Evangélicos e ruralistas mantém rejeição a Lula

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Foto: Cristiano Mariz

Ainda enfrentando dificuldades para atrair setores que se aproximaram do bolsonarismo nos últimos anos, como evangélicos e produtores rurais, o governo Lula chega aos seis meses redobrando a aposta na agenda econômica na tentativa de quebrar resistências. As principais metas são aprovar a reforma tributária no Congresso e usar obras de infraestrutura, como as previstas no novo PAC, para gerar empregos. Há, no entanto, uma série de obstáculos no caminho, além da sensação, mesmo entre aliados, de que, até o momento, houve apenas a reciclagem de programas de gestões petistas anteriores. Lula tem cobrado novos projetos insistentemente dos ministros, como fez em reunião na semana passada.

O Planalto quer mirar eleitores que consideram a gestão regular — segundo uma pesquisa interna, esse público é composto majoritariamente por jovens, negros, mulheres, trabalhadores informais, adultos sem filhos e desempregados. No levantamento, que tem sido apresentado a ministros, as quatro prioridades listadas por esses segmentos são saúde pública, emprego, educação e segurança.

Auxiliares de Lula reconhecem a dificuldade também de se aproximar dos evangélicos, que não têm um canal de diálogo privilegiado com o Planalto e tampouco receberam políticas públicas específicas. Pesquisa Ipec deste mês mostra que o percentual desse grupo que considera a gestão Lula ótima ou boa é de 29%, enquanto no total da população é de 37%.

Enquanto sua gestão patina nessa área, Lula vê com urgência a construção de uma pauta social consistente direcionada aos evangélicos de direita de classe baixa. Até o momento, o gesto do governo foi se afastar de pautas identitárias e, ainda que haja a avaliação de que as fricções hoje saõ menores do que durante a disputa contra Bolsonaro, prevalece a sensação de que pouco foi feito — até entre lideranças evangélicas que ajudaram na campanha.

O primeiro semestre de Lula — Foto: Editoria de Arte

Há dez dias, Lula recebeu as principais lideranças católicas do país no Palácio da Alvorada. Auxiliares responsáveis pela interlocução com religiosos admitem dificuldade em fazer um evento semelhante com evangélicos, pois os líderes com os quais o Planalto tem mais proximidade são pouco representativos. Lula tentará chegar nos segmentos mais distantes pelo bolso.

Petistas afirmam que Lula perdeu oportunidade de ter feito o lançamento do Plano Safra em áreas rurais do país, no Sul ou Centro-Oeste, no ambiente próprio do público-alvo do programa. Com orçamento de R$ 364,2 bilhões, a iniciativa é considerada uma das principais armas para se aproximar do agronegócio, setor com forte influência bolsonarista. Auxiliares defendem que o presidente viaje mais para estas regiões e argumentam que as idas frequentes ao Nordeste, especialmente à Bahia, não o tiram da zona de conforto. Lula esteve em Porto Alegre na sexta-feira e deve ir a Rio Verde (GO) inaugurar a ferrovia Norte-Sul.

O presidente deve manter no segundo semestre a rotina de viagens ao exterior, mas há a expectativa de que o ritmo seja menos intenso do que o verificado até agora. Lula se dedicaria mais às articulações políticas internas para mergulhar, enfim, no contato direto com os parlamentares. A ideia é que o petista faça encontros no Alvorada, no fim do dia, com as bancadas dos partidos que participam do governo. Pelo entendimento de aliados, essas conversas, em ambientes mais informais, podem aproximar deputados e senadores.

No alvo de parlamentares, os ministros Alexandre Padilha (Relações Institucionais) e Rui Costa (Casa Civil) começaram a dar mais abertura aos congressistas. Padilha foi bastante criticado por não ir ao Congresso ouvir as demandas dos parlamentares. Preferia, desde o início do ano, receber deputados e senadores no Planalto.

A postura mudou no início do mês, quando ele se reuniu na liderança do PSD, partido aliado desde a transição, para ouvir as queixas. Segundo deputados da legenda, era “inacreditável” que o ministro responsável pela articulação política ficasse encastelado na sede do Executivo.

Além da troca do Turismo (de Daniela Carneiro por Celso Sabino), não há em vista a perspectiva de uma reforma ministerial nos próximos meses. Mudanças pontuais não são, porém, totalmente descartadas. Há um desejo de atrair o PP e o Republicanos, mas esse plano ainda depende de negociações. De qualquer forma, o governo avalia que poderá melhorar a relação com o Congresso com a concretização das nomeações de indicações políticas para postos nos estados e com a própria entrada de Lula no jogo.

— Vejo perspectivas de um segundo semestre com melhorias do ambiente político e institucional da Câmara na relação com o governo — pontua o líder do governo na Casa, José Guimarães (PT-CE).

No entanto, diante do perfil dos congressistas eleitos no ano passado e do fim do orçamento secreto, auxiliares de Lula reconhecem que só uma elevação da popularidade do presidente, puxada por melhora nos números da economia, pode dar ao petista mais capital político para negociar com os parlamentares.

As possíveis saídas para Lula — Foto: Editoria de Arte

Outro desafio é a comunicação. Depois de Lula pedir mais “profissionalismo” dos auxiliares ao divulgar o que o governo vem fazendo, a Secretaria de Comunicação (Secom) tem chamado a atenção de ministros para comunicarem ações gerais do governo, não apenas de suas pastas. Ao visitar um estado, por exemplo, um titular de área técnica, como Saúde e Educação, deverá citar dados de beneficiários do Bolsa Família e do número de carros vendidos com desconto no estado. Um alerta foi ligado quando a pesquisa apontou que parcela da população não vê diferenças entre os programas habitacionais Minha Casa, Minha Vida, de Lula, e Casa Verde Amarela, de Bolsonaro, e cenário semelhante ocorre na comparação do Bolsa Família com o Auxílio Brasil.

— O presidente Lula trouxe de volta programas imprescindíveis para a população, resgatou o prestígio internacional e está fazendo o Brasil voltar a crescer. Daqui para a frente, vamos ter mais entregas na ponta — disse o ministro da Comunicação Social, Paulo Pimenta.

Também há a preocupação dentro do Planalto de controlar as falas do presidente. Há um entendimento de que Lula muitas vezes tropeça e produz fatos negativos, como visto na semana passada quando disse à Rádio Gaúcha que “o conceito de democracia é relativo”, ao defender o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Auxiliares entendem que as notícias negativas são hoje mais produzidas por integrantes do próprio governo do que pela oposição.

Para o segundo semestre, além da expectativa de que reforma tributária e o novo PAC possam alavancar os indicadores econômicos, o governo quer levar adiante um texto que altere a cobrança sobre a renda. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, também se empenha na implantação do Plano de Transição Ecológica, o “pacote verde”.

Enquanto tenta avançar com pautas econômicas, o governo deixou de lado promessas de campanha e bandeiras mais ligadas à esquerda. Uma delas foi a criação de um ministério específico para a Segurança Pública, para se aproximar de policiais, pauta da qual o PT se afastou nos últimos anos.

O Globo