O que há por trás da “guinada à direita”, estratégia de Trump e Bolsonaro

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A possibilidade de entrar nas dobras do ‘novo’ Brasil e de propagar o cristianismo conservador e uma agenda econômica ultraliberal fez com que o presidente eleito, Jair Bolsonaro, acabasse na mira de duas organizações com sede na Europa e tentáculos espalhados pelo mundo. O The Movement, organização populista nacionalista, fundada em Bruxelas, em janeiro de 2017, e o Instituto da Dignidade Humana, um dos grandes promotores de ideologias conservadoras cristãs, são diferentes no papel, mas compartilham muitos elementos estratégicos, políticos e religiosos. O elo entre os dois está nas mãos e no cérebro de Steve Bannon, ex-estrategista chefe do presidente americano, Donald Trump.

Eduardo Bolsonaro, filho do capitão e deputado federal pelo Rio de Janeiro, declarou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no começo de novembro que pretende construir uma conexão com o The Movement. “A gente quer ter uma conexão internacional para a troca de ideias, pensar em medidas que estão sendo feitas de forma pioneira na Itália que a gente possa fazer aqui. É participar do jogo democrático de forma organizada.” Disse ainda “querer aproveitar essa onda conservadora para dar uma resposta ao Foro de São Paulo”, em referência à organização que reúne partidos e movimentos de esquerda da América Latina e Caribe.

Após atrair para o seu The Movement os líderes da extrema direita de muitos países da Europa, Bannon trabalhou pela criação do Instituto da Dignidade Humana, uma escola neoliberal, fundamentalista cristã e conservadora feita toda para ele. O Instituto foi criado pelo “enigmático” Benjamin Harnwell, político britânico que hoje vive na Itália para “revitalizar os princípios cristãos originários”.

Há tempos se suspeita que exista alguma ligação entre Bannon e Bolsonaro. O próprio Harnwell confirma: “Bannon, em privado, me falou positivamente de Bolsonaro. No futuro, eu não veria problemas em trabalhar com ele”.

Bolsonaro sempre negou qualquer relação com o ex-assessor de Trump, apesar de seu filho Eduardo tê-lo encontrado nos Estados Unidos para tramar uma “união de forças contra o marxismo cultural”. Na época do encontro, Bannon enfrentava graves acusações pela suspeita de ter manipulado as eleições americanas graças aos dados de Facebook obtidos de seus clientes no escândalo da Cambridge Analytica. Em entrevista à BBC, ele disse ser um grande admirador do capitão – mas negou vínculo com a campanha que acabou levando Bolsonaro à presidência.

Agora, as organizações ligadas a Bannon querem entrar no Brasil. Mas discretamente, evitando as manchetes. Com a mesma calma com que Harnwell falou com o Intercept no fim de outubro. Sentado confortavelmente em sua poltrona listrada, na luminosa sala atrás da pequena sacristia do mosteiro Certosa de Trisulti, o britânico contou como Bannon é a espinha dorsal do Instituto.

“É nosso padroeiro e o principal ponto de referência”, diz Harnwell. “É ele quem escolhe os professores e foi ele quem decidiu que a escola deveria se chamar Academia judaico-cristã.”

Erguido no ano 1200, o mosteiro Certosa se encontra entre as montanhas italianas, na vizinhança da pequena cidade de Collepardo, a 100 quilômetros de Roma. Por anos a região foi uma espécie de fortaleza do Partido Democracia Cristã. De difícil acesso, foi escolhido como sede dos cursos que serão ministrados pelo Instituto da Dignidade Humana. O projeto tende a ser duradouro, visto que o grupo alugou o mosteiro pelos próximos 19 anos por módicos 100 mil euros anuais.

Intercept – Como nasceu o Instituto da Dignidade Humana? Quais são seus valores religiosos e culturais?

Benjamin Harnwell – Tudo começou em 2004, quando o político italiano cristão Rocco Buttiglione teve sua indicação como membro da Comissão Europeia de Justiça barrada por causa de seu posicionamento católico conservador sobre homossexuais, mulheres e migrantes. Alguém tinha que defender os políticos católicos para que pudessem ter o mesmo direito de expressão dos outros movimentos ideológicos e assim defender os valores originários da Igreja dos ataques do revisionismo marxista. Queríamos criar uma resposta para que os políticos cristãos pudessem se expressar livremente como cristãos em seus cargos públicos.

O instituto é ligado à Igreja Católica? Quais são os objetivos?

Na verdade, não. O Vaticano pediu para que o projeto fosse separado da Igreja, mas inspirado na doutrina católica. Nosso objetivo é conseguir ter daqui a 10 anos representantes em todos os parlamentos do mundo. Pretendemos difundir os valores cristãos. A esquerda quer mudar a história, reescrevê-la, mas nosso trabalho é formar uma aliança político-cristã para evitar que isso ocorra. Criamos uma rede internacional a partir da Europa. Começamos na Bélgica, depois Hungria, Romênia, Inglaterra e Itália.

 

A pesar de Benjamin dizer que o Instituto não é ligado à Igreja, vários cardeais da ala ultraconservadora estão unidos nessa versão contemporânea das cruzadas, como, por exemplo, o americano Raymond Leo Burke, que está na presidência do Instituto da Dignidade Humana. O religioso é conhecido como o inimigo número um do papa Francisco.

Vocês tem representantes também na América Latina?

