Janaína Paschoal deixa porta aberta para voltar ao bolsonarismo

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Foto: José Antonio Teixeira/Assembleia Legislativa

Dona do recorde de votos obtidos por um deputado no Brasil (incluindo estaduais e federais), Janaina Paschoal (PSL-SP) entrou na reta final de seu mandato na Assembleia Legislativa de São Paulo em meio à indefinição sobre seu futuro e aos dilemas da direita que eclodiu com Jair Bolsonaro em 2018.

Antipetista acima de tudo, a advogada e professora de direito da USP mantém relação ambígua com o presidente, alternando críticas e elogios. Nos últimos tempos, contudo, a defesa do governo tem sobressaído, diante de algo que ela diz lamentar: a direita só ter Bolsonaro como opção para 2022.

O raciocínio tem sido exposto pela parlamentar a quem a procura para falar do pleito e da sua decisão —segundo ela, irreversível— de não tentar a reeleição nem uma cadeira na Câmara dos Deputados, mas, sim, uma vaga no Senado. Se o plano será possível, nem a própria tem muita certeza.

Depois dos 2 milhões de votos na primeira eleição que disputou, impulsionada pela fama de coautora do pedido de impeachment de Dilma Rousseff (PT), Janaina tem à frente uma série de obstáculos se quiser sobreviver na política.

“Muita gente tem me desincentivado a tentar o Senado, dizendo que é uma loucura, que é uma eleição mais difícil que a do Governo [de São Paulo]. Mas eu cismei, sabe?”, diz Janaina à Folha. “Minha lógica não é a de ‘onde eu vou ganhar’, ‘onde está garantido [se eleger]’. Eu não penso assim.​”

“Dos nomes que tenho ouvido, acho que eu sou a melhor candidata. A mais bem formada, a mais preparada para a função. Se o povo vai achar também e dar o voto para mim, aí é outra história.”

Adversários levantam dúvidas sobre sua capacidade de repetir o sucesso nas urnas sem um fenômeno como a onda conservadora de 2018 e com o complicador de ter passado à condição de persona non grata para alas da direita, que agora lhe devotam ódio comparável ao que ela já colhia da esquerda.

No Twitter, a deputada reafirmou nos últimos dias que não vê motivo para impeachment de Bolsonaro e que o instituto “não pode ser banalizado” —posição que contrasta com ações dela em meados de 2020, quando defendeu na tribuna da Assembleia a saída do presidente e pediu a renúncia dele.

Agora, ela prega cautela diante das revelações da CPI da Covid no Senado. “O povo do PT queria que eu dissesse que já é caso de derrubar o presidente, e o do Bolsonaro queria que eu desmerecesse as denúncias. Eu acho que tem que apurar.”

Com a desobediência à regra tácita da cartilha bolsonarista que veta críticas ao presidente, Janaina já foi tachada de traidora e até comunista, mas mantém um pé no barco do apoio à reeleição enquanto não vê surgir uma opção de terceira via competitiva e, principalmente, sem vestígio esquerdista.

Seu candidato dos sonhos é o ex-ministro Sergio Moro. O juiz-símbolo da Operação Lava Jato, no entanto, tem sinalizado distanciamento do jogo eleitoral. Se não tiver saída, a deputada votará no atual mandatário para evitar uma vitória do ex-presidente Lula (PT), cenário que a apavora.

Na jogada de morde e assopra, ela chega a afirmar que a volta do petista ao páreo, graças ao STF (Supremo Tribunal Federal), foi culpa de Bolsonaro, que, ao fazer um governo atrapalhado e norteado por polêmicas, deu motivo para uma decisão da corte que ela considera mais política do que jurídica.

Janaina nega, no entanto, que um cálculo eleitoral esteja embutido nos acenos às hostes bolsonaristas. Afirma se preocupar, antes de tudo, com o país e a chance de retorno do PT. E diz que fará sua escolha só em 2022. “Uma coisa é votar, e outra é fazer campanha. Acho cedo para falar”, despista.

“Eu não voto no Lula. Do ponto de vista ideológico, muito embora eu não seja alinhada com Bolsonaro, ele é menos ruim do que a linha do Lula, para mim”, emenda ela, que recusa o rótulo de bolsonarista.

