17 milhões de eleitores não se decidiram

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Foto: Mateus Bonomi/Anadolu Agency/Getty Images

É mais do que sabido que nenhuma eleição é igual a outra, mas nunca, desde o fim da ditadura e a volta das votações livres para presidente, em 1989, um pleito se anuncia tão cheio de particularidades quanto este segundo turno que se aproxima. A mais acirrada corrida já vista ao Palácio do Planalto põe frente a frente dois ímãs de polos opostos, Lula, do PT, e Jair Bolsonaro, do PL, ambos líderes populistas, capazes de mover paixões e multidões. No primeiro turno, eles dividiram o eleitorado em praticamente duas grandes fatias — no fim da apuração, a diferença foi de 5,2 pontos a favor do petista. Antes dela, a votação mais apertada na etapa inicial havia sido a que contrapôs Dilma Rousseff e Aécio Neves em 2014, quando o placar foi de 8 pontos (na segunda rodada caiu a cerca de 3 pontos, pouco mais de 3 milhões de votos a favor de Dilma).

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Na fase final da disputa neste ano, o quadro das preferências em um ou outro candidato tem permanecido quase estático (com leve recuperação de Bolsonaro) até por outra característica única dessa renhida batalha: a imensa maioria dos eleitores declara já haver feito sua escolha definitiva. Sobra para os dois finalistas, portanto, se digladiar pela simpatia de um punhado de brasileiros congregados na definição de “eleitores voláteis”, que hesitam em cravar uma opção. É nesse celeiro, relativamente reduzido, que Bolsonaro tem que cooptar os votos de que necessita para ganhar e que Lula precisa fazer o possível para isso não acontecer. O jogo é tenso: no primeiro turno, 10% dos eleitores decidiram entre a véspera e o dia da eleição.

O universo dos “voláteis” inclui os indecisos, ou seja, aqueles que não têm uma preferência, e os não convictos, que votaram em um candidato no primeiro turno, mas podem mudar no segundo. O mais recente levantamento da Quaest contabiliza 11% dos entrevistados nessa situação, sendo 5% indecisos e 6% não convictos. Juntos, eles totalizam 17,2 milhões de eleitores estratégicos para as duas campanhas — a se manter a diferença do primeiro turno, Bolsonaro precisa conquistar 6,2 milhões deles, ou um a cada três, enquanto Lula se esforça para mais gente apertar 13 no dia 30.

Um perfil desses fiéis da balança, feito a pedido de VEJA pela Quaest, revela semelhanças entre os que não bateram o martelo. Trata-se de um público primordialmente feminino e pouco engajado politicamente. Concentra-se sobretudo na Região Sudeste, onde estão os três maiores colégios eleitorais do país (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), e tem renda familiar entre dois e cinco salários mínimos. Não costuma pautar suas decisões no discurso ideológico, que dá a tônica de boa parte das duas campanhas, e sim em questões práticas da vida cotidiana. A divergência que mais se ressalta entre eles é a presença maciça de evangélicos entre os não convictos — o que explica a batalha religiosa dos últimos dias e sugere uma vantagem para Bolsonaro. “Nenhuma campanha que pretenda sair vitoriosa pode desprezar esse eleitorado. Aliás, tem, isto sim, de mirar nele”, explica Felipe Nunes, cientista político e CEO da Quaest.

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No rol das preocupações do clube dos voláteis, o bolso ganha disparado, mais do que na média da população em geral, onde a vulnerabilidade econômica também bate forte. Postos diante da pergunta sobre o que mais os preocupa, a economia aparece em primeiro lugar, seguida de fome, miséria e desemprego (veja o quadro). Esses brasileiros acham que a vida piorou no último ano e não demonstram, como em outras fatias de eleitores, grande otimismo com os indicadores mais positivos nos meses recentes. “Fico muito receosa. Tudo aumenta e o salário não acompanha. Na minha idade também é complicado darem uma oportunidade de trabalho”, diz Maria Luiza Vitale, 55 anos, que votou em Simone Tebet (MDB) no primeiro turno e agora não sabe para onde vai virar — a típica integrante da coluna dos indecisos nas pesquisas, que é formada em sua maioria por mulheres acima dos 45 anos (leia depoimentos ao longo desta reportagem). “Pode não dar tempo de a melhora dos dados econômicos ser percebida por esse público, que, por outro lado, pelo menos em parte, carrega na memória um período, nos anos de Lula, em que a vida de fato ficou mais fácil”, diz Oswaldo Amaral, diretor do Centro de Estudos de Opinião Pública da Unicamp.

Os dois lados da trincheira perceberam que, na busca frenética pelo eleitor que ainda não cravou seu voto, a tática de dar pauladas com temas como “corrupção” (para ativar o antipetismo) e “má gestão da pandemia” (para atingir o presidente) demonstra sinais de cansaço. “Voto volátil se define por novidade. Esses assuntos estão na pauta há muito tempo”, avalia Sérgio Praça, professor da FGV. A percepção de que é preciso criar fatos novos é um dos motivos que impulsionam as acusações de baixo nível de ambas as campanhas nas últimas semanas, como a que levanta a suspeita de pedofilia no infeliz “Pintou um clima” pronunciado pelo presidente em relação a adolescentes venezuelanas (veja reportagem na pág. 40). “Estou pensando em votar no Bolsonaro, mas fico dividida com algumas falas impróprias dele”, diz Rozelir Nascimento, 67 anos, moradora de Deodoro, na Zona Oeste do Rio, que optou por Lula no primeiro turno, mas balança ante o clima antipetista na igreja evangélica que frequenta com as filhas.

