PSDB quer resgatar Aécio e o antipetismo

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Foto: Maurício Tonetto/Secom

O presidente nacional do PSDB e governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, tem sido pressionado por um grupo de correligionários para que o partido seja mais contundente na oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Embora o governador declare que a sua legenda engrosse as fileiras oposicionistas, tucanos de diferentes estados se queixam de que a sigla deixa passar oportunidades de marcar posição e fazer enfrentamento ao petista.

Esse grupo diz que o PSDB poderia ser mais duro quanto à aproximação do governo com Venezuela, Cuba e Rússia. Reclama ainda da demora em se posicionar contra a tentativa de reimplementação do imposto sindical obrigatório. O partido divulgou uma nota sobre o assunto mais de 24 horas após o plano do governo ter sido revelado. O ex-presidente da legenda e deputado Federal, Aécio Neves (MG) é quem lidera o movimento para que a sigla endureça posições.

Também há queixas de que o PSDB deveria criticar a aproximação de Lula com siglas do Centrão. Essa avaliação foi levada a Leite na última segunda-feira, em reunião virtual da Executiva Nacional.

Unidos por meio de uma federação, PSDB e Cidadania tentam se reposicionar politicamente após o pífio desempenho eleitoral do ano passado. A avaliação é que é preciso evitar ser associado ao bolsonarismo. Mas, ao mesmo tempo, também há um entendimento de que os tucanos devem mostrar mais a insatisfação contra Lula.

O PSDB promoveu ontem um evento para anunciar os posicionamentos da sigla, que tenta retomar relevância após perder espaço para o bolsonarismo. O partido já ganhou duas eleições presidenciais e ficou no comando do governo de São Paulo por 28 anos, mas perdeu cadeiras e ficou em quarto lugar na eleição presidencial de 2018. Hoje tem 13 deputados e dois senadores e ficou em terceiro lugar na disputa em São Paulo no ano passado.

Leite evitou criticar a cobrança dos tucanos e disse que eles terão o espaço para defender seus posicionamentos:

— (O evento desta quinta) É a conclusão de um processo de discussão interna do partido para revisão e afirmação do nosso programa e visão de Brasil. A partir disso é que devem vir as posições das nossas lideranças políticas em todos os níveis.

Mesmo discordando no modo como lidar com o governo de Lula, Leite e Aécio não têm entrado em conflito. No evento de ontem, o presidente do PSDB leu uma nota de desagravo a Aécio por conta da decisão da Justiça de arquivar os processos do caso JBS do qual ele era alvo.

O deputado Paulo Abi Ackel, secretário-geral do PSDB, reconhece que o partido não mudará de postura de forma célere, mas avalia que a ideia é que antagonize mais com Lula durante o processo de avaliação interna.

— É a tendência (se posicionar mais contra Lula), mas não acontecerá automaticamente. Vamos crescer como oposição a partir desse seminário — disse.

No evento de ontem, o partido divulgou uma carta em que aponta diretrizes para os filiados nas áreas de economia, governo e sociedade. Os tucanos reforçam as posições contra o aumento da carga tributária, a favor de privatizações e de medidas de ajuste fiscal, acompanhadas de um enxugamento da máquina pública.

Leite se classifica como oposição a Lula, mas tem evitado se posicionar publicamente em relação a temas ligados à gestão petista. O governador não divulgou o voto no segundo turno da eleição presidencial, mas recebeu o apoio de setores do PT no Rio Grande do Sul contra o bolsonarista Onyx Lorenzoni (PL) na disputa pelo governo gaúcho.

Mesmo sendo rival do PT, Leite recebeu Lula e a primeira-dama Janja da Silva no Palácio do Piratini, em junho, para um almoço. O tucano também negocia com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, os termos do Regime de Recuperação Fiscal no Rio Grande do Sul, além de manter reuniões, desde o período da transição no fim do ano passado, com o ex-tucano e vice-presidente Geraldo Alckmin, hoje no PSB.

Durante o evento de ontem, o PSDB apresentou a nova marca do partido e trouxe de volta o tucano. O animal sempre foi símbolo da legenda, mas deixou de ser usado desde o final de 2019, após a sigla começar um processo de desidratação e amargar um quarto lugar na eleição presidencial de 2018.

Eduardo Leite, confirmou que a ave voltará a ser usada na identidade visual do partido de forma regular:

— Sim. Mudamos a marca. Trouxemos o tucano de volta.

A retirada do tucano aconteceu na época em que o partido era comandado pelo ex-ministro e ex-deputado Bruno Araújo e tinha influência do então governador de São Paulo, João Doria, que tentava criar um “novo PSDB” após a legenda perder espaço para Jair Bolsonaro como principal rival político do PT. A mudança da identidade visual fez parte desse processo. Posteriormente, Araújo rompeu com Doria e, após não conseguir ser candidato a presidente em 2022, o ex-governador de São Paulo se desfiliou do PSDB. Os filiados à legenda são conhecidos como “tucanos”, apelido que continuou em prática .

O Globo