Consolidar sua própria candidatura dependerá, sobretudo, de um acerto com o PSL. O partido ainda costura alianças para a eleição e não tem definição de nomes nem de coligação. Recentemente, abriu diálogos com o MBL (Movimento Brasil Livre) e com o comando do MDB.

Dirigentes da sigla reclamam do pouco envolvimento de Janaina na discussão mais ampla sobre terceira via e palanques estaduais. A avaliação é que a participação ativa ajudaria a emplacar sua campanha. A parlamentar é crítica da concentração de poder nos partidos e defensora de candidaturas avulsas.

Para o presidente estadual do PSL, o deputado federal Junior Bozzella, ter a deputada na disputa ao Senado é possível, mas envolve vários fatores. O partido filiou o apresentador José Luiz Datena e pretende lançá-lo à Presidência. Ele, porém, vem dizendo que prefere concorrer ao Senado por São Paulo.

“Janaina tem capital político para disputar qualquer cargo, mas eleições têm que ser analisadas de acordo com o momento. Toda candidatura, principalmente majoritária, deve nascer de um sentimento coletivo”, afirma Bozzella, para quem a deputada precisa se abrir “à discussão interna, fazer a construção”.

O dirigente vê as aparentes contradições de Janaina como um trunfo. “Ela tem um perfil combativo, um lado mais lava-jatista. Faz as ponderações sobre Bolsonaro, mas também atuou no impeachment do PT. Tem transparência e carrega o antipetismo. Pegaria moderados e bolsonaristas arrependidos.”

A recordista de votos é automaticamente consultada no PSL para outras disputas. Já foi sondada para a Presidência, o que ela —que quase foi candidata a vice de Bolsonaro— descartou. Também recusou a campanha à Prefeitura de São Paulo, que ficou com a deputada federal Joice Hasselmann.

São Paulo terá apenas uma vaga a preencher no Senado na eleição do ano que vem, o que tornará a briga ainda mais apertada. Os dois eleitos pelos paulistas em 2018, Major Olimpio (PSL) —que morreu de Covid-19 neste ano— e Mara Gabrilli (PSDB), tiveram, respectivamente, 9 milhões e 6,5 milhões de votos.

Apoiador de Bolsonaro e seus aliados no estado, o empresário Otavio Fakhoury prevê um caminho pedregoso para Janaina caso concorra a senadora. Para ele, as críticas a fizeram perder apoios no eleitorado bolsonarista, mas podem ter reforçado uma posição de independência.

“Quem buscar ‘o candidato do Bolsonaro’ não vai votar nela, mas quem estiver atrás de um candidato independente pode votar. Resta saber se esse apoio é suficiente para compensar a perda”, analisa.

Para Fakhoury, que foi investigado no recém-arquivado inquérito dos atos antidemocráticos no STF e sempre negou envolvimento com ilegalidades, um eventual apoio de Bolsonaro a ela é incerto.

“Se sai o [Abraham] Weintraub ou o Luiz Philippe [de Orléans e Bragança] ou o [Ricardo] Salles candidato ao Senado, aí diminui muito a possibilidade de ela ter o voto conservador”, afirma.

Janaina diz acreditar que as pessoas dispostas a votarem nela são as “que não têm o perfil de procurar líderes, que gostam de refletir, de ter autonomia, sem essa coisa de endeusamento de políticos”.

“Recebo muitas mensagens de gente arrependida [pelo voto em mim], mas também de pessoas que falam: ‘Legal, percebo que você não é radical, olha os fatos, o mérito da matéria’. Acho que o meu diferencial é ser uma pessoa técnica”, valoriza.

Na Assembleia, onde até mesmo rivais reconhecem aspectos da colega como dedicação e assiduidade, Janaina —que virou líder da bancada do PSL neste ano— elevou o tom inflamado contra a esquerda desde a recuperação dos direitos políticos de Lula.

“Temos uma divergência histórica”, afirma a líder do PT na Casa, deputada Professora Bebel. “Nós, petistas, temos muito claro que a participação dela no impeachment da presidenta Dilma mergulhou o país nesta situação em que está.” Para ela, a opositora faz “a política do ódio”.

Sobre a candidatura ao Senado, Bebel se limita a dizer que “é um direito” de Janaina e que sua aceitação só será conhecida após a apuração. “Não tenho como dizer de antemão se ela tem viabilidade. Temos um país a ser reconstruído, após o desastre promovido por esse governo que ela apoiou.”

Folha  

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