Na ONU, Bolsonaro não teve coragem de defender a cloroquina

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Foto: Marcos Corrêa/PR

Um dos principais defensores da utilização da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19, o presidente Jair Bolsonaro não fez propaganda da medicação ao discursar na 75ª edição da Assembleia-Geral das Nações Unidas, na manhã desta terça-feira (22/9).

Ao contrário da postura que tem adotado nas transmissões ao vivo pelas suas redes sociais e em alguns eventos públicos, quando costuma aparecer com uma caixinha de hidroxicloroquina e dizer que o remédio poderia ter salvo a vida de muitos dos quase 138 mil brasileiros que morreram pelo novo coronavírus, diante dos demais líderes internacionais Bolsonaro se limitou a dizer que o governo brasileiro “estimulou, ouvindo profissionais de saúde, o tratamento precoce da doença”.

O presidente chegou a citar a hidroxicloroquina na sua fala, mas apenas para dizer que o insumo de produção da droga sofreu um reajuste de 500% no início da pandemia. “A pandemia deixa a grande lição de que não podemos depender apenas de umas poucas nações para produção de insumos e meios essenciais para nossa sobrevivência”, observou Bolsonaro.

Desde o início da pandemia, em diversas oportunidades o presidente já defendeu a substância como forma de tratamento à covid-19. Em julho, por exemplo, quando foi diagnosticado com a doença, o presidente afirmou ter utilizado a hidroxicloroquina e que ficou curado por conta do remédio.

Bolsonaro sempre defendeu a tese de que médicos devem ter a liberdade de prescrever a medicação para os seus pacientes, apesar de não haver nenhuma comprovação científica da eficácia da hidroxicloroquina contra o novo coronavírus. Segundo ele, “todos nós sabemos que não tem comprovação científica, agora não tem também ninguém cientificamente dizendo que não faz efeito”.

Constantemente, ele relaciona o remédio a um suposto episódio da Segunda Guerra Mundial em que água de coco foi usada no lugar de sangue em transfusões de soldados e que isso funcionou, mesmo sem comprovação da ciência.

Na semana passada, durante a cerimônia de posse do general Eduardo Pazuello como ministro da Saúde, Bolsonaro disse que “nada mais justo, nada mais sagrado, nada mais legal, do que um médico na ponta da linha decidir o que vai aplicar em seu paciente, na ausência de um remédio com comprovação científica” e que “a responsabilidade é do médico, como é do militar muitas vezes, na ponta da linha, decidir se vai atacar ou vai recuar na frente de combate”.

“Quantas e quantas doenças estariam até hoje existindo no mundo, se não fosse a ousadia dos médicos nesse momento de se expor e buscar uma solução para aquele seu irmão que está com os dias contados se nada fosse realizado?”, questionou. Além disso, ele parabenizou a equipe de Pazuello por ter mudado o protocolo de utilização do remédio no caso de pacientes com covid-19. Antes de o general chegar à pasta, a medicação só poderia ser usada para tratar pessoas em estado grave. Agora, já pode ser aplicada a partir dos primeiros sintomas.

“Eu aprendi, no meio militar, e vale para todos nós, que pior que uma decisão mal tomada, é uma indecisão. Nós tínhamos que fazer alguma coisa para conter as mortes que se aproximavam de pessoas vitimadas pelo vírus. Hoje, estudos já demonstram que por volta de 30% das mortes poderiam ter sido evitadas, caso, de forma precoce, fosse ministrada a hidroxicloroquina. A decisão não foi da minha cabeça, resolvi apostar como se fosse um jogador”, afirmou Bolsonaro, sem mencionar as pesquisas que serviram de referência para sua declaração.

Correio Braziliense