Ana Branco/Agência OGlobo

Carnaval da Mangueira será um soco na cara do Brasil de Bolsonaro

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O samba da Mangueira tem a volta de Cristo num mundo triste e intolerante para botar gente preconceituosa para pensar, como o eleitorado do Jair.

Deus está aqui, diz a frase pichada no muro de um barraco erguido numa viela do Morro da Mangueira. E se depender de Leandro Vieira, carnavalesco da verde e rosa desde 2016, o filho do Homem também vai baixar na favela. No carnaval de 2020, ele levará Jesus Cristo à Sapucaí no enredo “A verdade vos fará livre”. A ideia não é representar Jesus bíblico e seu martírio, mas lançar um questionamento sobre o que aconteceria se Cristo voltasse à Terra em um ambiente de intolerância generalizada.

Se Jesus nasceu pobre, num ambiente humilde, dentro da liberdade artística de Leandro esse ambiente é o morro da Mangueira. A partir desse personagem o carnavalesco abordará assuntos como respeito às diferenças e questões de raça e gênero.

— Quando Cristo esteve aqui, ficou do lado dos oprimidos e não fez distinção de pessoas. Será que Jesus não está no morador da favela? No menor abandonado? No gay? Na mãe de santo?

O BlogdaCidadania sugere mais leitura sobre o assunto para você. Ontem Bolsonaro suspendeu vestibular para minoria trans. Leia em  https://blogdacidadania.com.br/2019/07/bolsonaro-manda-mec-suspender-vestibular-para-trans/ 

Polêmica religiosa

Leandro tem consciência de que não vai ser nada fácil. Os embates com a comunidade religiosa podem surgir, afinal a relação entre Igreja e Sapucaí nunca foi das mais tranquilas (veja o box). A polêmica mais famosa aconteceu em 1989, quando a Beija-Flor foi proibida por uma liminar obtida pela Arquidiocese de apresentar na Sapucaí uma réplica do Cristo caracterizado de mendigo (no enredo “Ratos e urubus… Larguem minha fantasia”, de Joãosinho Trinta).

— Tem gente que acha o carnaval um espetáculo profano, o que é um preconceito estrutural. Talvez seja porque o desfile é, em sua origem, ligado à comunidade negra e pobre do Rio — observa. — Nunca tratei meu carnaval como festa ou entretenimento. Num país onde a educação não é para todos, ele pode fazer refletir. É uma manifestação artística que não difere em nada do que Mel Gibson levou para o cinema ( em 2004, o ator dirigiu o filme “A paixão de Cristo” ).

Homem de fé que não segue doutrina religiosa (“minha família tem tradição evangélica e católica, e a vida me aproximou de pessoas de religiões de matriz africana”), Leandro também cita como exemplo as novelas bíblicas e a representação de Cristo em pinturas e esculturas (“por que só o carnaval, arte brasileira por excelência, não pode?”).

— Vivemos num ambiente democrático, e o que a Constituição diz é que não se pode vilipendiar imagens. Não tenho a menor intenção de fazer isso — diz ele, que tem trocado ideias com o pastor progressista Henrique Vieira. — O enredo é uma homenagem, o que já é tradição da escola.

Nascido no Jardim América e criado na Ilha do Governador, Leandro é formado em Belas Artes pela UFRJ e, aos 35 anos, se tornou o artista mais importante do carnaval atual. Por meio da cultura popular, dialoga com o mundo contemporâneo, lançando um olhar crítico sobre o Brasil. No último carnaval, propôs um acerto de contas com a história oficial nacional no enredo “História pra ninar gente grande”, que acabou tomando as salas de aula. Agora, no espetáculo “Matrizes”, que conta com sua direção artística e está em cartaz no barracão da escola, propõe um passeio por manifestações brasileiras como jongo e choro.

Inspiração em 2003

Revisitar antigos temas da verde e rosa é outra característica do carnaval de Leandro — como faz agora, bebendo na inspiração de 2003, quando a escola cantou os dez mandamentos.

— A mesma Mangueira que falou da história de Moisés para semear e cultivar o amor volta agora para falar do amor de Cristo — observa. — No enredo de 2019, que tinha a ver com o de 1988 (“100 anos de liberdade, realidade ou ilusão?”), refletimos sobre a questão da representatividade. Durante muito tempo, os desfiles ficaram presos a um aspecto ufanista do país. Acho importante apresentar propostas que se coloquem como farol para outro olhar, que descolonize o pensamento.

Representatividade continua sendo assunto para o carnavalesco, que observa um crescimento da comunidade evangélica entre os moradores da Mangueira (“vão se sentir abraçados pelo enredo”). Mas quando olha para ela, enxerga o que define como “quilombo do afeto, onde cabem todos os santos, orixás, Luisa Mahin, Tereza de Benguela e Jesus Cristo”.

O processo de materialização da ideia ainda é embrionário, mas Leandro já tem uma imagem na cabeça.

— Vejo um fim de desfile com Cristo sendo louvado, baianas e passistas com temáticas como o Sagrado Coração e o Sudário. Porque o carnaval é quando o pobre do Morro da Mangueira tira a sua cruz das costas.

De OGlobo