Bolsonaristas moderados já aceitam cassação do “mito”

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Foto: SILVIO AVILA/AFP

Apoiadores moderados de Jair Bolsonaro aceitam que o ex-presidente seja alvo de investigação e afirmam respeitar eventual condenação pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) caso se comprovem ilegalidades na contestação das eleições 2022. A Corte retoma nesta terça-feira o julgamento de ação que trata de ataques feitos por Bolsonaro ao sistema eleitoral brasileiro em reunião com embaixadores. O primeiro a votar na sessão que poderá tornar Bolsonaro inelegível por oito anos será o relator do caso, ministro Benedito Gonçalves.

Pesquisa qualitativa realizada pelo Laboratório de Estudos da Mídia e Esfera Pública (Lemep), do Iesp/Uerj, mostra que bolsonaristas moderados (grupo que apoia o ex-presidente, mas é contrário aos ataques de 8 de janeiro) tendem a presumir que o ex-chefe do Executivo é inocente, mas se diferenciam do discurso dos “convictos”, que aprovaram as invasões aos prédios dos Três Poderes. No segundo grupo, prevalece o entendimento de que o ex-presidente é vítima de uma “armação” entre integrantes do Poder Judiciário e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Pesquisa feita pelo Datafolha em janeiro, dias após o ataque golpista, mostrou que apenas 10% dos eleitores de Bolsonaro declaravam àquela altura apoiar a depredação ocorrida em Brasília. Apesar de ser um retrato daquele momento em que foi feito, o levantamento indica que os bolsonaristas moderados correspondem a uma significativa parcela dos eleitores do ex-presidente.

A desconfiança no Judiciário entre apoiadores de Bolsonaro foi alimentada nos últimos anos por declarações do próprio ex-presidente em afronta ao TSE e a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Ainda assim, no grupo dos moderados, são recorrentes falas que defendem apurações contra o candidato derrotado em 2022. “Precisa ser investigado. Precisamos saber se realmente existem essas provas. Se realmente existirem, precisa ser punido”, vocalizou uma eleitora da Bahia.

“Em relação ao ex-presidente estar envolvido nisso, eu creio que não, essa é minha opinião. Mas vamos esperar as investigações serem concluídas”, disse um fiscal de 53 anos, do Ceará, seguindo a mesma linha. “Acho que ele não tem nada a ver com essa teoria, se não já teria feito durante seu mandato. Porém, deve ser investigado imparcialmente”, corroborou um comerciante do Tocantins.

A ênfase do grupo na necessidade de uma investigação — apesar de o processo já estar em fase de julgamento — denota que esse segmento não está convencido de que existem elementos suficientes para condenar Bolsonaro, embora o ex-presidente tenha feito reiterados ataques ao sistema eleitoral mesmo após ter sido alertado pelo Judiciário de que isso configura crime, como mostrou o GLOBO.

“Até agora, não vi provando nada de incorreto no mandato de Bolsonaro”, afirmou um motorista que trabalha por aplicativos em Goiás. “Até o momento, é só a mídia tentando fazer uma intriga para ver se consegue chamar a atenção!”, opinou um eletrotécnico de 24 anos, também de Goiás.

Entre os apoiadores mais radicais do ex-presidente, diversas declarações associam a possibilidade de condenação de Bolsonaro à vitória de Lula na eleição do ano passado.

“Bolsonaro é vítima de armação da esquerda o tempo todo. Essa é a verdade”, declarou uma apoiadora do grupo dos convictos, moradora do Pará. “Mais uma mentira do PT como todas as outras. Fazem de tudo para descredibilizar o nosso presidente Bolsonaro”, declarou outra, de Minas Gerais. “Tudo orquestrado pela quadrilha do PT”, acrescentou.

Nesse segmento do bolsonarismo, as suspeitas levantadas pelo ex-presidente em relação à segurança das urnas eletrônicas transformam-se na certeza de que houve fraude no pleito do ano passado.

“Tivemos problemas nas urnas, panes. E, ao meu ver, Bolsonaro estava na frente e o Lula virou como num passe de mágica”, disse a bolsonarista paraense, de 42 anos. “Tem muito escândalo. Pra mim, era pro Lula ter perdido. Acho que fizeram fraudes nas urnas, porque o Jair Bolsonaro ia ganhar de cara”, concordou um eleitor de 26 anos, do Paraná.

O estudo colheu opiniões de eleitores de Bolsonaro sobre o julgamento do TSE pelo WhatsApp. Foram divididos dois grupos de 18 bolsonaristas de diferentes regiões, idades e profissões.

Diferentemente das pesquisas quantitativas, como a do Datafolha, as qualitativas não se propõem a dimensionar opiniões de um grupo (no caso, de bolsonaristas) a cada assunto, mas são capazes de colher análises que podem ser comuns a mais integrantes desse segmento.

O estudo do Lemep é coordenado pelos pesquisadores João Feres, Carolina de Paula, Francieli Manginelli e André Felix.

O Globo