Por que não temos avançado na investigação dos crimes da ditadura?

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Foto: Acervo da família

O Brasil vive tempos de manipulação dos medos e da ignorância de grande parte da população em relação à própria história e à ditadura. Aliás, sempre houve manipulação na mídia e na política, além de censura, sobre o que aconteceu nos porões da repressão entre 1964 e 1985. Contudo, o jornalismo, queiram o não, foi, é e será o espaço crítico do presente e do passado. É o jornalismo que continua a indagar de que maneira a história tem sido contada aos brasileiros.

Atualmente, vemos com mais amplitude a presença de uma força que usa a internet, fatos e imagens, manipulados ou não, para apresentar uma narrativa revista do passado. Principalmente sobre os anos em que o Brasil foi governado por uma ditadura civil-militar. Esse revisionismo histórico mantém a mão pesada sobre temas que foram abafados pela censura, pela opressão.

O jornalismo investigativo, em sua mais pura concepção, é capaz de ouvir todas as vozes, consegue ultrapassar essa barreira que começa a ser erguida. É preciso confrontar as fragilidades de noções criadas para a verdade, a realidade, o preconceito, a cidadania e a autenticidade que foram jogadas no lixo por meio de campanhas que mobilizam as redes sociais e inundam telefones e computadores com histórias irreais e fake news, manipulando o inconsciente coletivo da sociedade.

Nada mais propício que, neste momento de mentiras escritas e imagens editadas que são infiltradas em mentes e lares, distorcendo a realidade, tentando apagar a história e “invisibilizar” personagens de carne e osso, que seja colocado em prática o que chamo de “jornalismo de reconstrução”.

Não se trata de disputar espaço para impor significados e poderes. Nem balela. Mas de escrever a história em todos seus tons, com todos seus personagens, ouvir as vozes apagadas e esquecidas, mostrar uma reescrita da história de forma ética, sem o apagamento dos sujeitos, sem manipulação dos fatos, do medo e do ódio às diferenças e à educação. É preciso quebrar a bolha social da desinformação, travestida de informação real.

Surge agora denúncia da existência de sequestros e apropriação de bebês e crianças filhos de militantes de esquerda ou de pessoas contrárias ao regime ditatorial por agente das forças militares no Brasil nas décadas de 1960 e 1970, similar aos cerca de 500 casos registrados na ditadura argentina. Aqui são histórias reveladas 34 anos depois de a ditadura civil-militar ter terminado formalmente. São segredos dentro do segredo, fatos que ficaram escondidos da população e dos livros.

A revelação desse segredo da ditadura brasileira é fruto de ampla reportagem investigativa. Dos 19 casos levantados até agora, 11 estão relacionados à Guerrilha do Araguaia; são filhos de militantes do PCdoB e de lavradores. Há ainda 5 casos em Mato Grosso, 1 no Rio de Janeiro, 1 no Paraná e 1 em Pernambuco.

Essas 19 descobertas negam a versão histórica de que, no Brasil, a ditadura não foi tão cruel como nos demais países da América Latina. Comprovam que o jornalismo investigativo é um método de pesquisa eficiente, utilizado para elucidar fatos pro­positadamente imersos na escuridão do autoritarismo. A verdade dá voz aos esquecidos, àqueles tornados invisíveis pela opressão, censura e manipulação dos fatos. Trilha o caminho comprometido com os direitos humanos, a justiça social e a democracia.

A ditadura no Brasil, com os sequestros de bebês e crianças, tirou de cidadãos o direito de conhecer sua própria história. Como no caso de Giovani, filho de Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão, que foi levado por forças militares no Araguaia. Ou então Rosângela, entregue a família no Rio de Janeiro, cujo pai “adotivo” era motorista de um dos presidentes-generais.

É preciso saber por que no Brasil não temos avançado tanto na investigação dos crimes cometidos por agentes do Estado.

Da FSP