Acusada de atuar no PCC assume vaga como deputada

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Foto: Antônio Augusto/Câmara dos Deputados

Uma ré acusada de lavar dinheiro do tráfico de drogas em São Paulo assumiu mandato na Câmara dos Deputados.

Ely Santos, do Republicanos, estava na suplência do partido, mas tomou posse no último dia 9 devido a pedido de licença do titular, Roberto Alves, que é pastor da Universal.

Ela é irmã do prefeito de Embu das Artes (região metropolitana de São Paulo), Ney Santos, do mesmo partido, que também é réu no mesmo processo e suspeito de liderar uma organização criminosa composta por parentes e pessoas próximas.

O prefeito inclusive está inelegível por receber em campanha dinheiro de origem ilegal.

​O partido, ligado à Igreja Universal, é aliado do governo Jair Bolsonaro e abriga hoje um dos filhos políticos do presidente, Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro.

Ely chegou a permanecer presa preventivamente por dois meses entre 2016 e 2017 no período em que o Ministério Público de São Paulo apresentou a denúncia de organização criminosa tendo como principal alvo o irmão.

À época, Ney ficou foragido diante de ordem de prisão e não compareceu à cerimônia de posse na prefeitura. Mas o Supremo Tribunal Federal concedeu habeas corpus posteriormente.

Em junho deste ano, houve mais um constrangimento para o político, quando a Polícia Civil baiana fez buscas em fazenda de um irmão dele no interior do estado e apreendeu uma arma e R$ 670 mil em dinheiro.

O inquérito ainda não foi concluído, e Ney, 41, é o principal investigado —a deputada não é alvo nesse caso.

O prefeito estava no local no momento da ação e chegou a ir a uma delegacia prestar esclarecimentos. Policiais encontraram na propriedade um avião, no qual o político transportou sua família, e uma pista de pouso não homologada.

Na posse da deputada, neste mês, o irmão esteve na Câmara com a família, gravou vídeos e divulgou compromissos em Brasília no qual tratou da liberação de recursos para Embu das Artes.

Disse em rede social que ela será novamente candidata à Câmara no próximo ano. No domingo (21), promoveu um comício, com centenas de pessoas, para comemorar a posse da “primeira deputada federal da história de Embu das Artes”. O presidente da sigla, Marcos Pereira, enviou mensagem em vídeo.

Em sua primeira sessão como titular, a deputada do Republicanos votou com o governo Bolsonaro na PEC dos Precatórios, projeto que virou uma grande aposta governista para 2022.

Ely, 44, já foi secretária municipal do Desenvolvimento Social e informou à Justiça Eleitoral que sua profissão é empresária. Em 2018, o prefeito de Embu das Artes, que ela diz ser seu mentor, licenciou-se do cargo para trabalhar na campanha dela.

Obteve 49 mil votos alavancados por um forte financiamento do partido —R$ 1,3 milhão dos fundos eleitoral e partidário. Ficou como primeira suplente.

A deputada, cujo nome civil é Eliane de Sousa Alves Machado, possui dois números ativos de CPF. Segundo expôs em denúncia o Ministério Público, esse cadastro duplicado foi usado para confundir autoridades em relação à abertura de empresas.

A denúncia afirma que a parlamentar à época participava de negócios usados por Ney para lavar dinheiro do tráfico e o liga à facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). Diz que ela teve função de laranja, assim como outras pessoas acusadas, para contornar bloqueios judiciais de bens do político.

Afirma ainda, por exemplo, que um posto de combustível foi adquirido por ela quando o irmão esteve preso, em 2005, e que recebeu procuração para gerir diversos postos dele.

Em manifestação neste mês, os promotores reafirmaram que, em interceptação telefônica entre membros do PCC, Ney foi chamado de “intocável”.

Porém o processo, aberto em 2016, teve pouca movimentação desde então, em meio a discussões sobre em qual jurisdição deveria tramitar.

O Ministério Público de São Paulo apura atualmente a infiltração na política da facção e o caso de Embu das Artes é um dos focos dos promotores.

Conforme a Folha mostrou no ano passado, aliados do prefeito, como um de seus secretários, lançaram candidaturas em outras duas cidades da Grande São Paulo.

Após a reeleição de Ney, em 2020, um juiz eleitoral de primeira instância cassou a chapa por abuso de poder econômico e político. A sentença falava em uso da estrutura da prefeitura para se promover antes do pleito, e recurso da defesa agora está no Tribunal Regional Eleitoral.

Ney enfrenta outros reveses na Justiça e até hoje está impedido de sair do país.

Seus problemas judiciais vieram a público em 2010, quando se candidatou pela primeira vez, e foi alvo, em plena reta final de campanha, de uma operação policial que apreendeu uma Ferrari avaliada à época em R$ 1,4 milhão.

À Justiça Eleitoral o prefeito afirmou no ano passado que possui a maior parte de seu patrimônio é de dinheiro em espécie —R$ 1,6 milhão.

Em outubro deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral determinou sua inelegibilidade devido ao recebimento de doações ilícitas de R$ 300 mil na eleição de 2016, quando se elegeu prefeito pela primeira vez.

Nessa acusação, os promotores eleitorais citaram a suspeita de ligação com o PCC e afirmaram que houve abuso de poder econômico.

O ministro relator, Alexandre de Moraes, considerou que dois doadores investigados não tinham capacidade para fazer os pagamentos à chapa na eleição, e que, portanto, o financiamento de campanha ocorreu com “recursos de natureza inexplicada”.

Na esfera criminal, Ney foi condenado neste ano a dois anos e quatro meses de reclusão em regime aberto por disparo de arma de fogo em via pública. Ele recorreu.

À reportagem a defesa da deputada federal Ely Santos e do prefeito Ney Santos afirmou que irá comprovar a inocência dos dois no andamento da ação penal e que “não há qualquer elemento” que os ligue ao Primeiro Comando da Capital.

Diz que a parlamentar é “pessoa íntegra, com o passado ilibado e que muito engrandecerá o Legislativo” e que a prisão preventiva dela foi revogada porque o Supremo reconheceu que faltavam elementos.

Os advogados também afirmam que o prefeito nunca foi processado por tráfico de drogas e que a ação em tramitação tem origem em um inquérito de 2010 que até hoje não tem relatório final.

“Não há uma foto, uma gravação, qualquer elemento que ligue o sr. Claudinei [Ney Santos], ou seus familiares, ao crime organizado.”

A defesa também afirma que os postos de combustíveis estavam em nome de familiares, como Ely Santos, porque a investigação deflagrada em 2010 impediu, por meio de decisão judicial, que o hoje prefeito pudesse abrir empresas em seu nome.

“Por isso, para que pudesse trabalhar, os postos foram colocados em nome de familiares.”

Sobre a existência de dois CPFs, diz que o usado por Ely é o mesmo que consta em seu registro de candidatura eleitoral.

Também à reportagem o advogado Joel Matos afirmou que Ney Santos pretende recorrer da condenação à inelegibilidade e criticou a decisão da Justiça Eleitoral.

Em relação ao caso investigado pela Polícia Civil da Bahia, o advogado disse que o prefeito estava no local se recuperando de um tratamento médico e não foi encontrado na operação nenhum indício relacionado ao tráfico de drogas. Também diz que o dinheiro apreendido e o avião não pertencem a Ney Santos.

Folha  

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