Bolsonaro quer combater “Nordeste vermelho”

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Foto: Sergio Lima/Bloomberg

O cantor Luiz Gonzaga foi uma figura politicamente controversa. Um dos artistas mais populares do país ao longo de seis décadas de carreira, ele emprestou seu prestígio para impulsionar a popularidade de políticos como Getúlio Vargas, JK e Jânio Quadros (para quem gravou um jingle de campanha, cujo slogan era “Depois de JK só serve JQ”).

Em declínio depois da explosão da bossa nova, Gonzagão foi subserviente aos governos militares. No início dos anos 1980, porém, após a reconciliação com o filho Gonzaguinha, realizaram shows Brasil afora pelo fim da ditadura e a anistia política. Aliás, pouca gente se lembra, mas o atentado do Riocentro, ataque terrorista executado por setores do Exército (que teve como um dos acusados pelo seu planejamento o general Newton Cruz, falecido na última sexta-feira), aconteceu numa apresentação de dezenas de artistas da MPB em homenagem justamente a Gonzagão.

Bolsonaro investe contra o domínio da esquerda na região

Apesar da falta de coerência política, o Rei do Baião se manteve fiel ao longo de sua carreira ao povo do Nordeste, cantando também em forrós, xotes e xaxados a riqueza cultural e denunciando as agruras da vida na região.

Vozes da Seca, canção gravada em 1953 numa parceria com Zé Dantas, é uma crítica às medidas assistencialistas adotadas pelos governos brasileiros para amenizar as consequências das crises humanitárias cíclicas vividas pela população nordestina: “Seu doutor, os nordestinos têm muita gratidão pelo auxílio dos sulistas nesta seca do sertão; mas, doutor, uma esmola a um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.

Para Gonzagão, os problemas do Nordeste precisavam ser atacados por medidas estruturais: “Dê serviço a nosso povo, encha os rios e barragens, dê comida a preço bom, não esqueça a açudagem; livre, assim, nós da esmola, que no fim desta estiagem, lhe pagamos até os juros, sem gastar nossa coragem”.

Quando Lula lançou o Bolsa Família, o programa de transferência de renda foi duramente criticado pela oposição a seu governo. O então deputado federal Jair Bolsonaro, em inúmeras ocasiões, se referiu ao benefício social em tom pejorativo (como “esmola” ou “bolsa-farelo”), sempre destacando que seus fins seriam eminentemente eleitoreiros, com menções preconceituosas ao eleitor nordestino.

O fato é que o Bolsa Família era apenas parte de um conjunto de políticas públicas que impactaram diretamente a região, como o Programa Luz para Todos, os incentivos à agricultura familiar (Pronaf), a expansão do atendimento médico com os programas de Saúde da Família e Mais Médicos, a abertura de poços e cisternas, a transposição das águas do Rio São Francisco, entre outras iniciativas criadas ou ampliadas pelas administrações petistas em âmbito federal ou estadual.

Entre 2000 e 2010, o Índice de Desenvolvimento Humano entre os municípios nordestinos saltou de uma média de 0,512 para 0,660. Obviamente a base de comparação era muito baixa, mas o crescimento de 29% observado durante uma década governada quase inteiramente por Lula foi capaz de reduzir o atraso da região em relação à média brasileira de 16,4% para 9,2%.

A gratidão da população nordestina a essas transformações veio na forma de votos. Desde que Lula chegou ao Palácio do Planalto, o PT fidelizou grande parte do eleitor da região. Uma medida da dominância do partido na área: dos 1.777 municípios brasileiros que deram mais de 50% dos votos ainda no primeiro turno aos candidatos petistas à Presidência nas quatro eleições desde 2006 (Lula, Dilma duas vezes e Haddad), nada menos que 1.319 (quase 75%) estão localizados no Nordeste.

Graças a uma vantagem de 12,2 milhões de votos obtidos no Nordeste, Dilma conseguiu derrotar Aécio nas eleições mais disputadas que tivemos em nossa história. E se não fosse a diferença de 7,1 milhões de votos na preferência dos nordestinos por Haddad, Bolsonaro teria vencido o pleito de 2018 com facilidade ainda no primeiro turno.

O Nordeste se tornou o grande bastião da esquerda brasileira. Antes das recentes desincompatibilizações, sete dos nove governadores na região pertenciam à dobradinha PT-PSB que encabeça a chapa de Lula à Presidência – e os dois restantes, Belivaldo Chagas (PSD-SE) e Renan Calheiros Filho (MDB-AL), já declararam apoio ao petista nas eleições de outubro.

As pesquisas eleitorais indicam Lula imbatível na longa faixa do território nacional que vai de Mucuri, no extremo sul da Bahia, a Cândido Mendes, na divisa do Maranhão com o Pará. No último Datafolha Lula bate Bolsonaro de lavada na região: 55% a 20%.

Mas não se iludam que Bolsonaro está conformado com uma derrota avassaladora no Nordeste. Valendo-se das prerrogativas que o exercício do cargo lhe confere, o presidente trata de irrigar a região com dinheiro público de monta. Desde novembro de 2021 Bolsonaro já direcionou R$ 18,3 bilhões aos Estados do Nordeste apenas a título de pagamentos do Auxílio-Brasil – o que representa 47,7% do orçamento do programa que sucedeu, ironia das ironias, o Bolsa Família.

Os municípios do Nordeste também têm sido alvo preferencial do orçamento secreto do governo Bolsonaro. Rastreando com a ajuda de André Shalders as notas de empenho emitidas por meio das famosas emendas de relator (RP9) de 2020 a 2022, constatamos que a região foi agraciada com o maior quinhão dos gastos no período: 39,7% do total, o que significa mais de R$ 8,6 bilhões injetados na economia nordestina graças à ação combinada de Arthur Lira, no Congresso, e Ciro Nogueira, na Casa Civil – dois dos principais artífices da candidatura à reeleição de Bolsonaro.

A ação do governo em seu mais fiel reduto eleitoral preocupa Lula e o PT. Na segunda-feira passada, foi num jantar com lideranças do MDB do Nordeste que Lula buscou apoio para rebater a crítica de que enfrenta dificuldades de formar alianças para além da esquerda nesta corrida eleitoral.

Lula sabe que o Nordeste será o fiel da balança para as suas pretensões de retornar ao Palácio do Planalto. Resta saber como defender seu legado diante do volume crescente de recursos públicos despejado na região por Bolsonaro na reta final da campanha.

Valor Econômico