PM dispara bala de borracha à queima-roupa no rosto de mulher

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Foto: Zanone Fraissat/Folhapress/

Fazia calor aquela noite e Rosimeire Santos da Silva, 34, saiu para fumar um cigarro na área livre do conjunto de prédios onde mora, em Sapopemba, na zona leste da capital paulista. Minutos depois, ela cairia no chão com o impacto da bala de borracha disparada à queima-roupa por um policial militar na direção do seu rosto.

Pouco antes, Rosi conta ter visto ao menos sete agentes entrarem no condomínio com um rapaz algemado. Levaram ele até um matagal, na parte de trás do bloco e iniciaram uma sessão de espancamento, que ela seguiu assistindo, pela vidraça da porta. Os policiais estavam sem a identificação na farda.

“Eles batiam, xingavam. Aí a gente ouviu três tiros de arma de fogo, o rapaz correu, e eu mandei os meninos pequenos se esconderem e pedi para o policial não atirar mais”, diz Rosi. No local, vivem cerca de 950 crianças e algumas brincavam por ali.

Já do lado de fora do condomínio e com o rapaz dentro de uma das viaturas, ao menos dois agentes dispararam balas de borracha seguidas vezes contra os vizinhos, a cerca de dois metros de distância. Três delas em direção à Rosi. Uma foi a que ficou alojada na sua bochecha esquerda e arrancou os dentes de trás da boca.

A recomendação dos fabricantes de munições do tipo são, em geral, de que a distância para o disparo deve ser entre 10 e 15 metros, sempre visando a cintura para baixo.

Um vídeo mostra a cena, no dia 4 de agosto, por volta de 23h30.

Outra mulher foi atingida pelos disparos de bala de borracha —esta, na cintura. Ela estava com um bebê no colo.

O rapaz levado pela polícia ao local, que moradores dizem não conhecer, foi preso em flagrante por tráfico de drogas.

Rosi passou por dois hospitais, o Sapopemba e o Penteado, na zona norte, onde fez a cirurgia para retirada do projétil e ficou uma semana internada. “Os médicos me falaram que um disparo tão próximo é letal. Diziam ‘a senhora tem sorte de estar viva’”, relembra.

Ela conta que, enquanto estava sendo socorrida, os mesmos PMs foram até sua maca fazer perguntas e um deles chegou a tirar uma foto sua.

Rosi é baiana e tem quatro filhos, o mais novo de 8 anos e o mais velho acaba de completar a maioridade. A família vive com R$ 1.200 do salário do marido e pai, que trabalha numa fábrica de laticínios. A ex-vendedora de fogazza, hoje desempregada, se pergunta: “Quem vai me dar um emprego assim?”

O conjunto Atibaia, onde vivem, é uma ocupação. Os prédios verde e laranja pertencem à Caixa Econômica Federal e eram destinados ao Minha Casa Minha Vida, mas a obra nunca foi totalmente finalizada.

Desde 2013, o local é ocupado por cerca de 300 famílias sem moradia e dependentes de outro programa assistencial, o Bolsa Família. Os moradores dizem que não há cobrança de aluguel e que já passaram por cinco reintegrações de posse.

No ano passado, eles foram cadastrados para receber um auxílio moradia, que até hoje não saiu. A associação dos moradores pede que sejam dadas condições para que as famílias que vivem atualmente no local possam comprar as unidades —no entanto, os imóveis já foram negociados pelo programa de arrendamento residencial.

A rotina por lá mudou. Foi colocado um portão e às 21h há um espontâneo toque de recolher. “Todo mundo entra. Estamos com medo, né? Agora quando as crianças veem a polícia, elas correm, choram. Estão traumatizadas”, diz Rosi, que também corre para se esconder no banheiro do apartamento.

Ela evita sair na rua e abandonou o acompanhamento psicológico iniciado após o episódio. “Não gosto de lembrar, nem de sair de casa. Então parei de ir.” Seus filhos também deixaram de frequentar a escola por medo de retaliação.

Vaidosa, Rosi desenhava a sobrancelha e fazia questão do batom vermelho. Cuidar da unha e do cabelo era compromisso semanal. Isso mudou desde o tiro.

“Não me cuido mais, não me olho no espelho e evito ficar sem o curativo que esconde o buraco que ficou. Quando tirei, me falaram: ‘po, zoaram tua cara, né?’”.

Ela agora precisa de uma cirurgia estética, que não faz parte do rol de procedimentos do SUS. “Não posso arcar. Vou fazer o quê? Vou ficar assim, sorrindo torto e sem sentir parte do rosto.”

Rosi registrou a denúncia na corregedoria e na ouvidoria da polícia e é acompanhada por defensores da Rede de Proteção e Resistência Contra o genocídio. “Eu tô precisando gritar. Muitos se calam e por isso eles continuam com esses abusos. Se eu tivesse morrido, meus filhos iam ficar com quem?”

O caso é simbólico, diz à Folha a advogada Marisa Feffermann, membro da rede. “Desnuda as várias formas de genocídio: a falta de moradia, saúde, transporte, educação pública e ainda o racismo, o preconceito e, principalmente, a violência institucional da política de segurança pública do estado”, afirmou.

OUTRO LADO​

A Secretaria da Segurança Pública, sob gestão de João Doria (PSDB), afirma que foi instaurado um inquérito policial militar para apurar as circunstâncias dos fatos e que os agentes envolvidos na ocorrência foram afastados preventivamente do serviço operacional e remanejados para atividades administrativas até a conclusão da investigação.

Eles fazem parte da força tática do 19º Batalhão de Polícia Militar.

“A SSP não compactua com desvios de conduta de seus policiais e apura com rigor todas as suspeitas, por meio das corregedorias das instituições”, afirmou a pasta.

Perguntada sobre as denúncias de agentes sem identificação na farda, a Polícia Militar respondeu que “se, eventualmente, algum policial estava sem a identificação, a PM solicita que sejam encaminhadas denúncias ou imagens para que sejam adotadas as providências administrativas pertinentes”.

Em relação à distância dos disparos, a corporação afirmou que “será objeto de apuração”.

Da FSP