Carta de Lula passou de banqueiros a evangélicos

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Foto: Ricardo Stuckert

Em um intervalo de 20 anos, Lula assinou duas cartas públicas destinadas a melhorar suas condições de governar e de vencer as disputas de 2002 e 2022. A contraposição de contexto e conteúdo entre elas revela mais do que as circunstâncias de cada corrida eleitoral. Documenta mudanças de forma e conteúdo do debate político brasileiro, bem como da disposição em fazer concessões da principal liderança política de esquerda no Brasil — e também de sua militância a encampá-las.

Embora intitulada “Carta ao Povo Brasileiro”, o documento de junho de 2002 destinava-se menos à população que iria às urnas, e mais à pouco numerosa elite econômica na qual o petista já enfrentava maior resistência. Já a “Carta Pública ao Povo Evangélico” desta quarta-feira é de fato destinada ao eleitorado — e a um segmento hoje muito maior do que era há 20 anos.

Os dois documentos foram escritos “na defensiva”, motivados pela necessidade de persuadir o “outro” (outrora o mercado, agora os mais conservadores) de que não há motivos para temer a eleição do petista. Ainda que se possa lembrar da tática tucana de incutir medo por um possível descalabro econômico, o texto lulista de 2002 enfrentava uma desconfiança em boa parte justificada pelo fato de que o PT jamais governara o país, e mantinha até então um programa de ruptura com pontos da cartilha da economia de mercado.

O “adversário” agora é de outra forma, também no conteúdo. Não é necessariamente um rebaixamento do debate eleitoral quando a discussão econômica perde protagonismo para a pauta de valores. O problema de hoje tem sido principalmente como a “troca de ideias” tem acontecido. A carta atual tem como contexto uma eleição sem limites no tiroteio de mentiras e agressões para destruir a reputação rival —não restritas a um só lado, é verdade.

Reflexo disso é o nível de concessões que Lula se sente obrigado a fazer em cada momento. Se as promessas de que seu governo teria como “premissa” “o respeito aos contratos e obrigações do país” e de manter “sob controle as contas públicas” foram tratadas à época como uma importante inflexão na linha petista, elas soam agora como suaves nuances na comparação com o texto atual.

A “guerra santa” escalou a tal ponto que Lula achou pouco reafirmar ser “pessoalmente contra o aborto” ou outras juras de religiosidade. Para não deixar dúvidas de sua adequação ao conservadorismo mais estrito, o petista se deu ao luxo de declarar na carta entender que “o lar e a orientação dos pais são fundamentais na educação de seus filhos, cabendo à escola apoiá-los dialogando e respeitando os valores das famílias, sem a interferência do Estado”.

Os sinais dos tempos estão expostos também na reação interna aos documentos. Se, na época do alinhamento à ortodoxia neoliberal houve resistência de alas do PT e da esquerda, embriões de dissidências inclusive partidárias durante seu mandato seguinte, agora a esquerda não vê mais espaço para matizes nem criticará a guinada, unânime na avaliação de que há muito mais coisa em risco com a ameaça à democracia vista em Bolsonaro.

O Globo