Zambelli é denunciada por subornar assessora de Hasselmann

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Fotos: Gabriela Biló e Dida Sampaio / Estadão

A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) enviou, nesta segunda, 8, um pedido de investigação ao Supremo Tribunal Federal que mira sua colega de partido e na Câmara, a também deputada Carla Zambelli (PSL-SP), por supostos crimes de advocacia administrativa, tráfico de influência e constrangimento ilegal.

Em ligação para uma das assessoras de Joice (ouça abaixo), Zambelli tenta convencer a funcionária a pedir demissão e a ‘contribuir’ em investigações contra a chefe. Em troca, promete tentar empregá-la no setor de comunicação da liderança do PSL, sob chefia do deputado Felipe Francischini.

“Sempre estoura a coisa no elo mais fraco, sempre vai estourar em você, e a Joice não vai assumir nada. Eu vi o vídeo dela falando as coisas… desmentindo e etc. A gente vai denunciar na PGR, vai ter coisas de Polícia Federal, vai ter mandado de busca e apreensão pro celular. Se você se dispor a pedir demissão, se dispor a contribuir e etc., fica melhor pra você. Do que você de repente ser pega daqui a três ou quatro semanas em uma operação da Polícia Federal”, argumenta Zambelli.

A deputada bolsonarista, que atua como líder informal do governo, se refere à denúncia de dois ex-funcionários de Joice Hasselmann, que acusam a antiga chefe de usar o gabinete para produzir notícias falsas e disparar ataques contra aliados do presidente Jair Bolsonaro. Em entrevista à CNN Brasil, sem revelar sua identidade, os ex-auxiliares afirmaram que a equipe era cobrada a fazer ‘montagens de vídeos’, ‘criar narrativas’ e ‘alimentar perfis falsos’ nas redes sociais, supostamente monitorados pela própria parlamentar.

Na última sexta, 5, o Estadão teve acesso a áudios (ouça abaixo) nos quais a deputada pede que a assessora crie uma hashtag chamando a deputada Bia Kicis (PSL-DF) de ‘sórdida’ e um vídeo usando falas de Carla Zambelli para expôr supostos ataques do governo federal ao ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro. Ele deixou o governo no final de abril acusando o presidente Jair Bolsonaro de tentar interferir politicamente da Polícia Federal e apresentou como prova das acusações uma conversa com Zambelli na qual ela se oferece para, em troca da permanência dele no cargo, convencer Bolsonaro a indicar o ex-juiz federal a uma das vagas que serão abertas em breve no Supremo Tribunal Federal.

 

Carla Zambelli afirma que a fala usada no vídeo, publicado por Joice em sua conta no Twitter (assista acima), foi ‘tirada de contexto’. Segundo ela, o trecho foi cortado de um áudio enviado ao porta-voz do movimento Nas Ruas, Tomé Abduch, e se referia à votação do ‘Plano Mansueto‘, no dia 2 de maio, no Senado. Parlamentares bolsonaristas articulam para levar o caso à Comissão de Ética da Câmara e à Procuradoria-Geral da República.

‘Chumbo trocado’. No pedido de investigação, Joice Hasselmann faz um preâmbulo no qual expõe mágoas com o governo, critica a ‘cegueira ideológica’ dos bolsonaristas e se diz vítima de uma série de ataques desferidos por ‘apoiadores fanáticos e irracionais’ alinhados à direita, perfis falsos e robôs. Ex-aliada do presidente, a deputada rompeu com o Planalto depois de um ‘racha’ no PSL que terminou com a debandada do clã Bolsonaro do partido.

Mais nova acusada de produzir fake news, a própria Joice denunciou o Planalto e seus aliados por suposto envolvimento em esquemas de disseminação de notícias falsas e discursos de ódio. Em dezembro do ano passado, na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News da Câmara dos Deputados, ela chegou a afirmar que um dos grupos de propagadores de notícias falsas e difamações mais ativos seria o chamado ‘gabinete do ódio‘, integrado por assessores especiais da Presidência da República. O grupo seria pautado, segundo ela, pelos filhos mais novos do presidente, Eduardo (PSL-SP) e Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), e pelo ‘guru’ Olavo de Carvalho.

No final de maio, após empresários, youtubers e outros apoiadores bolsonaristas terem computadores, documentos e celulares apreendidos como provas no inquérito nas fake news, que corre no STF, Joice voltou a atacar o governo. A deputada afirmou que ‘no fim da linha do esquema’ investigado pelo Supremo está o Palácio do Planalto. Segundo ela, ‘o esquema de produção de ataques e mentiras contra adversários políticos e a democracia’ envolve dinheiro público de gabinetes de políticos ligados à família Bolsonaro e recursos de empresários com trânsito constante no Palácio do Planalto.

Até o momento, as investigações não envolveram publicamente como acusados membros do núcleo duro do governo – à exceção do ministro da Educação, Abraham Weintraub, por ter chamado de ‘vagabundos’ e pedido a prisão dos ministros do Supremo. O grupo acusado de integrar o gabinete do ódio, no entanto, não foi acionado pelos investigadores. Carla Zambelli, por sua vez, chegou ser chamada para depor, mas preferiu ficar em silêncio diante dos policiais federais. A deputada acusa a Justiça de parcialidade e perseguição aos aliados do presidente, classifica o inquérito como inconstitucional e defende que ele seja encerrado.

Na próxima quarta, o STF deve analisar manifestação do Procurador-Geral da República, Augusto Aras, pela suspensão temporária das investigações até que a Corte estabeleça ‘contornos’. O plenário do Supremo discute ainda, na sexta, 12, um segundo pedido pelo fim do inquérito, enviado pelo Planalto, através do Ministro da Justiça, André Mendonça, em favor dos aliados.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO TONY CHALITA, QUE DEFENDE JOICE HASSELMANN

“Ao constranger uma assessora de outra parlamentar, ratificando sua influência junto às ações da Polícia Federal, com o claro objetivo de obter vantagens e justificar suas próprias condutas, até agora não explicadas, a Deputada Federal Carla Zambelli, no afã de prejudicar Joice Halssemann, cometeu, em um só ato, três crimes, que devem ser profundamente investigados, pois o que se discute, ao fundo, é o uso do Estado em favor de interesses privados, o que afronta os alicerces de nossa democracia.”

COM A PALAVRA, A DEFESA DE CARLA ZAMBELLI

A Deputada Carla Zambelli não foi citada nem intimada acerca de qualquer Representação formulada pela Deputada Joice.

Mas ao que consta, a chefe do Gabinete do Ódio fez a notícia crime ao STF no intuito de “gerar notícia” num momento delicado o qual estamos passando em nosso país, já que como legisladora, a Deputada deveria saber que este tipo de denúncia se faz à Procuradoria Geral da República.

Caso exista a referida Representação, estará à disposição das instituições para prestar todos esclarecimentos necessários.

Reitera por fim, que, caso ela exista, a atitude da Deputada Joice Hasselmann só demonstra seu desespero em tentar “camuflar” sua ligação com recentes notícias veiculadas na imprensa. Sendo certo que, hoje, o povo brasileiro sabe quem é e o que deseja a referida parlamentar.

Estadão