Sobre envelhecer

Crônica

Passei a vida me perguntando quais seriam os sinais de que estaria ficando velho. De alguma forma, parece que sempre soube que envelhecer seria ser tomado por um descompasso crescente com o mundo.

Velhice é aquele momento que chega para todo ser pensante em que começa a sentir que não mais entende o que se passa ao redor. É não mais conseguir participar do jogo que está sendo jogado.

Começar a sentir medo do mundo em que se está vivendo deve ser O sinal de que se está envelhecendo.

Medo por não saber do que é capaz aquele cidadão que caminha perto de você na rua. A sensação de que se está o tempo todo ameaçado de alguma forma por uma realidade belicosa.

Alguns dirão que é um medo comum ao homus urbanus devido à violência nas urbes.

Antes fosse. Na verdade, é o medo de uma sociedade em que estimar o próximo virou démodé. Em que se compete o tempo todo. Em que as palavras sempre têm um significado oculto.

Medo daqueles para os quais todos ao redor são definidos pelo que conseguem em termos de dinheiro ou prestígio. E medo por muitos serem assim.

Envelhecer, pois, não é um processo biológico, mas mental.

A paciência diminui e aumenta na mesma medida e com a mesma volatilidade, mas não ultrapassa a fronteira interior. Fica pulsando por dentro, pois você a retém – a volatilidade emocional.

Envelhecer é também se tornar um pouco menos cínico a cada dia. É também ir perdendo o medo de dizer o que pensa. Pelo menos envelhecer bem deve ser assim.

É entender que o fim chega para todos, ainda que eventualmente possa marcar um recomeço. E não se importar com a dúvida sobre como será.

É ir deixando de se importar com o lado de fora e ir se preocupando mais com o lado de dentro. Talvez por ter consciência de que a hora do Julgamento está chegando, nem que seja presidido por si mesmo.

Envelhecer é tão fácil quanto pensei que seria.

25 comments

  • Acabo de assistir na Record (Domingo Espetacular), a descoberta do homem mais velho do mundo em Salvador, apenas 116 anos, completamente lucido, vai para o Guinness!. A velhice esta na cabeça, no preconceito, na desistencia, no abandono, na descrença…

  • Envelhecer é ficar mais cínico a cada dia. É não dizer o que pensa, sem pensar. Quem diz o que pensa sem pensar são os Jovens, as quais são responsáveis pelas mudanças que ocorrem no mundo. Envelhecer com dignidade é para poucos em nossa terra. Temos a missão de passar para a Juventude as nossas experiências e valores herdados de nossos antepassados. Valores estes que parte da nossa sociedade não está passando para os seus rebentos, resultando dai estes fatos horríveis que presenciamos ultimamente. Não tem FSP, ESP, Globo e Veja que faça a cabeça de meus jovens filhos, porque desde cedo ensinei-lhes valores morais, respeito para com o próximo e mais velhos. Ensinei-lhes o valor dos estudos, da ética e da honestidade. Estou envelhecendo tranquilo porque entre outras coisas, meus herdeiros estão no caminho digno e feliz porque finalmente estou vendo este país mudar. Mudança esta que sonhava desde jovem. Consegui ver a 1º mulher Brasileira se tornar Presidente.´O próximo passo é ver um Negro chegar ao mesmo cargo.

  • legal que sua expectativa esteja se cumprindo. alguns colegas de trabalho que se queixam às vezes da necessidade de óculos para leitura, entre outras reclamações, dão risada quando eu digo que esta e outras dificuldades estão inclusas no pacote “velhice”, hehehe… não à toa, penso que as melhores mudanças ocorrem internamente – e suponho que não mudarei de ideia nunca em relação a isso. abraço pra ti, saúde e lucidez para todos nós!

  • Bom, envelheci lentamente até os cinquenta. Agora, acelerei. A degradação física atormenta, mais ainda porque o cérebro resiste, embora poucos queiram ouvir ancianidades. Envelhecer é uma chatura, mas melhor do que a única alternativa oferecida …

    Alguém conhece uma velhinha disponível por aí?

  • Eduardo, mire-se no exemplo de Dilma Rousseff, uma idosa que acreditou em seus sonhos e chegou ao maior posto do Brasil. Há muitos anos, um moleque de 40 anos chegou ao poder e deu no que deu. Seu nome? Fernando Collor. Hoje, no Morumbi, um senhor de 68 anos mostrou toda a sua energia para uma multidao. A experiencia é fundamental para iluminar os coracoes e mentes da sociedade.

