Justiça endurece com quadrilhas do PIX

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Foto: Reprodução

A Justiça de São Paulo começou a aplicar as primeiras condenações para membros das “quadrilhas do Pix”, como são chamados os grupos de criminosos que praticam sequestros e roubos de telefone celular para exigir senhas bancárias e transferir eletrônica e instantaneamente o máximo de dinheiro das contas correntes das vítimas.

Somente na última sexta-feira (17), juízes determinaram quatro condenações de autores desse tipo de delito em varas criminais da capital, no Fórum da Barra Funda, zona oeste de São Paulo. As penas impostas aos réus variaram de dez anos a 46 anos de prisão em regime fechado.

Os ataques às vítimas são tipificados pela Polícia Civil como roubo, extorsão e também como associação criminosa, quando mais de três criminosos agem juntos.

Os pagamentos bancários via Pix foram lançados em outubro do ano passado e o funcionamento teve início no mês seguinte. Diante de uma série de golpes aplicados utilizando o sistema, O Procon-SP (Programa de Proteção e Defesa do Consumidor) pediu ao Banco Central que os valores das movimentações sejam limitados a R$ 500 por mês por medida de segurança. O Banco Central é contra a proposta.

A Secretaria Estadual da Segurança Pública chegou a informar à imprensa que essa modalidade de crime cresceu 39,1% de janeiro a julho deste ano em comparação com igual período do ano anterior. A Pasta não detalhou, entretanto, quantos casos envolveram as quadrilhas do Pix.

Segundo a desembargadora Ivana David Bariero, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, esses crimes viraram uma febre, as quadrilhas estão assolando a sociedade, colocando as vítimas em risco de morte, e os juízes levam tudo isso em consideração, impondo penas rigorosas aos criminosos.

A desembargadora observou que trata-se de um crime seríssimo, no qual os ladrões agem o tempo todo, inclusive em plena luz do dia, abordando, sequestrando e colocando armas na cabeça das vítimas, obrigando-as a abrir o aplicativo e fornecer a senha bancária na hora para transferir dinheiro.

Foi exatamente assim, com extrema violência, que agiram os assaltantes Higor Jesus de Souza, 26, Wallace Clemente Marques Silva, 22, e Rene Jesus dos Santos Muniz de Andrade, 20, na noite de 21 de julho deste ano, na região do Ibirapuera, zona sul paulistana, um dos bairros mais nobres da capital.

O trio fez um arrastão e atacou cinco vítimas: Um fisioterapeuta de 38 anos; um taxista de 37; um motorista de aplicativo de 36; uma comissária de 43 e o namorado dela, um vendedor de 48. Apenas da conta bancária do casal, os ladrões e um quarto comparsa não identificado transferiram R$ 11.200.

Os assaltantes perceberam que no aplicativo do celular da comissária havia o saldo de R$ 1 milhão. Era a conta corrente da mãe dela e o valor alto se referia à venda de um imóvel. O trio de criminosos anunciou que iria mantê-la refém, junto com o namorado dela, até transferir toda a quantia.

O casal teve sorte. A Polícia Militar havia rastreado o telefone móvel de uma das vítimas atacadas e chegou aos criminosos. Eles foram presos na rua Lacônia, altura do número 10, no Campo Belo. Além de transferir dinheiro, os ladrões roubaram alianças, relógios, joias e outros objetos de valor.

Na última sexta-feira, a juíza Vivian Brenner de Oliveira, da 17ª Vara Criminal, condenou Rene e Wallace a 37 anos e 3 meses de prisão pelos crimes de roubos e extorsões. Higor, por estar armado e ser o mais violento, foi condenado a 46 anos e seis meses. Para a magistrada, as vítimas correram risco efetivo de morte.

Também na sexta-feira, a juíza Sirley Claus Prado Tonello, das 27ª Vara Criminal, condenou Jonathan Porfírio da Silva, 21, à pena de 14 anos e seis meses pelos crimes de roubo e extorsão. Em 10 de julho, ele e um comparsa foragido atacaram um casal em um carro no bairro da Mooca, zona leste.

Os criminosos mantiveram as vítimas reféns e chegaram a transferir R$ 1.300 da conta de uma delas. Jonathan foi preso em flagrante por policiais militares. Ele é reincidente, já foi processado por roubo em 2018 e era foragido de um presídio na região de Campinas.

Quem também se deu mal com a Justiça foi Lucas Horácio dos Santos Garcia, 20. Em 28 de julho deste ano, ele e dois parceiros não identificados abordaram um aposentado de 69 anos, no carro dele, no Jabaquara, zona sul. A vítima foi amarrada no veículo e teve quatro cartões roubados.

Os criminosos tinham uma maquininha Pag Bank e causaram um prejuízo de R$ 21.600 às vítimas com transferências via Pix. Lucas foi preso por PMs e na sexta-feira, a juíza Tatiana Franklin Regueira, da 9ª Vara Criminal, condenou o réu a 14 anos e 8 meses.

Outro assaltante, Weslei Maciel Telles, 35, e um comparsa conhecido como Alemão, invadiram uma casa em Ermellino Matarazzo, zona leste, no dia 9 de julho. Foram feitos reféns uma mulher, os dois filhos dela de 5 e 11 anos e um idoso de 71 anos.

Os ladrões ameaçaram matar a mulher e as crianças, caso ela não fornecesse a senha do telefone celular. A dupla não teve tempo de fazer a transferência via Pix. Vizinhos notaram a movimentação estranha e chamaram a Polícia Militar.

Alemão tentou fugir pelo telhado da residência e foi morto no confronto com os PMs. Weslei se entregou e saiu ileso. Na sexta-feira, a juíza Luciana Piovesan, da 27ª vara Criminal da Capital, condenou o criminoso a 10 anos e quatro meses de prisão.

A coluna não conseguiu contato com os advogados dos réus condenados.

As quadrilhas do Pix mataram duas vítimas durante assaltos em São Paulo em menos de um mês. No último dia 15, o gerente comercial Lucas do Valle, 29, neto do narrador Luciano do Valle, teve o telefone celular e o carro roubados e foi baleado na cabeça por um ladrão.

O crime aconteceu às 6h30, no Ipiranga, zona Sul. Depois de atirar em Lucas, o criminoso ligou para o pai da vítima e pediu a senha da conta bancária dele. Lucas morreu na sexta-feira, na véspera de seu aniversário. Um suspeito de envolvimento no crime foi preso.

No dia 20 de agosto, o advogado Rafael de Paula Carneiro Ribeiro, 45, e a namorada passeavam com o cachorro na rua Atibaia, Pacaembu, zona oeste, quando foram abordados por um assaltante. O ladrão exigiu o telefone celular da vítima.

O advogado entregou o aparelho, mas se recusou a fazer transferência via Pix. Rafael chegou a lutar com o criminoso, mas acabou baleado e morreu no local. Câmeras de segurança da rua registraram a ação. O atirador foi identificado e preso.

As disputas por poder e dinheiro dentro da principal organização criminosa do Brasil são narradas na segunda temporada do documentário do “PCC – Primeiro Cartel da Capital”, produzido por MOV, a produtora de documentários do UOL, e o núcleo investigativo do UOL.

Uol

 

 

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