No México, temos a ex-deputada Ana Maria Ortiz, temos também um representante no Uruguai, que é o deputado Carlos Iafigliola, e outro na Argentina. O documento-base do instituto, que é a Declaração dos Princípios da Humanidade, foi traduzido para espanhol – e traduzi-lo para português é só uma questão de tempo. A América Latina é muito importante para nós.

Mas na América Latina, principalmente no Brasil, é a bancada evangélica, e não católica, a de mais peso no Congresso. Como é a relação de vocês com os evangélicos?

A aliança com os evangélicos pode ser a resposta que procuramos. A perda de muitos católicos que se converteram em evangélicos se deve ao fato de a Igreja Católica ter se envolvido demais com a política de esquerda e com os sindicatos, adotando uma agenda mais marxista. Essas conversões são culpa exclusivamente da Igreja Católica. Apesar de não terem formação católica, esses evangélicos são bons, porque defendem a vida. Precisamos parar de apoiar a esquerda no campo político. Eu ficaria muito feliz em poder trabalhar estreitamente com os evangélicos. Às vezes, me sinto mais próximo deles do que dos católicos. Veja, por exemplo, são os evangélicos que estão apoiando o governo Trump, são os evangélicos que são contra o aborto no Brasil… O catolicismo deixou o campo de batalha.

 

Os evangélicos ajudaram a eleger Bolsonaro presidente do Brasil. Após ser divulgado o resultado do primeiro turno, a primeira declaração dada pelo então candidato à presidência pelo PSL foi de agradecimento aos líderes evangélicos. Fato nada trivial considerando que, uma semana antes, no dia 30 de setembro, o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, declarou apoiou a ele. Ainda no começo de outubro, o Intercept revelou os bastidores do apoio do portal R7 ao capitão. A Universal foi fundada por Macedo há 41 anos e hoje conta com mais de sete milhões de seguidores e 7.200 templos espalhados pelo país, além de ainda articular seu poder político por meio da TV Record e do PRB, que começa 2019 com 30 cadeiras na Câmara dos Deputados.

Falando em evangélicos brasileiros, eles são a base de apoio de Bolsonaro. O senhor o conhece?

Eu ouvi falar muito bem dele. O Bannon, para quem sempre peço conselhos, me falou muito bem de Bolsonaro. Gostaria de trabalhar com ele.

E qual a posição política do Instituto?

Não nos posicionamos politicamente, nossos membros estão livres para apoiarem quem quiser. Mas estamos muitos próximos ao The Movement, do Bannon, visto que representantes de partidos nacionalistas do mundo estão aderindo a ele e são os mesmos que lutam pela defesa dos valores do cristianismo. É meio óbvio que quem vai participar dos cursos sejam as mesmas pessoas interessadas no The Movement.

‘Trump, Bannon e Salvini são acusados de serem extrema-direita, mas não são. Para mim eles estão no centro e todo o resto está à esquerda.’Mas esses políticos são de extrema-direita. O senhor está dizendo que serão extremistas a participarem dos cursos?

Mas, para você, o que é extrema-direita? Temos que definir o que é extrema direita, porque Trump, Bannon e Salvini são acusados de serem extrema-direita, mas não são. Para mim eles estão no centro e todo o resto está à esquerda. É difícil encontrar uma definição porque depende de como queremos abordar a questão. Para mim, podemos até dizer que o fascismo era socialista. Veja, a direita se funda no individualismo, no Estado mínimo e no respeito à propriedade privada. Ela se opõe à esquerda, que se interessa pelo coletivo e nega o direito do indivíduo. Já a extrema-direita recusa totalmente a presença do Estado em contraposição à extrema-esquerda, que pretende um estado absoluto. Então a extrema-direita, para mim, não é questão pejorativa, mas uma questão de honra, porque o Estado serve somente para explorar as pessoas, não para salvá-las ou ajudá-las, e isso é feito para garantir a elite. Não me defino de extrema-direita, porque isso seria mal compreendido. O conceito de extrema-direita é aplicado somente ao que você não gosta.

O senhor usou as mesmas fala que Bolsonaro costuma usar. Ele, no Brasil, é considerado um político de extrema-direita por suas declarações homofóbicas, racistas e misóginas.

Vamos ver, me cite alguma coisa que ele disse.

Ele disse, por exemplo, que preferia ter um filho morto do que gay.

Olha, eu não acho que o Estado deva impor se é certo ou errado ser gay. Mas também acho que os cristãos devam ser livres e ter direito de dizer que isso é errado, porque os atos homossexuais são pecaminosos, porque o sexo para a Igreja tem uma função específica. Nós podemos até aceitar gays em nossos cursos, mas eles não devem se ofender com o que vamos falar.

‘Eu vejo Bolsonaro como um homem que conhece o perigo do comunismo e quer lutar contra a lembrança disso.’Bolsonaro disse que não houve golpe militar no Brasil.

O golpe militar foi dado no Brasil assim como nos outros países na América Latina para evitar que os comunistas tomassem o poder. A esquerda era financiada pelos soviéticos. Nós sabemos isso agora, mas antes da caída do muro de Berlim, isso não era admitido. Eu vejo Bolsonaro como um homem que conhece o perigo do comunismo e quer lutar contra a lembrança disso. Não existe o risco do comunismo soviético, mas o socialismo está sempre presente, em crescimento e, num certo modo, responde ao pecado original.

Por que pecado original?

Porque em cada um de nós existe o desejo de ter o que é do outro. Esse sentimento é uma forma de inveja ligada ao pecado original. A Igreja Católica deveria pedir para os fiéis combaterem esse veneno. O socialismo é a inveja institucionalizada.

Do The Intercept