Quem queimar largada da sucessão de Maia, perde

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Foto: DANIEL FERREIRA/METRÓPOLES

Em seu primeiro mandato como deputado federal, Marcelo Ramos (PL-AM) é nome cotado para disputar a sucessão de Rodrigo Maia (DEM-RJ) na Presidência da Câmara. Após ter comandado a comissão especial que analisou a reforma da Previdência, o que dominou as discussões na Câmara no primeiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o deputado amazonense ganhou espaço de diálogo com os três grupos predominantes na Câmara: os bolsonaristas, o Centro mais ligado a Maia, e do qual ele faz parte, e ainda a oposição.

Apesar de expressar preocupação em não antecipar a disputa, não faz segredo das conversas que tem tido cotidianamente com lideranças que, segundo ele, já expressaram apoio ao seu nome. “Eu acho que quem queimar a largada vai ficar pelo caminho”, disse o deputado, em entrevista ao Metrópoles. “Então, eu trato com muita prudência”, admite.

“Existe um movimento de um grupo de deputados que defende minha candidatura e que me procura pedindo isso. Se isso vai culminar com uma candidatura, eu acho que ainda é muito cedo para definir. Não faz bem para a Câmara adiantar isso”, destaca.

“O que me legitimou para ser cogitado não foi eu pretender ser presidente. Porque seria uma ousadia absurda de um deputado de um ano de mandato e de um estado que tem oito parlamentares no meio de 513. O que me legitimou foi o meu jeito de trabalhar e de lidar com as pessoas”, justifica.

Maratonista, Marcelo Ramos compara a eleição da Câmara como uma prova de atletismo de 100 metros e não nega que está se preparando. “Eleição de presidência de Câmara não é maratona. É corrida se 100 metros. Agora, é claro que, para ganhar uma corrida de 100 metros, você tem que treinar o tempo que treina para uma maratona. Então, o treino é longo. A prova é que é curta”, comparou.

“Eu acho que tem gente muita afobada de trabalhar marcando em cima. Eu trabalho no dia a dia, conversando com um por um, conversando com cada deputado. Ouvindo, ajudando, construindo consensos. Quando o governo me pede uma coisa, eu procuro ajudar e fazer um acordo. Quando a oposição me pede, eu tento ajudar e fazer uma acordo”, observa.

Ramos ressalta que seu “instrumento” é seguir trabalhando, buscando construir convergências e dialogando com todo mundo. “Eu não vou mudar o meu estilo de atuação e não vou adiantar esse processo. Adiantar esse processo é dividir a Casa, quando a gente precisa da Câmara minimamente unida para votar as coisas que o país precisa”, diz.

O parlamentar ainda conta que, apesar de muitos deputados negarem, alegando que ainda não há conversa sobre o assunto, todas as movimentações na Câmara já giram em torno da sucessão de Maia. “Não se fala em outra dois”, admite.

“Claro que todo mundo diz que é muito cedo, mas não se fala de outra coisa aqui na Câmara. Esse e um assunto de todas as conversas. Tudo que acontece no plenário são fatos influenciados por isso. Tira projeto de pauta, bota projeto na pauta, tenta mudar líder de maioria, sai partido de bloco. Tudo aqui está influenciado por isso, apesar de todo mundo negar”, destaca.

Marcelo Ramos é um dos nomes que podem ter o apoio de Maia na eleição. Mas também são cogitados os nomes do emedebista Baleia Rossi e de Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). Essas alternativas surgem principalmente em contraposição ao campo bolsonarista, que se reúne em torno do nome do líder do bloco Arthur Maia (PP-AL). Outras candidaturas pulverizadas sob o apoio do presidente Jair Bolsonaro também estão sendo colocadas.

O vice-presidente da Casa, o deputado Marcos Pereira, por exemplo, já comunicou aos evangélicos sua intenção de ser candidato. Ele tem o apoio do bispo Edir Macedo. Além dele, entre os defensores do presidente está o deputado Capitão Augusto (PL-SP), da chamada “bancada da bala”: desde janeiro deste ano ele passou a não fazer segredo de suas intenções e hoje distribui anéis banhados a ouro para os colegas.

Conta a favor de Ramos o seu trânsito principalmente na esquerda, com quem ele trava bom diálogo. “Se a esquerda avalizar essa isso, ótimo”, diz. “Tenho conversado bastante, conversas públicas. Já tive conversa com o PSB, com alguns setores do PT, com PDT. São conversas pontuais, menos em defesa de uma candidatura e mais tentando entender o cenário, tentando entender o que todo mundo pensa e tentando construir convergências”, ponderou.

O sucesso de Marcelo Ramos, porém, dependerá de sua capacidade de obter votos do campo ligado a Maia e da oposição. “O meu medo maior é uma pulverização absurda na sucessão do presidente Rodrigo Maia que leva o elemento do imponderável para o resultado”, raciocina.

“Precisamos de um presidente que tenha capacidade de diálogo com o governo, que não se afaste um milímetro das questões relacionadas à defesa da independência da Câmara e dos valores democráticos do país e que tenha compromisso com as reformas. Esse é um perfil mais genérico”, completa.

Ramos acredita que, a despeito de ter compromisso com várias pautas que não têm a concordância da oposição, a reforma da previdência criou entre uma relação de confiança. “Era uma pauta que eles eram radicalmente contra, mas que eles foram tratados com respeito, com lealdade, sem atropelar nada. Sem mentir, sem enganar e isso conta muito aqui dentro da Casa”, destaca.

E foi a reforma da Previdência que, segundo ele, consolidou o diálogo com oposicionistas. “Quando me escolheram para presidente da comissão da reforma da Previdência, a primeira reunião que eu fiz foi com os líderes da oposição. Eu disse a eles que o mesmo regimento interno que garante o direito de obstrução me obriga a levar a matéria a voto. Disse que eles exerceriam na plenitude o direito de obstrução, mas sabendo que não há obstrução eterna. A obstrução termina quando há a votação da matéria e eu levaria a matéria a votação”, relata.

Metrópoles