Direita brasileira só se viabiliza com populistas

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Foto: Sérgio Lima/AFP

Tornou-se lugar comum nas análises da imprensa e da academia interpretar a eleição de 2018 como uma ruptura com os padrões de competição política que haviam prevalecido pelo menos desde a eleição de FHC em 1994.

Independente das causas apontadas pelos analistas –crise econômica, escândalos de corrupção, crescimento do antipetismo–, há um amplo consenso em torno do caráter inesperado da vitória de Jair Bolsonaro em 2018.

Entretanto, para além de fatores conjunturais, há elementos de mais longo prazo que são importantes para entender a ascensão do bolsonarismo no Brasil e que apontam para certa continuidade nos resultados das urnas em 2018.

O sistema partidário que se construiu após a transição democrática vem se caracterizando pela conjunção entre um amplo eleitorado conservador, de um lado, e do outro pela ausência de um partido ou partidos capazes de fidelizar este mesmo eleitorado.

A ausência de um partido conservador sólido e enraizado na sociedade produziu um vazio político que foi habilmente explorado por Fernando Collor em 1989 e Enéas em 1994, ambos candidatos populistas de direita, apoiados em discurso antissistema.

A vitória de Jair Bolsonaro em 2018 repete o padrão observado nesses pleitos e aponta para uma espécie de lei de ferro da política brasileira no que diz respeito à incapacidade da direita de eleger o presidente da República senão pelas mãos de populistas apoiados por partidos eleitoralmente irrelevantes.

Como se sabe, o projeto de reorganização da direita partidária acalentado pelos estrategistas dos últimos governos militares fracassou fragorosamente.

O antigo PFL (hoje DEM), principal herdeiro do espólio do partido da ditadura, a Arena, é uma pálida sombra do seu apogeu nos anos 1990. Ademais, a direita se fragmentou em uma multitude de partidos especializados em apoiar o governo de ocasião e que carecem de identidades programáticas claras.

Paradoxalmente, porém, ao mesmo tempo em que os partidos de direita permaneceram frágeis e sem vínculos mais duradouros com a sociedade, os políticos conservadores, tomados individualmente, experimentaram formidável sucesso eleitoral, o que permitiu ao bloco de direita no Congresso influenciar de forma decisiva a agenda política nestas mais de três décadas de democracia.

Esse paradoxo se explica, em parte, pela congruência entre os valores conservadores esposados pelo eleitor brasileiro médio e aqueles mobilizados pela direita organizada de forma extrapartidária nas bancadas temáticas do boi, da bala e da Bíblia no Congresso.

Explica-se também pelas enormes vantagens competitivas gozadas pelos políticos conservadores durante boa parte do recente período democrático, especialmente no que diz respeito ao acesso à mídia e fontes de financiamento de campanha, e ao controle sobre redes clientelistas nas esferas estadual e local.

A notável ausência de um partido conservador capaz de se contrapor efetivamente ao principal de esquerda, o PT, teve consequências duradouras sobre o funcionamento do sistema partidário.

Uma vez que a competição presidencial se estabilizou em torno da disputa entre dois partidos nascidos da oposição ao regime militar –PT e PSDB–, e cujas lideranças esposavam posições mais progressistas do que a direita tradicional, as divisões do eleitorado no eixo liberal-conservador permaneceram em segundo plano.

Ainda que o PSDB tenha se movido em direção à direita do espectro político ao longo do tempo, tal movimento aconteceu basicamente no que diz respeito ao papel do Estado na economia.

De fato, uma série de expert surveys realizados no Brasil e em vários outros países da América Latina em 2006, 2011 e 2015 (http://wiesehomeier.net/prepps/) mostrava o PSDB claramente à esquerda de todos os demais partidos de direita brasileiros no que tange a questões como direito ao aborto e direitos das minorias, ainda que se alinhasse às legendas mais conservadoras em temas como privatização e desregulamentação.

É fato que as bancadas do PSDB na Câmara e no Senado se tornaram mais conservadoras nos últimos anos, porém a base de seguidores fiéis do partido permaneceu restrita a um pequeno grupo de eleitores progressistas nos valores e (moderadamente) liberais na economia, como demonstrado por David Samuels e César Zucco no livro “Partisans, Antipartisans and Nonpartisans”.

Ademais, a partir da vitória de Lula em 2002 as diferenças ideológicas entre os programas do PT e do PSDB nas disputas presidenciais se reduziram paulatinamente, o que também impossibilitou ao PSDB ocupar de forma permanente o vazio deixado por seus aliados à direita.

Nos últimos anos, as graves denúncias de corrupção contra o então presidente do partido, Aécio Neves, em paralelo ao surgimento de um candidato de direita competitivo, contribuíram para implodir o alinhamento estratégico do eleitorado conservador ao PSDB que até então havia sustentado a competitividade dos tucanos nas disputas presidenciais.

O governo Bolsonaro representa, para todos os efeitos, uma tentativa (até aqui fracassada) de reorganizar a direita, sob liderança dos seus segmentos mais extremistas e saudosistas do regime militar.

Dadas as evidentes fragilidades políticas do atual governo e a disputa entre bolsonaristas e lavajatistas, o cenário de debilidade partidária do campo conservador deve persistir.

O presidente Bolsonaro já demonstrou não ter nem disposição e nem capacidade para construir um partido capaz de aglutinar, de forma perene, o eleitorado de direita.

Por outro lado, após negociar com o centrão alguma sobrevida para um governo eternamente em crise, o presidente não terá como recorrer ao discurso antissistema para se reeleger.

Ao que tudo indica, em 2022 o presidente será, inevitavelmente, julgado pelas realizações da sua administração e pelo manejo da grave crise sanitária e econômica que se instaurou com a pandemia.

Não será surpreendente, então, se o feitiço se virar contra o feiticeiro, sendo o eleitorado conservador mobilizado, mais uma vez, por um outsider capaz de reencarnar o discurso moralista contra a corrupção e a chamada “velha política”, agora de braços dados com a “nova política” bolsonarista.

Folha