Janja ficará na história entre primeiras-damas ativas

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Foto: Ricardo Stuckert

Foi com amargura que a ex-primeira-dama Maria Thereza Goulart revelou a um repórter do “Jornal do Brasil” qual conselho daria à nova primeira-dama Rosane Collor. “Fique sempre linda e de boca fechada”, sibilou.

Anos depois, a viúva de João Goulart confidenciou como a angustiava o “estigma da mulher bonita, jovem e burra”. Reflexo do senso comum de que as esposas dos presidentes devem ser coadjuvantes, combinando beleza, elegância, discrição e dedicação às ações sociais.

Em 2016, esse estigma foi reavivado quando a revista “Veja” publicou um perfil da então primeira-dama Marcela Temer com um título polêmico. A hashtag “bela, recatada e do lar” viralizou nas redes sociais.

Coube à biografia lançada em 2019, pelo jornalista Wagner William, revelar outra faceta de Maria Thereza, que a revista “Time” incluiu entre as primeiras-damas mais bonitas do mundo, ao lado de Jacqueline Kennedy e Grace Kelly.

Ela foi capaz de gestos de coragem que só agora vieram à luz. Em março de 1964, em um clima de radicalização pelas reformas de base de Jango, ela decidiu que subiria no palanque com o marido no comício da Central do Brasil, estopim para o golpe militar.

Havia rumores de que o presidente levaria um tiro, ou lançariam uma bomba no palco. Simultaneamente, a primeira-dama duelou com seus fantasmas porque sofria ataques de pânico, e tinha fobia de multidão. Mas não recuou.

A propósito das primeiras-damas, vem à tona o papel de Rosângela Lula da Silva (Janja) na reforma ministerial que ampliará os espaços do Centrão no governo. A atual primeira-dama entrou em campo para defender, em contrapartida, os espaços de poder das mulheres, bem como os territórios que considera caros ao governo Lula e ao PT.

Foi diante da ofensiva do PP sobre o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), responsável pelo Bolsa Família, e sob o comando do ministro Wellington Dias – ex-governador do Piauí e quadro histórico do PT – que Janja visitou a sede da pasta no começo de julho. No local, ela gravou um vídeo ao lado de Dias ressaltando que o ministério “é onde o coração do governo pulsa”.

Face à cobiça de PP e Republicanos por ministérios e outros cargos ocupados por mulheres, Janja também se posicionou. Ao discursar em 25 de julho, no 1o. Encontro de Integração de Mulheres Latino-americanas, ao saudar as ministras das Mulheres, Cida Gonçalves, e da Gestão, Esther Dweck, registrou que estão na “trincheira pela defesa das mulheres nos espaços de poder”.

A declaração ressoou como recado velado ao Centrão, que também reivindicou ministérios controlados por mulheres, como a pasta da Saúde, sob Nísia Trindade, e do Esporte, sob a campeã olímpica Ana Moser.

“Não é possível mais as mulheres aceitarem a violência política, seja no parlamento seja nas redes sociais”, exortou Janja em sua fala. “Lula sabe da importância do papel que as mulheres têm na sociedade brasileira, por isso, hoje a gente tem o maior número de mulheres nos ministérios e nos espaços de decisões de poder”, enfatizou.

A atuação de Janja influenciou o ritmo da reforma, revirou o tabuleiro e pressionou o Centrão, que indicou mulheres para o governo. A ex-vice-governadora do Piauí e diretora do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Margarete Coelho, aliada do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), é cotada para a presidência da Caixa Econômica Federal no lugar de Rita Serrano.

Alas do PT, do PP e Republicanos incomodaram-se com a atuação da primeira-dama por acreditar que a reforma ministerial não lhe diz respeito. Mas a história mostra que Janja não é a única primeira-dama a influir nos rumos da política.

Em 1946, Carmela Dutra, a “dona Santinha”, uma católica fervorosa, persuadiu o marido, o presidente Eurico Gaspar Dutra, general do Exército, a fechar os cassinos no país em nome da moral e da decência.

Fernando Henrique Cardoso revelou nos “Diários da Presidência” que uma intervenção da primeira-dama Ruth Cardoso foi determinante para convencer o então ministro do Planejamento, José Serra, a concorrer à Prefeitura de São Paulo em 1996.

“Ruth, com a franqueza e a capacidade de convencimento que ela tem, disse ao Serra uma porção de coisas verdadeiras; que se ele não aceitasse a candidatura haveria uma desilusão com ele em São Paulo, que ele tem chances de ganhar e que seria bom ele ser candidato, embora para o governo seja ruim”, escreveu FHC.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro levou o então presidente Jair Bolsonaro a romper acordo com o PL para apoiar Flávia Arruda na disputa ao Senado pelo Distrito Federal. Michelle advertiu que ninguém a impediria de fazer campanha para a ministra Damares Alves (Republicanos), que venceu o pleito e elegeu-se senadora.

Atualmente, ministros, ministras e titulares de cargos na mira do Centrão, ou alvo de intrigas buscam a blindagem de Janja. Em rota de colisão com o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), convidou-a para ser madrinha do Programa de Energias da Amazônia, lembrando a atuação dela em Itaipu.

“Pela sua sensibilidade social e conhecimento do setor elétrico brasileiro”, exaltou. Em Parintins (AM), abriu alas para a entrega de mimos para a primeira-dama: um cocar e um buquê de girassóis.

Valor Econômico