Lula ainda não endossa propostas econômicas do PT

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Foto: Alexandre Schneider/Getty Images

Existe um território no jornalismo onde habitam animais fantásticos. Para muitos analistas, o “Palácio do Planalto” tem sentimentos e ora fica “preocupado”, ora “acende o sinal amarelo”. Já a “Equipe Econômica” vira uma pessoa só e tem sempre uma opinião sobre o que está sendo votado no Congresso. O “Entorno do Presidente”, por sua vez, formula um conselho que, geralmente, é ignorado. No jornalismo econômico o recurso também é comum com o “Mercado” ou a “Faria Lima” “nervosos” ou “eufóricos” diante de alguma declaração ministerial. Nesta semana, ressurgiu uma figura de linguagem desaparecida há uns anos, a dos “economistas do PT”.

Ironicamente, os economistas do PT voltaram aos jornais não por uma necessidade do candidato Luiz Inácio Lula da Silva, mas para responder ao ícone dos economistas tucanos, Edmar Bacha. Um dos formuladores do Plano Real e um dos mais brilhantes economistas do final do século 20, Bacha deu uma entrevista desastrada à Folha, na qual cometeu a falsa equivalência entre a ameaça à democracia causada pelo presidente Jair Bolsonaro e o risco econômico de um novo governo Lula. O argumento é falacioso porque nem Lula, nem os economistas do PT e muito menos Bacha sabem qual será o programa econômico de Lula. Para ser justo, nenhum partido ou candidato tem programa faltando um ano para o primeiro ano da eleição.

Em reação a Bacha, o Valor publicou na segunda-feira alentado manancial das ideias do professor de economia da Unicamp, Guilherme Mello. Coordenador do núcleo da Fundação Perseu Abramo, o braço intelectual do PT, Melo defendeu a substituição dos vários limites fiscais por um novo indicador. Em outros tempos, haveria ranger de dentes, mas com Paulo Guedes articulando a explosão da Lei de Teto de Gastos para acomodar os projetos eleitorais de Bolsonaro, a tese defendida por Mello parece sensata.

“Não adianta ter uma regra absolutamente dura e que não se consegue implementar. Em 2019 furaram o teto capitalizando estatal. Depois veio orçamento de guerra, gasto extraordinário e agora tem o drama dos precatórios. A regra atual não sinaliza nenhuma trajetória. Quem faz parte do jogo democrático precisa entender uma nova regra fiscal como plausível e que valha a pena preservar. Não estamos falando de retirar a regra do teto e não colocar nada no lugar. Estamos falando de tirar uma regra de despesa e colocar outra mais alinhada com a experiência internacional”, argumentou. Embora não explicite quais os critérios desse novo indicador, Mello revela ingenuidade política ao imaginar que a Lei do Teto, que consta da Constituição, possa ser substituída por uma lei comum.

No mesmo dia, a agência Reuters divulgou entrevista com outro professor da Unicamp, Márcio Pochman, defendeu a volta de “projetos grandiosos” aproveitando a liquidez hoje em títulos do governo. Perguntando como faria isso, Pochman defendeu um mitológico acordo político “que alguns vão aceitar, outros não vão aceitar, mas realidade faria com que o País pudesse ter uma convergência em torno dessa perspectiva”. A entrevista não teve repercussão.

Nesta semana chegou às livrarias “Bidenomics nos Trópicos”, uma coletânea de artigos sobre como os projetos trilionários de investimentos estatais do presidente americano Joe Biden podem ser adaptados ao Brasil. Organizado pelo ex-ministro Nelson Barbosa, professor da FGV, e André Roncaglia, da Unifesp, o livro traz textos de 22 economistas, muitos sem qualquer vinculação com o PT.

