Governador eleito do Rio compara facções a nazistas

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O governador eleito do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), desembarcou na noite de terça-feira (4) em Israel para uma “viagem técnica, mas também religiosa”, segundo suas palavras.

Assim que chegou a Jerusalém, foi direto ao Muro das Lamentações para “agradecer ao meu Deus pela permissão que está me dando de ser líder de um povo”.

Após uma visita ao Museu do Holocausto, onde recebeu um documento mostrando que uma mulher com seu sobrenome morreu no campo de concentração de Auschwitz, Witzel comparou, em entrevista à Folha, as facções criminosas do Rio aos nazistas.

“Há uma proximidade dessas facções criminosas com uma ideologia, essa sim, nazista e fascista”, afirmou.

O governador eleito do Rio terá, entre outros compromissos até segunda (10), reunião com empresas de tecnologia israelenses como Elbit e Israel Aerospace Industries, conhecidas por fabricarem drones para uso civil e militar.

Witzel disse que espera adquirir cerca de 50 drones, mas, num discurso mais moderado do que durante a campanha eleitoral, disse que eles devem ser usados só para monitorar bandidos do alto, evitando confrontos, e não “para disparar na cabeça de ninguém” —até porque os equipamentos que fazem disparos ainda não são vendidos.

Ele manteve, porém, a afirmação de que bandidos, se estiverem com fuzil, precisam ser abatidos —orientação que poderá ter entraves legais, segundo especialistas.

O futuro governador do Rio também afirmou que vai pedir a prorrogação da presença militar no Rio por mais seis meses para ter tempo de reestruturar a Polícia Civil.

A intervenção federal na segurança, iniciada em fevereiro deste ano, acaba em 31 de dezembro e não será prorrogada, como já disse Jair Bolsonaro (PSL), presidente eleito.

Witzel quer, porém, a prorrogação da chamada GLO (Garantia da Lei e da Ordem), decretada em 2017 e que dá poder de polícia às Forças Armadas —mas, diferentemente da intervenção, sob comando do próprio governo estadual.

Para ele, a intervenção foi implementada sem preparação anterior, dificultando a atividade investigativa.
Em relação ao inquérito do assassinato da vereadora Marielle Franco(PSOL), Witzel afirmou que seu dever, como governador, será o de “não atrapalhar” as investigações, mas que não poderá “obrigar nenhum promotor ou juiz a fazer qualquer tipo de coisa”.

Witzel está acompanhado em Israel por comitiva formada por integrantes da equipe de transição, do PSC (Partido Social Cristão) e da Fierj (Federação Israelita do Rio de Janeiro). A assessoria do governador eleito diz que cada integrante da comitiva custeia suas próprias despesas.

É uma viagem técnica, mas também religiosa. Vim aqui agradecer ao meu Deus pela permissão que está me dando de ser líder de um povo. E acabei de descobrir que eu tive um parente de sobrenome Witzel que morreu em Auschwitz [campo de extermínio nazista]. Me emocionei muito.

A gente olha para os morros do Rio de Janeiro e vê que o que o crime organizado está fazendo com a população é algo cruel. Eles estupram, obrigam crianças a trabalhar e estuprar. Fiquei pensando nos pontos de contato [com o Holocausto]. O crime organizado, hoje, o PCC, o Comando Vermelho, estão muito próximos de uma ideologia nazista.

A ideologia deles é que a droga é um produto que tem que ser protegido. E eles acabam cooptando jovens, estuprando mulheres, meninas. E estão fazendo a sociedade de refém. Precisamos, de certa forma, libertar esse povo. Há uma proximidade dessas facções criminosas com uma ideologia, essa sim, nazista e fascista.

O comandante do Bope [tropa de elite da PM] disse que algo em torno de 50 drones seriam razoáveis para fazer um bom trabalho de monitoramento e preparação de ações contra o crime organizado no Rio. O sistema, como um todo, deve custar, por ano, algo em torno de R$ 200 milhões.

Mas os drones são só uma parte do sistema vigilância eletrônica que precisamos ter em nosso estado. Queremos criar uma grande rede de monitoramento e os drones entram como mais um instrumento de vigilância, para monitorar. A proposta inicial é colocar 30 mil câmeras, mas temos comunidades nas quais há uma certa dificuldade para colocar essas câmeras.

