Vereadora trans que se exilou diz que Estado brasileiro é racista

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Foto: Reprodução

“Me sinto mais uma vítima do Estado de barbaridade, racista, genocida, que é cruel com nossos corpos.” É assim que Benny Briolly (PSOL-RJ), primeira vereadora trans eleita de Niterói (RJ), traduziu em entrevista a Universa, nesta sexta (14), a sensação de ter sido obrigada a sair do Brasil após receber novas ameaças de morte.

Desde janeiro, quando assumiu seu mandato, a vereadora tem sido vítima de transfobia e de ameaças. A decisão para que ela deixasse o país foi tomada pelo PSOL — em 2018, a também vereadora pelo partido Marielle Franco foi executada no Rio de Janeiro.

Para Benny, a necessidade de sair do Brasil para assegurar sua integridade física assinala como o Estado lida com os corpos negros, de mulheres e de pessoas LGBTQIA+ (Lésbicas, gays, bissexuais, trans e travestis, queers, intersexuais, assexuais e demais existências de gêneros e sexualidades). “Me sinto uma vítima do Estado da indústria mercadológica religiosa, do que não respondeu ainda quem mandou matar minha amiga e companheira de partido Marielle Franco”, afirma.

É ruim, é triste, é cruel. É uma sensação de impotência, de ainda estar vivendo sob a chibata e o chicote de um processo escravocrata

Em uma das recentes ameaças que recebeu por e-mail, a pessoa mostrou que sabia seu endereço e exigiu que ela renunciasse ao mandato senão iriam até sua casa matá-la. Além disso, Benny recebeu comentários em suas redes sociais desejando que “a metralhadora do Ronnie Lessa” a atingisse. Ronnie Lessa é o policial militar reformado preso por suspeita de matar a vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes, em 2018.

As ameaças foram comunicadas e oficializadas, segundo a assessoria da vereadora, para várias instâncias do governo, e nenhuma medida havia sido tomada para garantir a integridade física de Benny. No dia 6 de maio, foi confirmada a possibilidade de a parlamentar ser incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos.

Há um mês, Benny, que foi a quinta candidata mais votada em Niterói na última eleição, com 4.358 votos, conseguiu que a Câmara Municipal determinasse a obrigatoriedade do uso de nome social entre os parlamentares, depois de sofrer ataques transfóbicos no exercício de seu mandato. O nome social é aquele que uma pessoa escolhe para usar quando se reconhece com um gênero diferente daquele com o qual foi identificada no nascimento.

“Neste ano, completamos 133 anos da falsa abolição do processo escravocrata, 89 anos em que mulheres têm direito ao voto. Ainda somos o país que mais mata travestis e transexuais no mundo e um dos que mais extermina defensores de direitos humanos”, diz. Em 2020, 175 travestis e mulheres transexuais foram assassinadas — um aumento de 41% em relação ao ano anterior, quando houve 124 homicídios.

Para ela, as medidas protetivas são uma “luz no final do túnel”, mas ao mesmo tempo mostram o quanto a Câmara de Niterói e todos os órgãos institucionais vão precisar se debruçar rigorosamente para garantir a minha integridade de vida”.

Sou a mulher mais votada do município. O povo escolheu uma travesti, preta, favelada, para ocupar esse espaço, porque represento as vozes das mães que choram pelos filhos vítimas de violência do Estado, que são pretos. Das travestis e transexuais que se encontram ainda nas esquinas, nos becos e nas noites sem o direito de vida assegurado. De muitas pessoas LGBTQIA+ e mulheres que todos os dias são vítimas das barbaridades misóginas e LGBTfóbicas que acontecem no Brasil

Benny deverá ficar por 15 dias afastada presencialmente da Câmara Niterói. Nesse período, participará das sessões de maneira virtual, recurso adotado desde o início da pandemia de covid-19. Ela diz que seu trabalho como vereadora continuará ativo e que, apesar da medida extrema de sair do país, segue firme em sua atuação política.

“A ‘mandata’ [mandato] segue nos territórios, nas favelas, fiscalizando os órgãos institucionais”, fala. “Com a coroa de orixá na minha cabeça, minha ancestralidade, com a política que acredito que não é a do Estado capitalista, que não é o Brasil genocida, que não é Bolsonaro ocupando o poder. Preciso enfrentar todas as instâncias necessárias para que minha vida seja assegurada e eu continue a exercer meu mandato.”

No ano passado, uma colega de partido de Benny, a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), enviou uma carta à ONU (Organização das Nações Unidas) denunciando ameaças contra sua vida. Para ela, que também foi vereadora em Niterói e precisou sair do estado do Rio para se sentir mais segura, a situação de Benny por conta da violência política é “inadmissível”.

Uol