  • Caro Eduardo
    Como até os 50 eu sempre tive certeza que chegaria, até os 100 eu já duvido, costumo brincar que estou em contagem regressiva e também me questiono, que antes havia uma harmonia entre as minha pernas e o coração, pois ambos se davam bem, agora, após um recente AVCI, não entendo por que o coração arria, e as pernas não, eu quero andar e o coração diz, não.
    Saudações

  • Luiz Inácio Lula da Silva, 65 anos, 8 anos de um governo importantíssimo, em que o País avançou como nunca e o povo passou a ser acolhido e a ganhar autoestima. Deixa a presidência cheio de projetos sociais pra tocar pelo mundo, com o Instituto Lula. Dilma Vana Rousseff, 62 anos, presidenta eleita. Perseguida, presa, seviciada por um bando de brutamontes imundos nos anos 70, sobreviveu a esta barbárie, continuou sua vida política com dignidade, foi ministra competentíssima de um governo mais que aprovado, passou por um linchamento moral sem precedentes ao longo da campanha eleitoral, continua sendo perseguida por um jornalismo sórdido, fétido e nefasto, e continua de pé, com força, coragem e hombridade, para assumir a Presidência da República Federativa do Brasil daqui a 40 dias. São estes modelos, exemplos de vida, que devemos ter em mente, quando o medo, o desânimo e o cansaço do tempo que passa nos fragilizar. Miremo-nos nestas duas verdadeiras estrelas que brilham no céu deste país maravilhoso. Viva a Dignidade! Viva a Coragem! Viva o Povo Brasileiro!!!

    http://www.abraabocacidadao.blogspot.com

  • Prezado Eduardo: Marco Túlio Cícero(106 a 43 A.C) escreveu SABER ENVELHECER e nesta obra ele cita quatro razões possíveis para acharem a velhice detestável.1°- ela nos afasta da vida ativa.2°-ela enfraqueceria nossos corpos.3°-ela nos privaria dos melhores prazeres.4°-ela nos aproxima da morte.Vamos por parte. 1° -Quem se mantem intelectualmente ativo retarda os estragos que o tempo provoca na memória.Temos vários exemplos e cito o que mais admiro e do qual sou fã- Peter Drucker- Eu mesmo já beirando os 70 e há mais de 10 aposentado ainda sou chamado por ex-alunos para prestar consultoria em empresas.2° Ela enfraqueceria nossos corpos- com exercícios e com o avanço da medicina este enfraquecimento vai sendo adiado a cada dia que passa, mas é preciso que as pessoas façam a sua parte, caminhada, natação,mudança de hábitos na alimentação é recomendável.3°- Ela nos priva dos melhores prazeres- acredito que com tempo livre cabe a cada um escolher o que for melhor para sí e quem pensar simplesmente em sexo recomendo procurar um bom urologista e ele certamente vai orientar nos viagras, uprima e outros do mesmo nível.4°- Ela nos aproxima da morte-Cícero nos diz que nada mais natural para um velho senão a perspectiva de morrer.Os frutos verdes devem ser arrancados à força da arvore e caem naturalmente quando estão maduros.Enquando a vida é arrancada à força aos adolescentes, ela vai deixando o velho aos pouco quando chega a hora.O problema meu caro Eduardo é que ã nossa cultura influenciada pelo americanismo não dá valor à velhice e aqui nos ensinavam que uma pessoa que chegasse aos 30 anos sem 1 milhão de dólares era uma fracassado.

  • Acho que, pela primeira vez, discordo totalmente de você. Envelhecer, além de ser uma chatice como disse alguém aí de cima, é também muito difícil, especialmente no que se refere a compreender e aceitar todas as limitações físicas que vêm com a idade.
    Saudações velhinhas

