acontece, por exemplo, com a sua vida universitária. Mais de uma década e meia após sair do ensino médio e começar a trabalhar, ele foi contratado como jardineiro pela universidade Veiga de Almeida, na Barra da Tijuca.

Reginaldo aproveitou que a faculdade oferecia bolsa 100% para os funcionários e começou, por volta de 2013, a primeira graduação. Ele resolveu fazer engenharia de produção, mas, após o quarto período, não pôde dar prosseguimento aos estudos. “Não estava conseguindo dar conta, porque não tinha tempo para estudar”, diz.

O jardineiro, então, resolveu trocar de graduação, e deu início a um curso eletivo de paisagismo. Infelizmente, mais uma vez não terminou a graduação, pois foi dispensado junto a uma leva de funcionários, de faxineiro a diretor, pela faculdade, em meio à crise econômica de 2016, no fim do governo da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Agora, um dos sonhos que tem é poder continuar a graduação. “Quando você faz cumprir os seus direitos, os outros cumprem os seus deveres. Para mim, é uma engrenagem, que começa rodando pequenininha, mas termina na engrenagem maior”, finaliza, em referência ao direito constitucional de que todas as pessoas, inclusive negros, são iguais.”

Metrópoles