Drones que fazem disparo não estão ainda disponíveis para comercialização. Mas eu nunca disse que eu vinha aqui para disparar na cabeça de ninguém. Isso eu nunca falei. O que eu disse é que eu vinha aqui para adquirir conhecimentos a respeito do sistema de monitoramento.

O que nós queremos é saber aonde se movimenta o crime organizado para que possamos emitir mandados de busca e apreensão direcionados e prender essas pessoas sem ter necessidade do confronto. Nosso objetivo é evitar o confronto.

Mas, eventualmente, se houver confronto, temos que estar preparados para neutralizar de imediato. Nós não podemos permitir que tenhamos bandidos de fuzil atirando a esmo contra a população. Eles precisam ser abatidos, se estiverem com fuzil.

Vamos pedir um adiamento da GLO por seis meses para podermos terminar de fazer a transição da intervenção, que foi uma medida muito profunda na segurança pública do Rio. Mas se isso não for possível, estamos preparando um plano B.

Vamos ampliar o “Segurança Presente” para Tijuca, Leblon, Ipanema e até para a Baixada Fluminense. E oferecer para os policiais que estão na reserva para que possam se somar. Também estamos convocando novos policiais, que foram aprovados em concurso, para que façam curso de formação.

A intervenção no Rio foi importante. Mas ela não foi objeto de uma preparação anterior. As Forças Armadas conseguem realizar muito bem o trabalho ostensivo, mas na atividade investigativa, há alguma dificuldade de poder avançar como nós avançamos em relação à Lava Jato.

Isso exige um outro tipo de preparação e outro tipo de organização. Isso é o que vamos fazer a partir do ano que vem, com a reestruturação da Polícia Civil do Estado do Rio.

A Polícia Militar, satisfatoriamente, deixou seu legado e agora nós vamos reestruturar a polícia, criando um departamento novo: o de Combate à Lavagem de Dinheiro ao Crime Organizado.

A investigação da polícia tem que ser realizada com toda a celeridade possível, mas ela depende de um rito processual para que não se tenha nenhum tipo de invalidade das provas colhidas. E, além disso, o Ministério Público tem independência. Eu não posso obrigar nenhum promotor ou juiz a fazer qualquer tipo de coisa. Eles têm independência funcional.

Então, o nosso trabalho, enquanto governador do Estado do Rio de Janeiro, é dar todos os instrumentos para que essas investigações aconteçam e não atrapalhar. A processualística para que isso aconteça tem que ser respeitada. O meu papel é não atrapalhar.

Desde o começo da campanha, defendi a impossibilidade de privatização da Cedae. É um equívoco imaginar que uma empresa superavitária, que tem alguns ajustes a serem feitos, mas mais de R$ 5 bilhões em créditos a receber, possa simplesmente ser vendida e prejudicar, inclusive, a capacidade de auferir receita para pagar dívidas do próprio estado. Há em torno de R$ 20 bilhões de juros que não foram pagos e poderão ser imediatamente cobrados.

É evidente que ninguém, em sã consciência, vai cobrar tudo isso de uma vez, porque isso levaria a um completo caos financeiro do estado. Já solicitei ao meu partido a confecção de uma ação direta de inconstitucionalidade para que a gente possa fazer a correta interpretação da lei.

Me sinto totalmente preparado para tomar decisões. Tenho profundo conhecimento do sistema jurídico, de como funciona a máquina administrativa e fizemos a escolha de uma equipe muito técnica e capacitada. Temos todas as ferramentas, toda a estrutura, para que o Rio, a partir de agora, tenha um avanço econômico, social. Um avanço de humanidade, para que as pessoas se sintam mais pertencentes a um estado que elas têm orgulho de viver.

O Rio vem sendo administrado por pessoas que estavam na política pela política. Não é o meu caso. Estou aqui porque sou um cidadão indignado que quer o melhor para o meu estado. Se eu deixar de ser governador daqui a quatro anos, eu certamente vou ter um excelente emprego no qual vou ganhar dez vezes mais. Estou me doando.

O Brasil tem vários problemas. Não só o Rio de Janeiro, mas outros governadores vão estar de pires na mão, depois da posse. Então, a gente não pode esperar que o presidente da República privilegie um estado em detrimento do outro. O que nós queremos é um tratamento ético e igual.

Da FSP