Neste ponto do confronto, garantir a ampla superioridade do presidente nesse crucial segmento religioso — onde a pauta dos costumes move montanhas — virou prioridade. No QG de Lula, igualmente, a necessidade de fidelizar os mais pobres que votam em peso nele, saudosos do governo petista, se faz vastamente presente. Mas o fogo cruzado também tem frequentemente o objetivo de abocanhar nacos do eleitorado do adversário, do jeito que for preciso. “Nunca em uma eleição presidencial um candidato invadiu tanto a agenda do outro. É uma situação muito diferente dos tempos em que a contenda ficava entre PT e PSDB, cada qual falando para seus nichos”, afirma Nunes, da Quaest.

Esta era justamente a intenção de Lula ao mirar sua pontaria, na quarta-­feira 19, na direção do valioso quinhão evangélico, onde entende haver espaço para crescer. Ele lançou uma muito alardeada Carta aos Evangélicos — um passo para tentar estreitar a vantagem de 25 pontos registrada por Bolsonaro nessa fatia — em que se compromete com pontos inegociáveis para esse público, como a proibição do aborto e a garantia de não fechar templos, um temor sem eco na realidade disseminado por pastores. Como o presidente precisa avançar, mas não pode perder terreno onde fincou bandeira, sua campanha montou uma agenda que une a primeira-dama Michelle Bolsonaro e a senadora eleita Damares Alves em um périplo por igrejas. Também faz parte da estratégia de ciscar no território alheio o pacote de bondades despejado pelo governo Bolsonaro nesse intervalo entre os turnos, com pagamento antecipado de benefícios e ampliação de recursos para a casa própria entre os que ganham menos.

Se errarem no tom de sua oratória, porém, tanto Lula quanto Bolsonaro correm o risco de empurrar os “voláteis” para outro terreno minado a esta altura: o da abstenção, que no primeiro turno alcançou quase 21%, o mais alto patamar desde a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1998. Insistir no comparecimento às urnas é muito comum, por exemplo, nos países em que o voto não é obrigatório e campanhas de engajamento são vitais. Agora, o tema ganhou os comícios e propagandas do Partido Democrata dos EUA, onde uma votação para congressistas e governadores se avizinha. No Brasil, apesar da obrigatoriedade, os candidatos lançam iniciativas para estimular o voto em seus feudos, dado que os faltosos tradicionalmente crescem na segunda etapa, sobretudo onde a eleição para governador já foi decidida — caso de catorze estados e do Distrito Federal. “A possível queda no comparecimento reflete, antes de tudo, o desgosto do eleitor com as opções oferecidas”, analisa Maria Victoria Murillo, diretora de estudos da América Latina da Universidade Columbia.

A situação preocupa acima de tudo o PT, já que o eleitor de baixa renda é quem tem mais dificuldade de se locomover. Por isso mesmo, são frequentes nas falas de Lula os apelos em prol da mobilização petista — segundo algumas estatísticas, se a abstenção chegar a 24%, Bolsonaro tem boas chances de se eleger. Uma vitória para o campo petista saiu na quarta-feira 19, com a autorização dada aos municípios pelo STF de liberar a catraca do transporte público no dia da votação, deixando a decisão final nas mãos dos 5 570 prefeitos do país. No lado bolsonarista, por sua vez, a apreensão é com dois feriados prolongados, em 28 de outubro e 2 de novembro, com potencial de elevar as chances de que a parcela de renda mais alta, que tende à direita, prefira viajar a votar. Daí os insistentes pedidos nas redes para que esses eleitores não aumentem os níveis de abstenção, que podem subir também em razão das intermináveis filas observadas na porta das seções no primeiro turno.

Entre todos os fatores que podem influenciar a escolha dos “voláteis”, enfim, só um tem data marcada: o debate na TV Globo, no dia 28, na sexta-­feira anterior ao voto. O primeiro, na Band, não chegou a mudar de forma relevante a cabeça dos indecisos. Segundo um levantamento do instituto de pesquisas Atlas Intel, os grupos monitorados acharam que Bolsonaro “não tem propostas” e que Lula “se rende muito ao passado”. As campanhas sinalizam que, no próximo embate, haverá temperatura elevada e chumbo grosso, sempre com o objetivo de influir no julgamento de quem ainda não sabe em quem vai votar. “Os eleitores que não definiram sua escolha têm um enorme poder em suas mãos. Resta saber como vão usá-lo”, afirma José Álvaro Moisés, professor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP). O que expõe a mais gritante particularidade deste pleito: a decisão, de fato, dependerá de quem reluta em decidir.

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