Cristiano Mariz/VEJA

WhatsApp é campo de guerra entre Bolsonaro e Bivar

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A guerra entre os membros do PSL atingiu o seu pior nível nesta semana. A confusão parecia ter começado para valer quando a Polícia Federal bateu à porta do responsável pelo partido, Luciano Bivar, mas degringolou de vez com a briga pela liderança da segunda maior legenda da Câmara. A disputa pelo controle do PSL acabou virando uma espécie de lucha libre. De um lado, os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, que querem ficar longe das encrencas do PSL e próximo do poder do Palácio do Planalto. Do outro, os que mantém a fidelidade ao comandante do partido — que tem à sua disposição um caixa recheado de dinheiro para as próximas eleições. O climão entre os parlamentares vem se arrastando há alguns meses, com acusações de traição, xingamentos e ameaças, conforme revelam mensagens trocadas nos grupos do WhatsApp do partido e obtidas por VEJA.

Pivô do rebuliço, o presidente do partido, Luciano Bivar, escreveu recentemente para os seus colegas: “Para que vcs tomem conhecimento, no sábado passado no restaurante bar Mamulengo em Recife fui agredido moralmente por um enorme grupo no bar e hoje começo a refletir até onde teremos respaldo para caminharmos (sic)”. Três minutos depois, o deputado gaúcho Bibo Nunes disse: “Para que vocês tomem conhecimento, por onde passo no RS, sou aplaudido pelos meus discursos e posicionamentos a favor do governo Bolsonaro e de uma política limpa (sic)”. Na sequência, o paraibano Julian Lemos rebateu: “Bibo, nunca vi tamanha presunção amigo para não dizer outra coisa, nunca vi tamanha fala infeliz, dado devido valor ao amigo e ao seu mandato, perceba exatamente seu tamanho nesse processo (…) vejo que lhe falta bom senso sobretudo no falar, resolva amigo, se o PSL não lhe serve resolva (sic)”.

O entrevero entre Bivar e Nunes começou em agosto passado, quando o presidente do PSL resolveu apoiar um adversário do deputado gaúcho para o comando do diretório do partido no Rio Grande do Sul. “Tive uma reunião com Bivar e ele me ofereceu 1,5 milhão de reais de sua própria emenda para me comprar”, conta Nunes. “A intenção do Bivar era me corromper para abrir mão do diretório. Isso não é correto. É uma vergonha”, afirma. Após rachar com o presidente do partido, o deputado gaúcho passou a criticar os rumos do PSL no grupo de WhatsApp. Indignado, Bivar mandou uma mensagem sucinta para Nunes: “Vai tomar no c…”. O parlamentar entrou com uma representação contra Bivar no conselho de ética do partido. “Onde já se viu um presidente do partido falar assim?”, questiona Nunes. Após tantas confusões, Nunes foi expulso do grupo de WhatsApp “Bancada PSL 2019” e retirado de algumas comissões.

As mensagens trocadas entre os integrantes do PSL mostram não só um tiroteio interno mas também ataques a outros adversários. A deputada Dayane Pimentel, por exemplo, chegou a convocar uma reação ao seu colega Kim Kataguiri, do DEM. “Pessoal, o Kim do MBL está todo petulante no Twitter, ofendendo Eduardo e nosso Presidente. Vamos subir a #EstouComEduardoBolsonaro”. Ignorada, a parlamentar encabeçou sozinha essa campanha nas redes sociais.

Em outro momento, Julian Lemos ficou irritado com as críticas do partido Novo. “O ‘PYSOL’ da ‘Dyreyta’ nunca vi tão populistas e gostarem de holofotes, eles tem uma tara em nos atacar, o sonho deles era ter ao menos 20 ou 30 deputados, aí iriam ver o que era briga, a vaidade aí é nível hard (sic)”, escreveu o deputado. “Eles adoram quando sai notícias sobre brigas, eles se alimentam disso, é uma pena, porque vemos por exemplo o PP, DEM e PR juntando forças para dividir depois (sic)”, completou. As críticas à direita foram endossadas por outro integrante do grupo: “O Lulismo cego da esquerda q tanto atacamos está se repetindo numa direita q ao certo nem sabemos quem são. Vejo um monte de gente da ‘pseuda’ direita se atacar e espantar uns aos outros sem critério algum (sic)”.

Na última quarta-feira, 15, um deputado compartilhou no grupo de WhatsApp “Liderança PSL – Plenário” uma notícia com a lista dos parlamentares considerados traidores por Bolsonaro, dentre os quais estava o paraibano Julian Lemos, que respondeu: “Se Jair Bolsonar me disser que o trai terá que dizer em que, porque até hoje só o servi, não tenho o rabo preso nem sou nefasto”. Diante da discussão, o paranaense Felipe Francischini desabafou: “Chegamos aonde estamos por covardia de alguns. Agem nas sombras”. No minuto seguinte, a mineira Alê Silva ironizou: “Sim, a exemplo de alguém que sentou ao lado de um presidente da Comissão e pediu a minha cabeça (…)”. Indignado, Francischini rebateu: “Sempre te tive como uma pessoa do bem. Mas a raiva te consumiu (…) Seus ‘amigos’ riem pelas suas costas. Não se deixe usar”. Sem levar desaforo para a casa, Alê Silva retrucou: “Pode ficar tranquilo, sei muito bem que ‘amigos’ são esses. Eles não me enganam como você nunca me enganou’”. Francischini decidiu apagar as mensagens e sair do grupo.

Uma das primeiras a romperem com o PSL, Alê Silva denunciou o envolvimento do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, num esquema de candidaturas laranjas nas eleições de 2018 em Minas Gerais. Após trazer o caso à tona, a deputada disse ter sido ameaçada de morte – e virou, segundo ela mesma, a “ovelha negra” do partido. Recentemente, a parlamentar fez outra acusação. Ela afirma que foi excluída da Comissão de Finanças e Tributação (CFT) após ter adiado a votação de um projeto de lei que beneficiaria determinadas seguradoras. “O Francischini ficou irritado comigo e disse que o projeto é do interesse do Bivar, que tem uma seguradora. Mostrei um documento do Ministério da Economia que recomendava a rejeição da proposta. Mesmo assim, acabei sendo excluída da comissão”, conta Alê Silva, explicando a origem da discussão com Francischini no grupo de WhatsApp do PSL. Procurados, Francischini e Bivar não se manifestaram.

De VEJA