Candidata do União Brasil segue à deriva

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Foto: Adriano Vizoni/Folhapress

A senadora Soraya Thronicke (União Brasil-MS), 49, entrou na corrida presidencial de última hora e como plano B da União Brasil.

O aparente desprestígio inicial é parcialmente compensando com uma potente máquina partidária e um grande tempo de televisão para se tornar conhecida e tentar sair do traço nas pesquisas de intenção de voto.

Soraya ainda não conseguiu pontuar. A mais recente pesquisa Datafolha trouxe a senadora com traço nas intenções de voto.

Mas a União Brasil lhe garantirá o quarto maior tempo de rádio e TV. Ela terá 2 minutos e 10 segundos a cada bloco do horário eleitoral, além de 170 inserções de 30 segundos ao longo da campanha.

O processo que tornou Soraya candidata se desenrolou em quatro dias. Luciano Bivar era o nome colocado para disputar a Presidência, mas, sem muitas justificativas, abandonou o pleito para concorrer a uma vaga na Câmara.

No sábado, dia 30 de julho, Soraya foi convidada por telefone quando estava a caminho de um velório. Aceitou. Bivar, no dia seguinte, anunciou que desistiria, e a senadora foi lançada candidata em 2 de agosto.

A velocidade com que os fatos se desenrolaram provocou comentários de que Soraya seria uma “laranja” de Bivar —que teria mantido seu nome na disputa para barganhar com outros partidos, entre eles o PT do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para críticos, a União Brasil teria apostado numa candidatura fantoche, e a indicação de Soraya teria ainda a conveniência de preencher a cota feminina do partido.

Sobre as críticas, a senadora nega que tenha sido escalada como uma candidata fantoche. “Isso é uma mentira. Eu já estava [na campanha], era vice do Bivar. Então já estava nesse páreo, fui a sucessora natural quando o Bivar saiu da candidatura”, afirmou à Folha.

Em sua campanha, Soraya terá ao seu lado personagens que passaram pelo governo Bolsonaro e que saíram após atritos com o Planalto. Seu vice na chapa será o economista Marcos Cintra, ex-secretário da Receita Federal, defensor do imposto único.

O ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro escreveu o plano anticorrupção da candidata. Demitido no meio da pandemia, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta contribuiu com propostas de saúde.

Suas agendas iniciais de campanha indicam que a proximidade com esses personagens, em particular com Moro, será explorada.

Soraya Thronicke vai disputar a Presidência após apenas quatro anos ocupando cargo público e menos de uma década de militância.

Nascida em Dourados (MS), casada e mãe de um filho que faz faculdade de música, a atual senadora atuou na capital do estado, Campo Grande, na maior parte de sua carreira de advogada e empresária.

Ela e sua família foram donos de uma franquia de escolas de idioma e em negócios que incluíam uma rede de motéis. Soraya deu entrevistas no passado explicando temáticas de alguns quartos, inspirados em pubs e no filme “50 Tons de Cinza”.

Ganhou projeção regional com a advocacia, em particular quando entrou com uma ação na Justiça contra o frigorífico JBS e conseguiu bloquear cerca de R$ 700 milhões da empresa envolta num escândalo de corrupção.

Além disso, Soraya é da geração de políticos que ganharam notoriedade e iniciaram sua militância nos protestos contra a presidente Dilma Rousseff (PT).

Em seu estado, organizava passeatas e subia em caminhões para discursar contra a petista. A advogada aproveitava viagens de trabalho a Brasília para ir ao Congresso e pedir apoio para o impeachment de Dilma.

Foram nas visitas ao Legislativo que se tornou próxima de Jair Bolsonaro (PL), que, em determinado momento, pediu para que seguisse com ele. Assim foi. Filiou-se ao PSL, então partido de Bolsonaro, e foi eleita para uma vaga no Senado.

Atuou durante o início da gestão Bolsonaro como uma fiel escudeira do Planalto, chegando a ser vice-líder do governo.

Soraya se define como conservadora nos costumes e liberal na economia. Diz que o combate à corrupção é o outro pilar do seu mandato no Senado, além de defender o agronegócio.

Como senadora, ela acompanhou o governo nas principais votações e defendeu a retórica bolsonarista.

Após o Senado barrar os polêmicos decretos presidenciais que aumentaram o acesso a armas de fogo, por exemplo, Soraya foi um dos quatro parlamentares, ao lado de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a protocolar projeto de lei praticamente com os mesmos termos.

A foto principal de seu site mostra a senadora apontando duas pistolas para os internautas.

A senadora começou a entrar na mira da ala radical bolsonarista durante a CPI da Covid, quando não endossou a estratégia de desviar o foco para investigar os estados e cobrou respostas para as denúncias de corrupção envolvendo o governo.

Mais recentemente, foi contra a gestão Bolsonaro e assinou o requerimento da CPI para investigar corrupção no Ministério da Educação.

Respondeu às críticas afirmando que não tinha “político de estimação”.

As brigas com bolsonaristas mais radicais se intensificaram no seu estado. Ex-assessores de seu gabinete chegaram a divulgar vídeos com uma série de ataques contra a senadora.

Conflitos políticos no estado são anteriores e remetem à campanha ao Senado. Ela rompeu com o seu primeiro suplente, Rodolfo Nogueira, após um episódio que incluiu denúncia do Ministério Público por ameaças contra a senadora.

O segundo suplente, Danny Fabricio, chegou a ser réu por lavagem de dinheiro, mas foi absolvido.

A senadora ressalta que as escolhas de suplentes aconteceram há mais de quatro anos; que ela tomou a decisão de destituir seu segundo suplente da vice-presidência estadual do partido; e que ela responde somente por suas próprias ações.

Folha