“A eleição de Joe Biden nos EUA abre um novo capítulo para a história econômica. Não porque haja qualquer novidade em termos da teoria econômica que lhe dá suporte; ou de experiências históricas contemporâneas, em face do exuberante caso da China. Sua significância se dá pela reabilitação, após 40 anos de ostracismo e má reputação, das ideias de planejamento e coordenação estatais e sua reinserção no centro do poder da maior economia do planeta”, escrevem os organizadores. Eles afirmam seguidas vezes entender as restrições fiscais e cambiais no Brasil de um programa de indução estatal. “Não é possível fazer tudo ao mesmo tempo, mas é possível fazer várias coisas com o espaço fiscal de que dispomos”.

Com Lula em primeiro lugar em todas as pesquisas, é natural a curiosidade em torno do que pode ser a economia do seu terceiro governo. Mas o Lula 2021 é cauteloso e suas entrevistas são um oceano de generalidades econômicas.

Lula repete assim uma tática comum de seu governo, deixar vozes divergentes debaterem para ver quem sobrevive. Fez isso com Palocci e José Dirceu, depois com Palocci e Dilma Rousseff e, ao final, entre Henrique Meirelles e Guido Mantega. Privilegia conversas com líderes políticos _ de Renan Calheiros a Guilherme Boulos, de Tasso Jereissati a João Campos, de Gilberto Kassab a Marcelo Freixo _ do que economistas e empresários.

A ambiguidade faz sentido neste momento. Com a inflação dos últimos doze meses chegando a 10%, os juros subindo e o crescimento do ano que vem em 1%, a economia será um grave problema na campanha de Jair Bolsonaro. Se Lula antecipar suas alternativas agora ele (1) não resolve nada porque Bolsonaro continua presidente; (2) traz para o seu colo a cobrança de problemas que ainda; e (3) vai falar de problemas que talvez nem existam se vencer e assumir em 2023.

As repórteres Andrea Jubé e Luísa Martins, do Valor, revelaram que em uma conversa recente Lula teria dito que pretende colocar um político como ministro da Fazenda, uma forma de não responder qual linha econômica seguiria. Na última vez que foi específico sobre economia, Lula disse que se tivesse sido eleito em 2018 teria colocado Fernando Haddad como ministro da Fazenda. Nesta campanha, no entanto, Haddad foi excluído do debate para a espinhosa missão de ser candidato a governador de São Paulo. A vaga de ministro do governo Lula está vaga.

Em 2002, quando foi eleito presidente depois de três derrotas, Lula foi obrigado a divulgar uma Carta ao Povo Brasileiro, na qual se comprometia “a cumprir os contratos”, expressão bonita para não dar calote na dívida interna. Ao contrário do que diz a lenda, a tal Carta não acalmou o mercado e nem mudou a trajetórias das pesquisas. Lula venceu as eleições com o dólar e o risco Brasil em níveis recordes e os indicadores só baixaram depois que seu então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, armou uma equipe com os zagueiros Joaquim Levy, Marcos Lisboa, Bernard Appy, enquanto no Banco Central, Henrique Meirelles manteve toda a diretoria dos tempos do PSDB.

Vinte anos depois, o PT não quer repetir o mesmo roteiro. Os petistas argumentam que um ex-presidente não pode ser tratado com a mesma desconfiança de estreantes. E aí começa o debate interminável porque os agentes de mercado têm urticária das memórias do governo Dilma Rousseff, enquanto os petistas tentam delimitar o tempo nos dois governos Lula.

Ao final, será a política que dará o tom ao programa econômico do PT. O partido faz sua convenção em fevereiro e lança Lula em abril. Quem é capaz de afirmar quais as condições políticas até lá? Ninguém. Além do mais, há um consenso entre os estrategistas do partido que mais difícil do que vencer a eleição será tomar posse e governador quatro anos. A possibilidade de Bolsonaro não aceitar uma eventual derrota e a necessidade de um acordo com forças políticas de centro-direita para garantir a posse terão reflexos na composição do governo e na formulação da política. Por mais que a ansiedade sobre a definição do PT seja compreensiva, ela não será respondida antes de 2022.

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