Governo expõe PF de novo em outro escândalo

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Foto: Paulo Saldaña/Folhapress

Os desdobramentos da operação Acesso Pago arrastaram pela segunda vez em três anos e meio a Polícia Federal para dentro de uma investigação sobre interferência política e expuseram novamente as tensões internas no órgão, alimentadas pelas seguidas crises no governo Jair Bolsonaro (PL).

A investigação que mira a atuação de Milton Ribeiro e dos pastores Gilmar Santos e Arilton Moura na liberação de verbas do MEC seguirá paralelamente à decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de abrir uma apuração sobre a suposta interferência.

Além disso, a própria PF investiga as acusações do delegado Bruno Calandrini, feitas no dia da prisão do ex-ministro, sobre uma suposta interferência indevida no caso.

Entre policiais, a leitura é que uma nova crise interna se instalou a partir da revelação da Folha da mensagem em que o investigador relata a colegas que a investigação foi prejudicada por um suposto tratamento diferenciado dado ao ex-ministro.

Os áudios com as conversas em que o ex-ministro sugere ter sido avisado por Bolsonaro de um “pressentimento” de buscas a serem efetuadas, na visão de delegados, reforçam o mal-estar interno ao levantar desconfiança de ter havido vazamento por meio da direção do órgão.

Como agravante, a crise tem início nas vésperas do período eleitoral.

Nos dois casos —a denúncia de Calandrini e o conteúdo dos áudios— é a direção do órgão que fica exposta.

O atual diretor-geral, Márcio Nunes, é o quarto no comando do órgão desde o primeiro ano do governo Bolsonaro.

Amigo e ex-secretário executivo de Anderson Torres no Ministério da Justiça, o delegado federal poderá ter sua gestão como alvo no inquérito de interferência política.

Tão logo foi procurada pela reportagem para se manifestar sobre a publicação da mensagem de Calandrini, a direção da PF tentou se antecipar a anunciou a abertura de inquérito para a apurar a suspeita de interferência.

Na prática, a abertura é uma tentativa da mostrar que o delegado não tem provas do que disse.

Integrantes da direção têm dito que a falta de planejamento da operação resultou na impossibilidade de viabilizar um voo para translado de Ribeiro para Brasília no dia da prisão.

Mesmo entre colegas de fora da direção, Calandrini tem sido criticado pela mensagem. O argumento é que ele não deveria ter enviado as acusações em um grupo, diante do risco de vazamento, mas sim relatar suas suspeitas ao Ministério Público.

Delegados ponderam que, embora Calandrini possa ter errado na forma, o caso expõe o clima de desconfiança interna após várias trocas de comando.

Após o juiz Renato Borelli, da 15ª Vara Federal de Brasília, enviar o caso para o STF decidir se abre uma investigação sobre interferência no vazamento da operação, o delegado Calandrini reforçou as suspeitas de vazamento.

Em ofício encaminhado à Justiça, ele elenca todos os áudios provenientes das interceptações telefônicas em que haveria elementos sobre o vazamento das diligências a serem cumpridas.

Em negrito, o delegado avisa ao juiz do caso que no período entre 23 de maio e 13 de junho a polícia estava fazendo a confirmação de endereço nas residências de Ribeiro e dos outros alvos da operação.

Entre esses dias, em 9 de junho, Ribeiro diz ter recebido a ligação de Bolsonaro para avisá-lo do “pressentimento” de uma ação de buscas.

Na mesma data, o ministro da Justiça, Anderson Torres, estava com o presidente nos Estados Unidos, onde participavam da Cúpula das Américas.

Tanto as suspeitas levantadas pelo delegado como a do suposto vazamento serão apuradas no inquérito aberto pela direção da PF e na possível apuração do STF, que aguarda decisão da ministra Cármen Lúcia para ser instaurada.

Caso a gestão de Márcio Nunes seja investigada em um caso de interferência de Bolsonaro, ele será o segundo diretor-geral do atual governo nessa situação.

Indicado por Sergio Moro, Maurício Valeixo foi o primeiro. Fatos ocorridos em sua gestão, encerrada com a demissão de Moro, foram alvos do inquérito da interferência relatado por Alexandre de Moraes, do STF.

Moro deixou o governo acusando Bolsonaro de tentar interferir politicamente na PF em benefício pessoal. Em reunião ministerial de abril de 2020, que foi tornada pública posteriormente por ordem do STF, Bolsonaro fala claramente em interferência para evitar que amigos e familiares sejam atingidos.

“Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar f. minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança da ponta de linha que pertence à estrutura. Vai trocar; se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira”, disse o presidente, na ocasião.

Dois depois dessa reunião, Bolsonaro, de fato, exonerou Valeixo, o que resultou na saída de Moro do governo. A primeira medida do novo comando da corporação foi substituir o superintendente do Rio de Janeiro.

Bolsonaro tentou emplacar no comando da PF o delegado Alexandre Ramagem, que chefiou sua segurança durante a campanha presidencial de 2018 e se tornou amigo da família. O ministro do STF Alexandre de Moraes, porém, suspendeu a nomeação sob o argumento, entre outros, que o próprio Bolsonaro havia afirmado que pretendia usar a PF, um órgão de investigação, como produtor de informações para suas tomadas de decisões.

Em seu lugar, entrou Rolando de Souza, que ficou 11 meses no cargo, sendo substituído por Paulo Maiurino.

Antecessor de Nunes, Maiurino ficou dez meses no comando. Em agosto de 2021, o delegado do caso da interferência chegou a incluir no inquérito mudanças de cargos de chefia feitas por Maiurino. A investigação não andou porque o ministro Alexandre de Moraes cancelou a iniciativa e tirou o investigador do caso, que tempos depois foi arquivado.

Além de polêmicas externas, como quando divulgou em fevereiro deste ano uma nota em nome da PF para rebater o então pré-candidato Sergio Moro, Maiurino também abasteceu crises internas.

Em maio de 2021, por exemplo, foi criticado após sugerir em memorial enviado ao STF a retirada da autonomia dos delegados em casos de pessoas com foro especial.

Folha