A dolorosa epifania do barbeiro tucano

Crônica

 

Faz mais de 10 anos que todo mês tenho uma “briga” marcada com o meu barbeiro, um cearense de trajetória admirável. Ele veio para São Paulo nos anos 70 em busca de uma vida melhor. Comeu o pão que o diabo amassou, mas pode-se dizer que venceu.

Em Sampa, Pedrinho conheceu uma pernambucana, que desposou. Com ela teve um filho, que nasceu “especial”. Mas sua trajetória de vida fez dele um conservador. Aprendeu a cortar cabelo quando serviu no Exército, e não foi só isso que lá aprendeu.

A caserna fez do barbeiro cearense um reacionário. Tem preconceito contra homossexuais e sempre teve um ódio visceral pelo PT. Inexplicavelmente, por conta do Bolsa Família.

Algumas vezes pensei em trocar de barbeiro, mas, além de Pedrinho ser um homem sério, trabalhador e de bom coração – apesar da ignorância –, ninguém corta meu cabelo tão bem quanto ele.

O barbeiro e a família que formou integraram-se à classe média paulista, sobretudo depois que ele começou a ganhar dinheiro – ironicamente, na era Lula –, comprou o imóvel onde funciona a barbearia e se mudou para a Vila dos Remédios, do outro lado do Tietê – morava em Guaianases, antes.

Não chega a ser um bairro nobre, mas a casa é dele.

Uma vez por mês, entro no estabelecimento, abraçamo-nos e logo me acomodo em uma das três cadeiras eletrônicas de barbeiro das quais ele tanto se orgulha, apesar de que jamais entendi por que um barbeiro que trabalha sozinho precisa de três cadeiras.

Enfim, após as gentilezas protocolares, eu ou ele puxamos o assunto política. Às vezes, finjo que desta vez não estou afim de discutir, mas a discussão acaba surgindo. E sempre acalorada. Terminou o corte, porém, volta a cordialidade e nos despedimos com outro abraço.

Pedrinho previu que Marina se mostraria uma farsa e que logo ruiria. E, antes de qualquer outro, já dizia que o candidato “certo” para “derrotar o PT” seria Aécio, que iria para o segundo turno.

Detalhe: Pedrinho só se informa pela tevê e pelo rádio – Globo e CBN. E pelos “doutores” engravatados da Bovespa que também cortam o cabelo ali – a barbearia fica no centro velho. Não lê jornais ou revistas, e parece ter medo da internet e de computadores em geral.

No sábado, fui cortar o cabelo. Alguma coisa me dizia que teria muito a discutir com meu barbeiro, e que, desta vez, a conversa poderia ser diferente.

Explico: Pedrinho é um nordestino orgulhoso, do que dá prova a decoração com motivos nordestinos no salão. Nos dias que antecederam a ida até lá, fiquei imaginando se ele ficara sabendo da onda de ataques a nordestinos na internet…

Quando apareço na porta da barbearia, ele não me encara. Cabisbaixo. E eu, em tom de ironia:

— Como é que anda o barbeiro mais cearense de São Paulo?

— Ah, vai falar da xingação, né?

— Se você quiser…

— Bando de filhas da puta. A gente construiu essa merda dessa cidade.

— Como você ficou sabendo da onda de preconceito, Pedrinho? Está usando computador, agora?

— Deus me livre. Foi a Jussara [a esposa]

— E sobre a “xingação”, o que você sentiu?

— Raiva, né? Que você acha?!

— Não sei, ora. Afinal, você sabe por que xingaram os nordestinos, né?

— Sei…

— Então… Se você não gosta do PT, se tem tanta raiva do PT, fiquei pensando se não iria apoiar os eleitores paulistas do Aécio que xingaram o povo do Nordeste por votar em peso em Dilma.

— Porra, Eduardo! Minha mãe é cearense, meu pai é baiano, meus irmãos são cearenses, minha avó é cearense, porra!

— O que você sentiu?

— Decepção

— Decepção? Não foi raiva?

— Também, mas mais decepção.

— Vamos ver se entendi: você não sabia que os paulistas da gema veem assim o Nordeste?

— Achei que isso era coisa do passado. No meu bairro tem tanto nordestino, aqui no centro tem tanto nordestino… São Paulo é só nordestino, porra!!

— Sim, é verdade. Mas uma parte dos paulistas não se mistura… Ou você não sabia disso?

— Sabia, mas não sabia que pensavam essas coisas…

— Ah, vai me dizer que não sabe quem é Mayara Petruso?

— Quem?

— Aquela filha de um dono de supermercado de Bragança Paulista, estudante de direito, quem, em 2010, logo após a vitória de Dilma no segundo turno, pediu que as pessoas fizessem “um favor” e matassem um nordestino afogado.

— Não sabia. Teve isso, também?

— Teve…

— E o que aconteceu com ela?

— Foi processada, perdeu o emprego, ficou manchada.

— Cadeia não, né?

— Filha de bacana, Pedrinho. Mas, para ser honesto, sendo ré primária…

— Ah, tá. Tendi…

Ficamos algum tempo em silêncio. Pelo espelho, olhava o semblante do meu barbeiro. Juro que havia dor.

— Ficou chateado, né, Pedrinho?

Os olhos dele marejaram.

— Fica assim não, Pedrinho. Essa gente não merece. Eles são ignorantes. Escravizaram as meninas da sua terra, trancaram-nas em quartinhos de empregada sem janela, trabalhando 7 dias por semana. Essa gente odeia vosso sotaque, vossa comida, vossa cultura. Mas não abre mão dos vossos serviços…

— Eu nunca pensei… Falei com a Ju, Eduardo. Estamos pensando em voltar pra terrinha. Juntei dinheiro, aqui. Acho que quero viver onde não sou desprezado. Ela também.

— Não faça isso, meu amigo. Fique e lute. Mas para de votar nesses coxinhas tucanos. Eles representam essa gente.

— Nem sei…

Pedrinho é duro na queda, mas foi ali que a mulher dele, que até então permanecera silente, manifestou-se:

— Ele vai votar na Dilma nem que seja a tapa, Eduardo. Ele e todo mundo lá da Vila. Estou ligando pra todo mundo e tem mais gente fazendo a mesma coisa. Depois a gente vai embora desta merda. Com todo respeito, Edu…

— Imagine, Jussara. Fica tranquila. Entendo perfeitamente. E acho que, de certa forma, você tem razão.