  • Quando é que começamos a envelhecer? Quando tinha 15 achava que alguém de 40 era velho, aos 30 pensava, bem agora estou no meio, pois com 60 serei velhinha… Hoje tenho quase 50 e já tem um tempo que descobri que o espírito não envelhece e que se não temos um espelho na frente, provavelmente não percebemos que estamos mais velhos, (mesmo que a dor nas contas teime em dizer o contrário)… e por isso mesmo temos que ter cuidado para não parecer uma “sem noção” como diriam meus filhos, quando penso que não tem nada demais colocar uma saia mais curta, ou um short para passear no centro (na praia pode tudo). Eu me sinto melhor agora do que quando tinha 20 e poucos, principalmente pelo que escrevestes lá em cima.. “É também ir perdendo o medo de dizer o que pensa”, e também por ter ficado digamos assim, com o pavio um pouco menor… Agora não gostei respondo na hora e isso faz um bem enorme para a alma. Muitas vezes lembro-me de uma senhora que falava que alguém tinha falecido e eu perguntava, era muito velho? Ela dizia, que nada era um guri tinha 70 e poucos anos, eu achava graça, mas hoje tenho que concordar com ela… Dependendo da idade que temos, 80 anos é um guri. Abraço.

  • Velhice não é o mosmo que velho = derrotado, ultrapassado, sem utilidade, não é?
    Se alguém sentir que quereria voltar a ser o que era numa determinada idade, então tem alguma coisa errada com essa criatura. Fico me observando o que fui e o que sou hoje, com 54 anos, e não tenho nenhuma vontade de voltar a ser o que fui. Como diz uma certa filosofia, somos, hoje, o melhor resultado de todas as nossas vidas anteriores.

  • Pô Eduardo!

    Acabei de descobrir que sou normal!

    Achava que estava ficando velho, e daí ranzinza, porque não suporto mais conviver com hipocrisia!

    Não consigo entender como no meu tempo de colégio (não muito tempo atrás, tenho 40 anos) eu respeitava um professor como se fosse um policial (é bom frisar, respeito, não medo!), e hoje esses moleques tratam o professor como o cestinho de lixo da sala de aula!

    Também não consigo entender como eu “pelava” de medo de recupareação e de repetir de ano, hoje nem mais existe isso!

    Como meu pai trazia a gente no “cortado” principalmente na questão da honestidade e do respeito aos outros e hoje esses pivetes (até classe média alta) fazem as merdas, como as da Av. Paulista e vem a mamãe e dá “costas largas”. Aí de mim se fizesse uma barbárie dessas!

    Enfim, às vezes penso em ficar quieto, mas a inquietude é mais forte! É muito bom estar ficando velho hoje, porque não sei que tipo de velhice haverá amanhã!

  • De repente percebi que estava entre aciãos! Que é isso !..velhice aos quarenta anos? Por favor! É a primeira vez que não sou a pessoa de mais idade em um forum. Jamais teria pensado no assunto não fosse a motivação do Eduardo. É verdade que a condição física já não responde satisfatoriamente a grandes demandas. É preciso mover-se mas também descansar. Agora, o paradoxal é que o intelecto continua abrindo frentes e até realizando conquistas. Como as pessoas da minha idade sou do tempo da máquina de escrever e eis que me encontro no blog procurando argumentos para compreender os impasses do presente, para participar.
    Por isso agradeço a todos que aqui escrevem pelo tanto de motivação e cultura que me permitem compartilhar. Ah! por falar nisso gostei de CICERO.

  • Meu avô costumava filosofar: la vejez, no viene sola, ou seja, junto com a velhice vem … e aí a gente vai pondo muitas coisas. Minha experiência me diz que perdemos muitas coisas e também ganhamos muitas.
    Dependendo do ângulo de visão ( diminuída), teremos um equilíbrio, como nos outros períodos da vida e hoje em dia nos preocupamos muito com não-envelhecer, ou seja, penso que desvalorizamos o envelhecer.
    Eduardo, eu te desejo que chegues aos 100 anos como as aniversariantes das 3 festas que fui nos últimos 2 anos, alegres, felizes por estarem em meio às suas famílias e amigos, desfrutando do preparar a festa, da festa, e pós festa.

  • Como tenho 38 anos, não posso falar sobre o que seja envelhecer; embora assuma que tenha medo da velhice e da morte; tragédias humanas; a que estamos condenados por nossa condição. Todavia percebo que muitas das “consequências”, que no texto você atribui ao envelhecimento, parecem-me muito mais o retrato das contradições vividas por uma alma honesta e pura, nesse mundo marcado pela hipocrisia. Arrisco-me assim a dizer que os homens bons enfrentam tais dilemas durante toda a existência, seja em que fase for, fruto do choque entre suas natrurezas e as dos demais homens.

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