Racha entre moristas e bolsonaristas enfraquece governo nas redes

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Foto: Buda Mendes/Getty Images

As redes sociais funcionam como uma bússola para o presidente Jair Bolsonaro. E boa parte dos seus atos são explicados pela reação dos seus seguidores na internet. A demissão do ex-ministro da Justiça Sergio Moro, na sexta-feira 24, causou um racha na sua base digital de apoiadores, dividindo dois grupos – os bolsonaristas e os lavajatistas – que vinham andando juntos até então.

Para se recuperar do estrago, a militância bolsonarista se reorganizou, passou a bombardear no Twitter e no WhatsApp o ex-super heroi da Operação Lava Jato e das manifestações verde e amarelo com críticas de “omissão” e “deslealdade” e retomou o espaço perdido neste fim de semana. Não foi desproposital que o presidente voltou a comparecer – e a gravar uma live – em mais uma manifestação com pleitos antidemocráticos e contrária às orientações sanitárias de combate ao coronavírus, em Brasília, no domingo 4. O ato reuniu pouca gente, mas cumpriu a sua missão: incendiou as redes.

Segundo levantamento da consultoria Quaest (confira abaixo), que mede diariamente o índice de popularidade digital de autoridades, Sérgio Moro subiu exponencialmente logo quando começaram os rumores sobre a sua saída, dobrando de tamanho na plataformas digitais. Entre os dias 23 e 28 de abril, ele saltou de 30 para 62 pontos, chegando a superar a popularidade digital de Bolsonaro, mesmo que por pouco tempo. No mesmo período, o presidente, caiu de 82 para 61, o que mostra a divergência interna dentro da sua base.

A partir do dia 29, as críticas a Moro começaram surtir efeito e Bolsonaro voltou a se recuperar – em grande parte por causa do contato frequente do presidente com os seus seguidores. Até o domingo, Bolsonaro havia subido para 80, e Moro caído para 51. Apesar da queda, o ex-ministro da Justiça se mantém muito mais popular na internet do que antes da demissão. O índice calcula número de seguidores, buscas, curtidas e menções positivas e negativas no Twitter, Facebook, Instagram, Youtube, e Google, conferindo uma pontuação de 0 a 100.

“Os dados mostram que Bolsonaro conseguiu retomar a capacidade de engajamento, mas ele criou um novo inimigo – forte e poderoso. Moro continua sendo uma das principais ameaças ao seu governo, porque ele tem credibilidade perante parte dos seus eleitores”, analisou o cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A leitura é reforçada por outra pesquisa de monitoramento feita pelo laboratório digital da Fundação Getulio Vargas (FGV). Segundo o estudo, no dia da demissão de Moro, houve um repúdio de quase 70% dos perfis engajados no Twitter, o que reuniu parte da base até então bolsonarista, o centro e a esquerda – na saída do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, a reprovação foi de 60%. Nos dias seguintes, a base bolsonarista mirou a carga contra Moro, inflando a hashtag “fechadocombolsonaro”, e se recuperou. “O desgaste causado pela saída de Sergio Moro do governo não alterou o tamanho do grupo, que voltou a se mostrar internamente coeso”, diz o relatório da FGV.

Todo esse debate digital em torno das crises políticas do governo Bolsonaro jogou sombra sobre o debate em torno da Covid-19, que é a pauta número 1 no mundo. A FGV detectou esse fenômeno tipicamente brasileiro em números: no dia 24 de abril, houve 6 milhões de menções referentes à saída de Moro, equanto que o coronavírus ganhou 1,9 milhão de citações, no Twitter.

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